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Superação

No boxe, jiu-jítsu ou na capoeira, cadeirante Marcley da Silva é craque na arte de lutar

A cadeira de rodas não impediu Marcley de treinar e evoluir em três modalidades e para ele o boxe, a capoeira e o jiu-jítsu não são suficientes 02/07/2017 às 05:00 - Atualizado em 02/07/2017 às 07:11
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Foto: Antônio Lima
Camila Leonel Manaus (AM)

Marcley da Silva é um lutador no sentido literal da palavra. Aos 25 anos, ele é faixa-roxa de capoeira, faixa-azul de jiu-jitsu e, há um ano, luta boxe no projeto Social Ring Boxe. Todos os dias, ele sai de casa para treinar e o meio de locomoção para ir de casa, no bairro Novo Aleixo, para o Ginásio Zezão, que fica na Grande Circular, é a cadeira de rodas. O motivo é a dificuldade de conseguir encontrar ônibus adaptados que funcionem na capital amazonense, mas ele não desiste de fazer o que mais ama: lutar.

“Vejo muita dificuldade de andar nos ônibus. Mesmo quanto tem o elevador, muitas vezes não funcionam”, desabafa. Por isso, ele vai aos treinos ‘na braçada’. “Muitas vezes eu venho treinar de cadeira de roda, na braçada mesmo. Eu entendo assim: aquelas pessoas que estão em uma cadeira de rodas às vezes se prendem e se impossibilitam de fazer esporte. Então eu dou graças a Deus por ter minha vida saudável”, disse o jovem que revela ter um motivo especial para escolher a luta. “Eu me vejo assim, sou uma pessoa muito guerreira. Todo o guerreiro tem que dar o sangue para poder vencer”, completou o pugilista que nasceu com artogripose, uma deficiência que causa má formação nas articulações.

O primeiro esporte de Marcley foi o jiu-jitsu. Aos 11 anos ele foi incentivado por um amigo. “Ele disse ‘Marcley, vem treinar com a gente, tu vai se divertir muito’ e eu fui na dele”. Da arte suave, ele conheceu a capoeira e movido pela curiosidade entrou para a capoeira. E da capoeira acabou apresentando o boxe para o jovem, já que sempre que chegava no Ginásio para treinar, via os pupilos do professor Pedro Nunes trocando luvas. “Vi o professor, falei com ele, fui conversando e perguntei se tem cadeirante treinando e ele falou não e disse que eu quero treinar boxe. Vi a trocação e comecei a me empolgar e toda semana estou aqui”, relembra.

A rotina de treinos de Marcley é intensa. Treina boxe três vezes por semana e já fica para as aulas de capoeira. Os treinos são adaptados: um sparring senta em uma segunda cadeira de rodas e treina com o pugilista. Eles ficam sentados e a gente começa a trocar soco”. O sparring Zazi, que treinava com Marcley no dia da entrevista disse que ele tem o braço pesado. “Meu braço está doendo de tanto levar soco”.

Mesmo treinando três modalidades, para Marcley não acaba por aí. No futuro, ele quer entrar para o MMA. “Eu pretendo ingressar no MMA também e eu vejo nosso atleta amazonense, que é o José Aldo, e muitas vezes eu me alegro em ver uma amazonense lutando lá (no UFC) e futuramente me vejo lutando lá também”.

Tanta determinação de Marcley é explicada pela forma como ele enxerga o esporte. Enquanto para muitas pessoas, praticar uma modalidade é um passatempo, para ele, lutar significa uma forma de melhorar a qualidade de vida. “Esporte pra mim é tudo porque além do esporte eu tendo cada vez a me expressar melhor com as pessoas meu lado sentimental meu lado positivo de ser uma pessoa bacana é isso que é esporte para mim”.

O principal desafio para o lutador é encontrar um adversário. No Amazonas não há outro atleta que pratique. Pedro Nunes, que coordena o projeto avisa que está tentando achar desafiantes em São Paulo. “Eu já estou fazendo meus contatos em São Paulo e logo a gente leva ele para lutar com os cadeirantes. Esse ano ainda ele deve ir por isso estou treinando ele firme”, comentou Nunes.

Desafios dos dois lados

Não é só Marcley que é desafiado a cada treino. Seus professores também são. Tanto Pedro Nunes, do boxe, quanto o Mestre Espiga, da capoeira falam que nunca haviam treinado um cadeirante e isso trouxe desafios para eles também, mas os dois mestres falam orgulhosos da evolução do aluno.

“Quando o praticante tem atitude, ele supera todas as barreiras e ele sabe o que quer. Eu aprendo com ele e ele aprende comigo e a cada instante a gente aprende os dois juntos. Para mim é novidade porque não mexia com boxe de cadeirante”, explica.

Já o Mestre Espiga fala que as limitações físicas de Marcley viram trunfos para ele na hora da luta.

“Eu não tenho palavras para descrever a vontade dele de vencer. Não existe obstáculo pra ele. Na capoeira ele é um talento que faz coisas que as outras pessoas não fazem. Eu conheço ele há muito tempo e vejo ele superando todo mundo”, disse Espiga, que fez um trabalho adaptado com o aluno, que hoje é professor. “Eu fiz o trabalho básico com ele e como ele não conseguia utilizar as pernas, o braço passa a ter duas funções: de esquiva e giro”, declarou.

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