Segunda-feira, 22 de Julho de 2019
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Dossiê Olímpico: Jogos de Saint Louis 1904 voltaram a decepcionar o Barão de Coubertin

Assim como aconteceu nas Olimpíadas de Paris quatro anos antes, os jogos em solo norte-americano ficaram em segundo plano por conta da Feira Mundial, em Saint Louis. "Jogos Antropológicos" realizados durante o evento envergonhou ainda mais a competição 



1.jpg Os Jogos de Saint Louis de 1904 fracassaram, assim como a Paris 1900.
29/02/2016 às 13:58

A Olimpíada que não deveria ter acontecido. A terceira edição dos Jogos Olímpicos da Era Moderna realizada em 1904, Saint Louis, nos Estados Unidos, é até hoje lembrado como o mais desorganizado e de pior desempenho esportivo de todos os tempos.

Repetindo o erro de quatro anos antes, o Comitê Olímpico Internacional associou os Jogos a Feira Mundial de 1904. Não deu outra: fracasso total. O sonho olímpico do Barão de Coubertin, assim como em Paris 1900, se transformara em pesadelo.

Inicialmente prevista para acontecer em Chicago, cidade bem mais preparada, os primeiros Jogos no Continente Americano foram levados para a pequena cidade do estado do Missouri por uma imposição do presidente Theodore Roosevelt, que queria agregar o evento a “Louisiana Purchase Exhibition”, Exposição Universal de 1904.


A interferência política dos Estados Unidos indignou o idealizador da Olimpíada e o Barão de Coubertin se negou a assistir aos Jogos - mesmo recebendo carta de Roosevelt, implorando sua presença -, permanecendo em Paris. Mais uma vez tratado como evento secundário, os Jogos Olímpicos de Saint Louis teve início no dia 1º de junho e foi encerrado em 23 de novembro de 1904.

Pouco prestígio

Com os altos custos da viagem transoceânica, a terceira edição dos Jogos foi “esvaziada”, somente 12 países se propuseram a levar delegações à Olimpíada de Saint Louis. Apenas 651 atletas - sendo que mais de três terços do total norte-americanos - disputaram as 91 provas das 18 modalidades esportivas no decorrer dos longos cinco meses pelos quais se estendeu o evento. Com maioria absoluta de participantes, os Estados Unidos foram os grandes vencedores dos Jogos arrebatando cerca de 85% do total de medalhas disputadas (um recorde até hoje).

Como fatos dignos de comemoração, pela primeira vez eram entregues medalhas de ouro, prata e bronze aos três primeiros colocados de cada modalidade. A estreia de atletas do Continente Africano nos Jogos Olímpicos também ocorreu em Saint Louis. Se a qualidade da organização da Olimpíada caiu, o número de modalidades também diminuiu. Em Saint Louis foram disputadas provas no atletismo, boxe, cabo de guerra, ciclismo, esgrima, futebol, ginástica, golfe, halterofilismo, lacrosse, natação, pólo aquático, remo, roque (vertente do croquet), saltos ornamentais, tênis, tiro com arco e luta estilo livre.


Não bastasse a mediocridade da organização dos Jogos de Saint Louis 1904, essa edição da Olimpíada ficou marcada negativamente por uma das maiores vergonhas da história dos Jogos. Os organizadores criaram disputas paralelas ao qual intitularam de “Jogos Antropológicos”, que na verdade era um evento racista e xenofóbico.

Indivíduos de etnias distintas como pigmeus da África, índios mexicanos e mulçumanos das Filipinas foram convidados a praticar esportes enquanto o público, em tom de sarcasmo, se divertia com estas pessoas praticando esportes “de brancos”. O triste exemplo de racismo, felizmente, foi banido das Olimpíadas.

A fascinante história de Felix Carvajal

Entre as histórias bizarras ocorridas na Saint Louis 1904 a maratona merece um capítulo à parte. Começando pela presença de um carteiro cubano chamado Felix Carvajal. Depois de uma verdadeira saga para chegar ao local dos Jogos, o corredor chegou para a disputa da maratona olímpica de calça comprida, coturno e usando uma boina, os organizadores tentaram excluir o atleta, de 1,50m de altura e que ostentava um longo bigode, da prova.

No entanto, os demais maratonistas foram contra a exclusão de Carvajal e o cubano não só disputou a prova como chegou em quarto lugar. A simpatia e determinação do cubano cativaram os adversários que o presentearam com uma placa com os seguintes dizeres: “A Felix, o IV, o mais glorioso vencido da história dos Jogos”.


O vencedor da maratona foi o norte-americano Thomas Hicks, que movido a ovos crus e generosas doses de conhaque e sulfato de estricnina passou mal por diversas vezes durante a competição. Não bastassem as dores, Hicks só foi declarado campeão depois da desclassificação de seu compatriota, Frederick Lorz, que no quilômetro 15 sentiu câimbras e pegou carona em um caminhão, descendo pouco antes da linha de chegada.

Na mesma maratona Len Tau e Jan Mashiani se tornaram os primeiros africanos a disputar os Jogos, e pensar que ambos entraram para a história por acaso, já que os dois zulus foram convidados para participar da Feira Mundial de 1904.

O ginasta norte-americano George Eyser assombrou a todos ao conquistar seis medalhas olímpicas, sendo três de ouro. O fato mais impressionante, no entanto, é que o atleta disputou os Jogos com uma perna de pau, já que, quando criança, perdera um dos membros em um trágico acidente de trem.

Museu Olímpico Roberto Gesta

A incrível participação de George Eyser

Após os primeiros Jogos Olímpicos da Era Moderna terem sido realizados em Atenas e Paris, o Comitê Olímpico Internacional deparou-se com a tarefa de indicar a sede do evento em 1904. Nos documentos da época encontram-se citações sobre Berlim e Estocolmo. Mas a escolha natural seria uma cidade do Novo Mundo, a América.

Buffalo, Chicago, New York, Filadélfia e Saint Louis demonstraram, em maior ou menor grau, interesse nessa possibilidade. No Congresso do COI de Paris de 1901, que tratou da escolha da cidade sede, entretanto, apenas Chicago apresentou-se como candidata, sendo escolhida por unanimidade.

A cidade de Saint Louis, por outro lado, iria organizar em 1903 uma grande Exposição para celebrar o centésimo aniversário da aquisição do território de Louisiana da França. Problemas com a organização de uma Mostra desse porte, com a inclusão de participantes de outros países, adiaram o projeto para 1904.

Os responsáveis pela Exposição, por seu turno, desejavam levar a efeito importantes competições desportivas paralelas, o que ameaçaria o sucesso dos Jogos de Chicago.


Depois de inúmeras discussões sobre essa situação, Coubertin decidiu transferir os Jogos de 1904 para Saint Louis, o que, posteriormente, demonstrou ser um erro.

A Exposição, dividida em doze segmentos, foi planejada para mostrar as conquistas do homem, com ênfase na educação. Os diferentes setores da Exposição pretendiam mostrar a evolução da humanidade, do barbarismo ao apogeu da civilização anglo-saxônica.

Os Jogos Olímpicos de 1904 foram colocados na seção da Cultura Física.

A exemplo do que havia ocorrido com os Jogos anteriores, realizados em Paris em 1900, os organizadores da Exposição, à frente James Sullivan, o mais importante dirigente esportivo dos Estados Unidos à época, denominaram praticamente todos os eventos esportivos levados a efeito em conexão com a Feira como parte dos Jogos Olímpicos.

Assim, competições escolares de nível médio e universitárias foram enquadradas dessa maneira. A própria Cerimônia de Abertura, com a presença do Presidente da República, foi realizada durante o “Encontro Escolástico Olímpico”, que na verdade era o Campeonato Escolar do Estado do Missouri.

Há, ainda hoje, divergências sobre que eventos podem ser considerados propriamente olímpicos.

A atenção maior da imprensa e do público se deu para as competições de Atletismo, que foram monopolizadas pelos atletas americanos. Albert Spalding ofereceu um troféu para o clube que obtivesse mais pontos. Após uma dura disputa entre o New York Athletic Club e a Chicago Athletic Association, o primeiro sagrou-se vencedor.

O amadorismo era considerado condição essencial para participação nos Jogos e essa conduta era rigorosamente observada.

Houve diferentes tipos de medalhas entregues aos vencedores, inclusive algumas de ouro maciço.

Essa medalha foi conquistada pelo atleta norte-americano George Eyser, na prova de “escalada na corda”, na época parte da ginástica.

George Eyser, que não possuía uma das pernas, obteve seis medalhas, sendo três de ouro. Sem dúvida alguma, um dos precursores do esporte paralímpico.


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