Terça-feira, 16 de Julho de 2019
ENTREVISTA

Preparador do lutador Jacaré fala sobre 1ª vitória brasileira no UFC em 2018

Márcio Soares foi convidado por Jacaré para acompanhá-lo até os Estados Unidos. Ele foi um dos responsáveis pela primeira vitória do Brasil em 2018. "Era uma pressão", diz ele



04/02/2018 às 13:18

Ele é a fera que o Ronaldo Jacaré quis que estivesse ao seu lado durante seu período de treinamento para o UFC Fight Night, realizado no último dia 27, nos Estados Unidos. Ele é Márcio Soares, triatleta (que já completou provas de longa duração, como o Ultraman, Ironman e Ecomotion), professor de educação física, professor de graduação e pós-graduação, técnico de triathlon e, também, preparador físico e fisiologista de Ronaldo Jacaré, lutador que deu muito orgulho ao Amazonas e ao Brasil, no último final de semana, com um belo nocaute, logo no primeiro round, no seu oponente, Derek Brunson.

Márcio encarou uma das missões mais difíceis de sua carreira profissional: preparar fisicamente um lutador que estava há seis meses parado, para que ele ficasse pronto para lutar em menos de três meses. Nesta entrevista concedida ao CRAQUE, Márcio revela como foi viver o mundo do UFC de pertinho.

Como foi a festa da vitória do Jacaré?

Assisti à luta da primeira fileira, e quando ele encaixou o chute e o oponente dele foi caindo já deu uma emoção grande, e quando finalizou a luta, foi uma alegria só, porque tem toda uma tensão normal antes de uma luta, então todo mundo festejou muito, todo mundo pedindo autógrafo, é realmente emocionante. E o modo como ele agiu depois, tudo que ele passou e sentiu, passa pra gente, que esteve todo o tempo de preparação perto, convivendo e vendo as dificuldades pelas quais ele passou.

Antes da luta, como você falou, vocês estavam tensos? Como foi ali nos bastidores?

Ele, particularmente, estava muito tranquilo. E a gente sempre fica apreensivo porque é uma luta, mas a equipe estava confiante em vencer.

Havia muita pressão da torcida? Pois, até aquele momento, nenhum brasileiro havia ganhado na noite, e nem neste ano.

Inclusive, essa informação nós não levamos a ele. Se disséssemos, acho que também não íamos pressioná-lo porque ele encara muito bem, mas, de qualquer forma, era uma pressão, o Brasil todo sem nenhuma vitória em 2018, então ele seria a esperança, mas passou por certa desconfiança por estar parado (por meses, após duas cirurgias), por ter 38 anos, e por ter vindo de uma derrota. Mas estarmos treinando distantes de tudo, nos Estados Unidos, ajudou no resultado da luta. Não fizemos muito alarde, a equipe foi fantástica, e deu tudo certo.

Você já conhece o Jacaré há bastante tempo, né? Você pode contar como vem sendo sua trajetória com ele, e como foi o convite para acompanhá-lo no treinamento para a luta, nos Estados Unidos?

Conheci o Jacaré e o sensei Henrique Machado (técnico dele na época), e o Henrique me convidou pra fazer parte da preparação do Jacaré, e foi um período em que a gente conviveu, depois ele foi pro Rio de Janeiro, e nos distanciamos fisicamente, mas a gente conversava e, após a derrota dele, do modo como ocorreu, eu liguei pra ele, por me preocupar com o atleta e com o amigo. Tivemos uma longa conversa, e ele falou dos planos dele de ir morar nos Estados Unidos, ele já ia viajar, então fui encontrar com ele no Rio, conversamos sobre tudo, e ele perguntou qual a possibilidade de eu ir com ele para o camping programado para meados de novembro, focando na próxima luta, e eu disse que era possível, apesar dos meus compromissos em Manaus, e ficou tudo acertado. 

E como foi a experiência de preparar um lutador, para você que é acostumado com treinamento de triatletas?

Eu tinha tido essa experiência quando ele começou, aqui em Manaus, mas lá é um evento grande, e um mundo totalmente diferente do triathlon, apesar de que na preparação do Jacaré, ele nadava, pedalava e corria (risos), não nada direito, mas o esforço era grande. Mas a luta, assim como qualquer outro esporte, tem que obedecer aos princípios do treinamento esportivo, então precisa haver o treino e o descanso, onde você melhora. Existe um concepção de que quanto mais treino, melhor, e muitas vezes se quantifica o treino por horas de treino, mas existe o fator intensidade, o fator da idade, e o Jacaré já tem 38 anos, as lesões que ele teve, então isso é muito relativo, e, na minha visão, as pessoas na luta, no esporte, treinam mais do precisam, e acabam se machucando. Então o treino dele foi diminuído, treinava, no máximo, três horas por dia. Lá, minha função era a preparação física e fazer o controle fisiológico, o monitoramento da adaptação aos treinos, por exemplo, nós tínhamos o controle diário das horas de sono dele, frequência cardíaca, nível de estresse, quantidade de dor nos músculos, e tudo era avaliado junto com a equipe.

A que você atribui a bela vitória do Jacaré?

O mérito da vitória é do Jacaré, mas a coisa muito boa que aconteceu foi a relação boa que houve entre a equipe, o trabalho em conjunto. Sempre procuramos fazer o que fosse melhor para ele, coisa que parece fácil, mas não é. Precisamos deixar o ego de lado, procurar se valorizar e trabalhar em função dele. Inclusive, em princípio, eu ia entrar como corner dele, mas conversamos melhor, e vimos que era melhor que entrasse outro rapaz. Se me perguntassem, lógico que eu queria entrar e sentir aquela emoção, mas tínhamos que fazer o melhor pra ele.

E, agora que você entrou definitivamente no mundo da luta, tem planos para o futuro?

Meu plano é continuar colaborando. Em 15 dias, ele já vai iniciar uma preparação, vou enviar o treinamento dele por aqui, por enquanto, pois tenho minha família, atletas em Manaus, o triathlon sempre continua, e também sou professor da Faculdade La Salle, que me apoiou para que eu pudesse ir para os EUA. Mas nosso objetivo é o cinturão, e o que é muito bom é que ele disse que já está com vontade de treinar. Vamos ter mais tempo para uma próxima luta, porque para essa, só tivemos dois meses e meio. Ele é um atleta fora de série, mas estava parado, e o Ronaldo Jacaré que lutou, não estava 100%, ele sabia, nós sabíamos, e consideramos isso na própria estratégia de luta. Mas ele estava feliz, a atitude mental dele é muito grande, é autoconfiante. 

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