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Dossiê Olímpico: o sonho de um francês trouxe de volta os Jogos Olímpicos, em Atenas 1896

A persistência do Barão de Coubertin reascendeu a chama das Olimpíadas e, em seu berço, conseguiu realizar a primeira edição dos Jogos Olímpicos da Era Moderna  20/02/2016 às 11:16
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Os Jogos ressurgiram em Atenas, na Grécia, em 1896.
Denir Simplício e Roberto Gesta Manaus (AM)

Mergulhada na escuridão do esquecimento por 1.500 anos, a chama dos Jogos Olímpicos foi reacesa em 1896, em seu berço, a Grécia, justamente o palco de sua última aparição. Em sua primeira edição, após os Jogos da Antiguidade, crise financeira, confusão de calendários e financiamento milionário marcaram o renascimento do maior evento esportivo do mundo. Os Jogos de Atenas contaram com apenas nove modalidades disputadas por atletas de 14 países, em sua maioria gregos.

Mas a história das Olimpíadas da Era Moderna só existe até hoje graças à persistência de um francês: Pierre de Frédy, mais conhecido como Barão de Coubertin. É impossível desassociar as Olimpíadas como a conhecemos nos dias atuais de seu fundador. Coube ao pedagogo nascido no primeiro dia de 1863 a criação do Comitê Olímpico Internacional (COI) - instituição fundada em 1894 para tornar realidade o sonho do ressurgimento dos Jogos.

No entanto, não foi da noite para o dia que o Barão de Cobertin trouxe as Olimpíadas de volta. O pontapé inicial ocorreu dois anos antes durante um congresso de Educação e Pedagogia, na Universidade de Sorbonne, na França. No encontro, Cobertin vendeu sua ideia aos participantes e os gregos se propuseram a sediar os Jogos. Porém o projeto por pouco não foi engavetado.


Sem aporte financeiro e político do primeiro-ministro grego Charilos Tricoupis, a Grécia falida sofreu para organizar as competições. Tanto que outras cidades se ofereceram para sediar a Olimpíada. Entre elas, Budapeste, na Hungria, Estocolmo, na Suécia, e Paris, na França. A saída de Tricoupis do governo, em 1895, e o financiamento milionário do grego Giorgios Averoff abriram caminho para a realização do sonho de Cobertin.

Com a fortuna empregada pelo arquiteto ateniense, que vivia em Alexandria, no Egito, foi reestruturado o centro de Atenas e construídos locais que abrigaram os Jogos Olímpicos.

Sucesso dos Jogos

Mesmo com a confusão de datas – os gregos utilizavam então o antigo calendário juliano paralelo ao convencional usado no Ocidente, fazendo com que ocorresse uma diferença de 12 dias entre ambos, o que atrapalhou a abertura dos Jogos e a chegada dos atletas de outros países – os Jogos de Atenas foram abertos no dia 6 de abril de 1896.


Cerca de 60 mil pessoas lotavam o estádio Panatenaico, construído em mármore branco quatro séculos antes de Cristo, e reformulado para a Olimpíada. Durante os dez dias de competição, 241 atletas de 14 nacionalidades diferentes disputaram 43 eventos distribuídos em nove modalidades: ginástica artística, atletismo, ciclismo (estrada e pista), esgrima, tiro, natação, levantamento de peso e luta olímpica (greco-romana).

Coube ao norte-americano James Connolly se tornar o primeiro campeão Olímpico da Era Moderna ao vencer a prova do salto triplo. Sem a participação de mulheres e tendo como maioria atletas gregos, foram os Estados Unidos que lideraram o quadro de medalhas dos Jogos Olímpicos de Atenas. Mesmo sem enviar uma representação oficial, os norte-americanos subiram ao lugar mais alto do pódio em 11 provas.


Das 12 competições do atletismo, nove foram vencidas por representantes da equipe da Associação Atlética de Boston. Na hoje tradicional maratona, inserida nos jogos graças a um pedido especial de Michel Bréal - amigo do Barão de Cobertin, que pedia por uma prova que relembrasse os Jogos da antiguidade -, a primeira maratona olímpica foi vencida pelo pastor de ovelhas grego, Spiridon Louis, em 2h58m50s, e se tornou a primeira marca oficial para esta prova

Prata no lugar de ouro e o cachorro Zeus

Toda a premiação dos campeões ocorreu no último dia dos Jogos Olímpicos, 15 de abril de 1896, em cerimônia comandada pelo rei Jorge, da Grécia, e na presença de diversos convidados internacionais. Cada campeão, ao invés da medalha de ouro, como nos dias atuais, recebia pelo seu feito, uma medalha de prata. Os vencedores também ganhavam um diploma e uma coroa de ramos de oliveira.

Para os segundos colocados, o metal das medalhas era o bronze. O atleta grego Spiridon Louis, além de ser o primeiro campeão da maratona olímpica da era moderna – diz a lenda que ele correu os cerca de 40 km ao lado de seu cachorro chamado Zeus -, também se tornou o primeiro grande ídolo dos Jogos. O maratonista que percorria cerca de 28 quilômetros todos os dias, carregando água para vender, ganhou um cavalo e uma carroça como presente pela vitória.

Como não havia piscina nos primeiros Jogos, as provas de natação foram disputadas em mar aberto, nas águas gélidas da baia de Zea, próximo dos Pirineus. Cerca de 40 mil pessoas assistiram às provas onde a temperatura da água era de 13 graus. Destaque para o húngaro Alfréd Hajós, vencedor dos 100m e dos 1.200m Livres. Hajós relatou que para suportar o frio na prova dos 1.200 metros teve de cobrir o corpo com meia polegada de graxa. O nadador húngaro tempos depois revelou que “a vontade de viver superou a vontade de vencer”, já que sofreu com câimbras durante o percurso no mar.


O australiano Edwin Flack, o único representante da Austrália nos Jogos de Atenas, conseguiu realizar um feito curioso: além de vencer os 800m e os 1500m rasos no Atletismo, ainda conquistou um terceiro lugar no Tênis em duplas. Já na primeira Olimpíada da Era Moderna foi executado um hino feito especialmente para os Jogos. Composto por Spyros Samaras, com letra do poeta grego Kostis Palamas, a música se tornaria oficialmente no hino dos Jogos Olímpicos em 1958.

Museu Roberto Gesta

Os Jogos Olímpicos da Antiguidade foram extintos no ano 393 d.C, por edito de Teodósio I. O Cristianismo, a nova religião do Império Romano, identificava os festivais agonísticos como um culto ao paganismo e os combatia tenazmente, o que levou o monarca a aboli-los. 

Assim como os reis gregos, os governantes romanos propiciavam a realização de inúmeros Jogos desportivos. No Império Romano, esses eventos eram, via de regra, mais violentos e voltados para o entretenimento das massas, como corridas de carruagens, lutas de gladiadores, espetáculos com bestas selvagens, boxe, luta e corridas de longa distância. 


Quando o Império Romano do Ocidente se extinguiu, por volta de 476, a Europa do Oeste já estava fragmentada em pequenas unidades políticas. 

No período posterior da História, conhecido como Idade Média, o Cristianismo, passou a ser a Instituição mais influente da região.  A preocupação estética era contrária aos dogmas da Igreja, voltada para a salvação da alma, em contraposição aos ideais da Grécia Antiga, que preconizavam a educação do corpo e do espírito, de forma integrada, como essencial para o desenvolvimento pleno dos indivíduos. A exposição e o culto do corpo eram considerados pecaminosos.

Por mais de 1000 anos, os exercícios físicos, no continente europeu, ficaram voltados, de forma preponderante, à preparação militar para as guerras internas e para o combate aos infiéis nas Cruzadas, com atividades como o arco e flecha, a luta, o boxe, a escalada e a marcha, sem a preocupação dos gregos com a higiene, a saúde ou a beleza dos corpos.

Os séculos XIV, XV e XVI, conhecidos como o Período do Renascimento, marcam o retorno dos ideais da Antiguidade Clássica e do Humanismo e notabilizam-se por um extraordinário desenvolvimento intelectual dos povos da Europa. O termo Jogos Olímpicos começou a ser acrescentado a diversos festivais esportivos realizados em países europeus, para lhes dar prestígio. Os mais importantes foram os Jogos Olímpicos Zappas em Atenas e os " Olympian Games ", em Much Wenlock, pequena cidade da Inglaterra.

O Dr. William Penny Brookes, idealizador dos "Olympian Games”, é considerado um dos precursores dos Jogos Modernos e exerceu grande influência sobre o humanista francês Pierre de Coubertin.   

No final do século XIX, Coubertin contatou com inúmeras organizações em seu país e no exterior no sentido de difundir a prática de atividades físicas, que considerava um componente essencial na educação dos jovens. 

Admirador do desenvolvimento do esporte na Inglaterra e nos Estados Unidos, ele visitou Universidades e Clubes nessas nações e estabeleceu uma rede  de interessados em promover o restabelecimento dos Jogos Olímpicos. Finalmente, em um Congresso realizado na Sorbonne, em 1894, o sonho desses idealistas se tornou realidade e ficou acordado que a primeira edição moderna dos Jogos se daria em Atenas, em 1896.


Nos I Jogos Olímpicos foram oferecidas medalhas de prata para os vencedores e de cobre para os segundos colocados. Não houve medalhas de ouro nem premiação para os terceiros lugares. A medalha mostra Zeus, a divindade máxima dos Jogos da Antiguidade, segurando a deusa da Vitória, em um globo, com ramos de louro. No verso, vista de Atenas, ressaltando a Acrópolis, com legenda em grego.



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