Segunda-feira, 22 de Julho de 2019
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Guerreiro do wakeboard: Jair de Souza, o 'Jajá', vai disputar campeonato na Argentina

Jajá é indígena, tem somente 12 anos, arrasa no wake, e quer chegar cada vez mais longe no esporte



11/02/2018 às 08:09

Um garoto indígena que ‘alucina’ no wakeboard e faz até mais bonito que muitos atletas adultos.  Este é Jair Paulino de Souza, o “Jajá”, da etnia Carapanã, que tem somente 12 anos, mas manda muito bem no wake faz tempo.  Jajá vive na margem do rio Tarumã-Açu, pratica a modalidade desde os cinco anos, venceu campeonatos em nível nacional, e agora pretende fazer manobras ainda mais longe, representando o Amazonas e o Brasil nas águas da Argentina, no campeonato IWWF World Wakeboard Boat, de 18 a 24 de março.

Ele sonha alto, mas para competir na Argentina está correndo atrás daquilo que é mais difícil do que realizar qualquer manobra dentro d’água: conseguir patrocínios. 

“Agora eu estou tentando ir representar o Amazonas e o Brasil internacionalmente”, conta Jajá, que nunca foi para outro país. “Se eu conseguir viajar para a Argentina será muito bom, mas até agora só consegui a promessa da passagem pela Semjel (Secretaria Municipal de Juventude, Esporte e Lazer), mas o custo do hotel, alimentação e outras coisas é muito alto. Além disso, tenho que comprar minha prancha nova, e meu equipamento sai, no mínimo, R$ 4 mil”.

Mas, apesar dos custos e dificuldades para a prática da modalidade, o amor de Jajá pelo wake fala mais alto. “Sinto muito orgulho, vendo o papai alegre por mim, ele gosta bastante quando me vê evoluindo no esporte, melhorando na escola, sendo um filho melhor, e esse esporte traz adrenalina e eu gosto bastante disso”, enfatiza.


Seu pai, Jairo de Souza, confirma o bem que o wake fez ao filho.  “A educação dele melhorou bastante com o esporte porque o Jair sempre foi uma criança muito ativa, então procuramos um esporte que ele gostasse, e vimos que ele tem talento e gostou do wake. Para nós, é um orgulho, porque ele viaja para representar o Amazonas, e se torna conhecido lá fora. Ninguém imagina um indígena andando de wake, então todos ficam surpresos com ele, que, quando vai competir, vai pintado, e chama muito a atenção”, conta o pai de Jajá. E o garoto explica porquê usa as pinturas no corpo. “Eu vou pintado para todas as competições porque estou indo para uma batalha, e toda pintura tem um significado. Por exemplo, vou muito com a pintura da sucuri, que vem da água”, explica.


 

O ano da evolução

Em 2017, Jair teve várias conquistas no esporte. Conquistou o pódio na 1ª etapa do Campeonato paulista; foi também 1º lugar no Brasileiro de Wakeboard, em Nova Lima – MG; e, em novembro, venceu a 3ª etapa do Circuito Brasileiro de Araraquara – SP e 4ª Etapa do Circuito Paulista de Marola, em que competiu na categoria adulto. “Foi tudo muito bom, fiquei muito feliz, e as pessoas também gostaram muito dos meus resultados, ainda mais por eu ser indígena”, conta ele.

Treinos custam caro

Para competir em alto nível, como Jair vem fazendo, ele precisa estar sempre se aperfeiçoando, e foi por isso que o atleta foi treinar em São Paulo, com alguns dos principais atletas e professores do Brasil, no final do ano passado. “Eu ia passar uma semana lá em São Paulo para aprender novas manobras, melhorar minha técnica, e acabei passando um mês na Marreco Wake School (MWS), que me patrocinou, e eu fiquei lá treinando. Deu pra aprender umas dez manobras diferentes”, conta. 

Praticar e ser uma fera no wakeboard não é mesmo fácil e nem barato. Os treinos na MWS custam três mil reais por semana, segundo o pai do atleta, que fala da preparação do filho. “O Jair vai fazer esse treino em junho e em dezembro”, adianta. Em Manaus, mesmo morando no próprio local de treino (à margem do Igarapé Tarumã-açu), a rotina não é fácil para o bolso. “A lancha é emprestada, e em um treino de 30 minutos, gastamos 60 litros de gasolina e se o barco for a diesel são 35 litros, muita coisa”, disse ele. Quem tiver interesse em patrocinar Jajá, pode entrar em contato com seu pai pelo telefone 99458-6909.

Da beira do rio para cima da prancha

O início do jovem atleta no wake foi bem inusitado. Jajá mora de frente para o Igarapé Tarumã-açu, e conta que foi por causa disso que ele se interessou pelo esporte. “Eu via os meninos andando de wake, gostei bastante, e um amigo do meu pai, o Rogério Doró, tinha uma prancha, que era velha, mas dava pra usar, e eu tinha um tênis de ir pra aula, que eu peguei, furei, e botei pra usar na prancha. Meu pai viu aquilo, e não acreditou porque ele tinha acabado de comprar o tênis (risos), mas fomos pro rio, e eu levantei (na prancha) de primeira”, relembra Jajá, com muito bom humor.

Só após um tempo o pai de Jajá conseguiu dinheiro para comprar a bota utilizada para a modalidade. “No início, meu pai levava como uma brincadeira, mas comecei a me dedicar bastante, e meu primeiro título veio aos 11 anos, e o meu título mais recente foi o de Araraquara (SP), que foi muito legal!”, conta.

Hoje, o tão jovem Jair é um dos principais nomes, não só do Amazonas, mas do país no wake, e quer seguir crescendo. “Quando tem campeonato aqui, a galera já sabe que eu vou ficar em primeiro lugar. Eu gosto bastante das competições, de subir no pódio... E como aqui tem cada vez menos atletas, só tem eu e mais um que viaja para representar o Amazonas lá fora”, acrescenta.

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