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Atacante Cristiane fala da expectativa para a Copa América e o retorno à Seleção Brasileira

Em entrevista exclusiva, a jogadora conta sobre o pedido de aposentadoria, tomado cinco meses atrás, e da vontade de continuar ajudando o futebol feminino brasileiro 01/04/2018 às 12:51 - Atualizado em 01/04/2018 às 19:30
Show cristiane
(Foto:Rafael Ribeiro)
Camila Leonel Manaus (AM)

Foi exatamente cinco meses entre os dias 27 de setembro e 27 de fevereiro, dias que a jogadora Cristiane anunciou a aposentadoria e o retorno à Seleção Brasileira. Nas duas decisões, algo em comum: o desejo de ser uma voz no futebol feminino brasileiro.

Se a aposentadoria foi um modo de se mostrar contra algumas mudanças que aconteciam na seleção naquele dia, o retorno traz à tona a vontade de continuar ajudando a modalidade e as jogadoras não só com jogadas ou fazendo gols, mas a ter voz, a buscarem o seu espaço. E as duas decisões dela e tomadas após muita reflexão

“Eu acho que foi um retorno muito bem pensado. As duas vezes. Tanto quando eu saí, tanto quando eu voltei. Eu pensei muito bem, não foi uma coisa que eu pedi opinião das pessoas, foi uma decisão muito minha que assim como eu fui criticada quando eu saí, eu fui criticada quando eu retornei, mas não dá pra agradar todo mundo”, explicou em entrevista exclsiva para o CRAQUE.

Para a jogadora que há 16 anos joga com a camisa Canarinho, já conquistou duas medalhas de prata em Jogos Olímpicos (2004 e 2008), o tricampeonato do Pan-Americano (2003, 2007 e 2015), o tetra sul-americano (2003, 2006, 2010 e 2014), além do vice-campeonato na Copa do Mundo de 2007 e ser a maior artilheira em Jogos Olímpicos com 14 gols, a sua caminhada pode ser uma ajuda para as jogadoras mais novas.

Apesar de tanta experiência e dos 32 anos de idade, ela diz que ainda se sente em condições de jogar e brigar por vaga no time principal. “Temos idade para disputar uma Copa do Mundo e uma Olimpíada. O que vai definir se vamos viajar, jogar, sair de titular ou não é o condicionamento de cada uma. Se cuidando não tem porque deixar de competir com uma menina de 20 anos de idade”, declarou.

O primeiro desafio de Cristiane e companhia é a Copa América, que começa no dia 4 de abril, no Chile. O Brasil estreia no dia 5 contra a Argentina no estádio Coquimbo. Uma competição importante para a Seleção já vale vaga para Os Jogos Olímpicos de 2020, em Tóquio, para a Copa do Mundo, na França, e para o Pan Americano, em 2019.

Confira a entrevista com a atacante Cristiane

Como está a preparação para a Copa América e a expectativa pela vaga para a Copa do Mundo e Jogos Olímpicos?

Foi da melhor maneira possível as convocações. Claro que você não tem um período muito grande porque a data FIFA é um período curto então a gente tá indo da melhor maneira possível. Ainda bem que é na data FIFA (a duração da Copa América) porque não era antes, então consegue levar o grupo todo, um grupo forte e é uma competição que não deixa de ser importante. Por mais que as pessoas critiquem ‘ah a Copa América é fácil’. A gente sabe que tem equipe que são tecnicamente abaixo, mas se você bobear elas vão dar  trabalho, se você menosprezar elas podem dar um trabalho muito grande. Então tem que respeitar todo mundo, saber que é importante porque dá vaga para a Copa e Olimpíada e, consequentemente, dá mais visibilidade para o futebol feminino no Brasil.

Vocês vão estrear com um clássico contra a Argentina. Como a seleção está encarando esse time? O quanto a pressão da estreia e a rivalidade podem pesar nesse jogo e como estão trabalhando para que isso não atrapalhe vocês?

A gente sabe tem um respeito muito grande pela Argentina inclusive em 2006 perdemos uma Copa América para elas e tivemos que jogar uma repescagem para jogar Olimpíada por isso que não pode bobear, tem que entrar respeitando, mas não tendo medo de jogar. Entrar da melhor maneira possível tentar fazer o nosso melhor, jogar bem e isso que técnico vem passando pra gente.  Só que perto da competição, quando tá perto de viajar é onde a gente consegue mais informações de como lidar com a equipe argentina.

A Seleção tem uma hegemonia na América do Sul. Acha que ela deve continuar, como analisam as adversárias do grupo?

As Seleções sempre querem quebrar isso, assim como a Argentina conseguiu em 2006 e outras seleções tentam isso também. Como eu falei, às vezes você pega uma seleção que não é muito boa, mas vai te dar trabalho, que bate muito porque a Copa América é uma competição que tem muito disso, tem jogo muito duro, muito truncado e a gente também acaba tendo problema com a arbitragem. Então é uma competição que tudo pode acontecer e só vai depender da gente, então não pode bobear porque é o que todo mundo quer que aconteça.

O Brasil vem treinando desde o início do ano, mas não realizou amistosos, não participou da Copa Algarve.  Você acha que a questão de ter apenas treinado pode influenciar na questão de ritmo de jogo?

Isso é uma questão que todo mundo debateu: por que o Brasil não entrou na Algarve. A gente meio que se questionou, mas depois entendeu o porquê. A gente acabava vindo nessas convocações de janeiro ainda na data Fifa onde você tem uma ou duas semanas 12 dias ou mais e as atletas vinham cada uma de um jeito. Uma começando pré-temporada outra e já jogando no meio temporada e se tentou deixar todo mundo condicionado da melhor maneira possível todas as atletas então ele preferiu deixar todo mundo num nível para competir bem do que pegar uma vez na pré-temporada não estar 100% bem quanto a outra a outro clube nem começou a treinar. Isso aconteceu com todo mundo não foi uma coisa especifica com a atleta A ou B. Tinha clube não tinham um treinamento físico correto, no outro clube faltava uma academia, no outro clube faltava isso então se tentou deixar todo mundo no mesmo nível para disputar a Copa América e foi uma coisa que todas as atletas entenderam qual foi a necessidade de não disputar a Algarve que o problema era esse.

Como foi essa decisão de voltar à seleção brasileira após você anunciar a aposentadoria?

Eu acho que foi um retorno muito bem pensado as duas vezes. Tanto quando eu saí, tanto quando eu voltei. Eu pensei muito bem, não foi uma coisa que eu pedi opinião das pessoas, foi uma decisão muito minha que assim como eu fui criticada quando eu saí, eu fui criticada quando eu retornei, mas não dá pra agradar todo mundo, não dá pra fazer todo mundo feliz com as decisões que agente acaba tomando. Eu analisei tive em uma convocação anterior tentando acompanhar algumas mudanças que tinham dito que iria acontecer. Realmente algumas aconteceram, devagar, mas aconteceram melhorias, mudanças aqui dentro da seleção e isso acabou me chamando um pouco mais de atenção e aqui dentro tentando mais uma vez já que do lado de fora a gente acabou tendo um espaço menor se criou aquela coisa toda todo mundo falando comentando e de repente sumiu, não falava-se mais, não tinha mais um retorno decidi que aqui dentro iria conseguir tentar mais um pouco o sinal das mudanças mostra que evoluiu alguma coisa a minha saída e a saída de outras meninas também.

Quando voltou, você falou sobre a questão de olhar para as outras meninas. Como é esse olhar? De forma você pretende olhar para essas meninas?

Quando digo olhar é escutar a atleta, escutar o que ela tem para dizer. Todo mundo tá aqui para contribuir. Não para fazer mal ou atrapalhar se não, não estaríamos aqui durante tantos anos. É saber o que falta, o que a atleta precisa, o que é melhor. Escutar ideias tanto de melhorias dentro da seleção quanto no futebol feminino em si, então eu acho que é nesse sentido.

Falando em olhar, como você analisa a evolução do futebol feminino? O que mudou, o que ainda falta melhorar na sua visão?

Eu não tô acompanhando muita coisa porque na China fuso horário é diferente e algumas informações demoram a chegar para mim então tem muita coisa que acabo não acompanhando. Acho que é uma coisa que tem que perguntar individualmente em cada clube. Eu sou atleta ainda não tem como analisar tudo o que acontece tudo o que acontece no futebol feminino. Pelo que sei o campeonato retornou. Tem a Série B e agora tem exigência em relação aos clubes que vão disputar a libertadores terem um futebol feminino. Deveria partir normalmente não se exigir, mas já que isso aconteceu que eles façam da melhor maneira possível.

Você e a Formiga são as veteranas. Como é ser influência de uma nova geração?

Meu retorno e da Fu foi muito por isso. É engraçado porque as pessoas falam ‘pô, trouxeram a Formiga e a Cristiane de volta’. Eles falam como se a gente tivesse 100 anos de idade e não, hoje nós somos, teoricamente, as mais velhas do grupo no sentido de estar aqui há tantos anos. Sobraram três atletas: só eu a Formiga e a Marta, então a gente recebe um pouco de critica por isso. Ah, as três estão ai ainda, mas as pessoas se esquecem que temos idade para disputar uma Copa do Mundo e uma Olimpíada o que vai definir viajar, jogar, sair de titular ou não é o condicionamento de cada uma. Se cuidando não tem porque deixar de competir com uma menina de 20 anos de idade, então isso é uma coisa que as pessoas não entendem. Elas acabam confundindo porque estamos há muitos anos e somos as mais experientes que sobraram no grupo. Isso é importante para as meninas mais novas, elas acabam tendo um pouco mais de voz e também experiência, porque não? Nisso a gente tem a contribuir e muito para essas meninas.

Na última semana, jornalistas esportivas do Brasil se uniram em um movimento contra assédio nos estádios? Vocês souberam desse movimento? Como você, como jogadora vê esse movimento e o que acha disso, da mulher buscar seu espaço no futebol dentro e fora de campo?

Sim, nós acompanhamos isso e isso é lamentável porque falta respeito. Você não vê isso acontecendo com os homens, você não vê o repórter no estádio e a mulher indo agarrar ele, enfim, atrapalhar o trabalho dele até sem autorização. Isso não é bacana, é um assédio muito pesado, é uma coisa que a gente vem brigando muito. Nós mulheres o tempo inteiro temos que provar que a gente sabe, que nós entendemos daquilo. Então falta muito isso também, ter esse espaço, respeitar o espaço da mulher onde quer que ela esteja trabalhando. No estádio principalmente porque a gente sabe que tem uma quantidade grande de torcedoras. É uma coisa que deixa a gente até revoltada porque, caramba, o tempo inteiro tem que ficar brigando com todo mundo para pode trabalhar, poder mostrar a capacidade e sempre tem dúvida, sempre tendo esse assédio, a falta de respeito. Isso (o movimento) tem que acontecer. Tem que se unir, tem que uma estender a mão para a outra e tentar mudar isso aí: esse assédio que tem e essa falta de respeito.

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