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‘Eu continuo parando no ar’, diz Dadá Maravilha

Artilheiro, folclórico, irreverente, crítico: este é Dadá Maravilha, o “Peito de Aço”, “Beija-Flor” e outros codinomes, que foi entrevistado pelo CRAQUE em Belo Horizonte, onde falou sobre Manaus, Atlético-MG, Seleção e outros assuntos 23/06/2013 às 15:34
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O folclórico ex-jogador, Dadá Maravilha, ao falar sobre o carinho que os mineiros e amazonenses têm por ele
Leanderson Lima Belo Horizonte (MG)

O Café Nice é um conhecido point de Belo Horizonte, que já recebeu várias personalidades da política nacional. Por lá já passaram figuras ilustres como os presidentes Juscelino Kubitschek, Itamar Franco e Lula. É, mas o lugar também é frequentado há 45 anos por um Rei. Ele não usa terno, ainda guarda o estilo garotão e dispensa o carro porque gosta de mesmo de andar a pé. De quem estou falando? Dadá Maravilha, o Rei Dadá, que há quase meio século sempre “bate o ponto” no café da avenida Afonso Pena para tomar seu frapê de coco. Foi lá que ele falou com exclusividade com a reportagem do CRAQUE, que está em Belo Horizonte para cobrir a Copa das Confederações.

Em um lugar que respira política, o “Peito de Aço” falou sobre tudo: Seleção Brasileira, Neymar, Fred, o seu amado Atlético Mineiro, a sua relação de amor com Manaus e, claro, sobre os protestos que tomaram conta do País.

Você foi artilheiro e campeão amazonense pelo Nacional em 1985. Quais são as lembranças que você tem desta época em Manaus?

Eu quero lembrar de Manaus pela rivalidade entre Rio Negro e Nacional... Quando eu cheguei o Rio Negro tinha vencido o primeiro turno e eles já estavam cantando de campeão. Eles tinham um time jovem, muito bom. Eles fizeram gozações comigo e com o Edu, que estávamos velhos. Eu tinha 39 anos e eles chamando o Dadá de velho. Eu disse: “velho é a Bíblia, eu vou arrebentar no campeonato”. Fui artilheiro e fiz o gol do título. Lógico que o craque do campeonato foi o Edu e o Dadá colaborou com a experiência.

O nome Dadá Maravilha está registrado na história do futebol também por ele ter marcado o primeiro do extinto estádio Vivaldo Lima em uma partida oficial. O que você lembra deste dia?

Eu lembro! Eu fiz quatro gols! Foi a Seleção Brasileira contra a Seleção de Manaus. A Seleção reserva do Brasil ganhou de 4 x 1 e a titular ganhou de 4 a 1, também. Agora eu tenho muitas lembranças de Manaus. Depois eu fui a Manaus e meti quatro pelo Atlético-MG contra o Nacional, de Campos. O Campos estava fazendo um sucesso tremendo. E eles forçaram a barra dizendo que o Campos era melhor que eu. Eu respondi: “Melhor que Dadá só Jesus Cristo”. Eu disse que ia arrebentar e arrebentei. Eu fiz quatro no Nacional. Depois o Rio Negro chamou o Atlético-MG para vingar (o Nacional), nos ganhamos de 6 a 1. Eu meti quatro gols. A minha sina era fazer quatro gols toda vez que eu ia para Manaus. Depois eu fui para Manaus e arrebentei de vez. Só tenho a agradecer. Obrigado Deus por essa minha passagem lá em Manaus.

Como era a sua relação com os torcedores em Manaus? Teve alguma desconfiança com relação a sua idade? Como você foi recebido?

Me receberam bem. Logicamente alguns desconfiaram, dizendo que eu estava velho. Mas eu não bebia, não fumava, eu me cuidava muito e tinha um corpo de atleta. Tinha uma experiência muito grande. Você está aqui perto é testemunha. Eu tenho 67 anos e continuo com aquela carinha e com aquele corpinho.

E você ainda pratica atividades físicas?

Eu vou à academia toda segunda e sexta-feira. Faço exercício com bicicleta dentro da piscina e ando muito a pé, porque o carro é terrível. O cara vai à padaria, 50 metros, ele quer ir de carro. Eu tenho carro, mas eu gosto de andar a pé.

Ainda joga um futebolzinho?

Não, porque eu acho que o futebol não vai me acrescentar em nada. Aonde eu vou os caras querem me ver parar no ar, querem me ver fazendo gol, aí eu acabo correndo muito e o meu joelho incha. É lógico que eu ainda faço gols. Eu ainda tenho o famoso tempo de bola e, por incrível que pareça, eu ainda continuo parando no ar.

Mesmo de ter parado de jogar há tanto tempo?

Parado, mas a gente sabe onde a bola vai cair. E eu tenho um lema: “Deus é muito justo”. Quando Pelé, Romário, Zico, Messi e Maradona chutam uma bola ela pode até estar indo para fora, mas quando vê que foi um desses caras que chutou ela entra. O mesmo acontece com Dadá. Quando eu chuto a bola pode estar indo para fora, só que se ela sente que é o Dadá, ela entra. Agora quando é Manoel, Joaquim, José Silva aí bola vai pra fora, bate na trave...

E como foi fazer parte daquela Seleção Brasileira na Copa do Mundo de 1970?

Aquela Copa de 70 foi fantástica porque a gente saiu daqui desacreditado. A imprensa sentando o pau, dizendo que Pelé estava cego, que a Seleção não dava para nada. E nós, humilhados, nos unimos e ganhamos a Copa com pé nas costas. E é considerada a melhor Seleção de todos os tempos e eu tenho certeza que eu vou morrer e não vou ver uma seleção tão fantástica quanto aquela de 1970, que é disparada a melhor do mundo em todos os tempos.

E o que você acha da atual Seleção Brasileira?

Eu estava descrente, mas diante das últimas partidas que ela fez (Brasil x Japão e Brasil x México) eu já começo a acreditar. Porque o time está com muito amor e o Felipão tem um modo de fazer uma família da Seleção, a família Scolari. Acho que ele pode surpreender.

Como grande centroavante que você foi, o que acha do Fred, que hoje ocupa o posto na Seleção Brasileira?

O Fred é o melhor centroavante do Brasil, mas a gente vê que ele está jogando com problemas físicos. Ele está fora das condições normais, tá jogando com o nome. Agora eu queria dizer ao Fred, que quem entra em campo que se responsabilize. Não adianta dizer que tá machucado. Se entra em campo é porque tem condições. E ele não está produzindo o que a gente está acostumado a ver. Se bobear, perde a posição para o Jô.

E Jô vem entrando e resolvendo...

O Jô é um jogador interessante. Chegou ao Atlético-MG sem nenhuma moral, vindo do Inter, como um beberrão, um fanfarrão...

Na verdade durante toda a carreira dele ele nunca foi essa coisa toda...

É, mas ele está jogando um futebol muito inteligente, fazendo um pivô ali na frente, protegendo bem. E as bolas? Ele ganha todas, prepara jogada para os companheiros. O Jô melhorou muito. Eu converso muito com a imprensa gaúcha e eles não acreditam que o Jô é tudo isso. Pô, mas não é possível porque aqui no Internacional ele não era nada disso, dizem os jornalistas. Mas aqui (em Minas Gerais) ele mudou. No Atlético Mineiro está muito bem, com um espírito de competição muito grande.

Por falar em Jô e Atlético Mineiro. O Galo está jogando um futebol interessante, vem fazendo uma ótima Libertadores... Você acha que a hora do Atlético Mineiro conquistar a América chegou?

Se você me perguntasse isso há dois meses eu diria: o Atlético será campeão da Libertadores com um pé nas costas, porque está jogando um futebol maravilhoso. Mas agora no Atlético, os jogadores se empolgaram muito, foram para a balada, descuidaram da condição física, tanto que o meio campo todo do Atlético está no estaleiro com problema de cansaço muscular, ou seja, o time caiu muito de produção. No momento eu não vejo possibilidade de o Atlético-MG ganhar desse excelente time da argentina (Newell’s Old Boys).

Mas você não acha que esta parada por conta da Copa das Confederações, não pode de alguma forma ajudar o Atlético-MG?

Pode até ter melhorado, porque o Atlético-MG estava muito cansado por conta das viagens que estava fazendo na Libertadores e caiu muito de produção. Mas o Atlético-MG que está jogando o Campeonato Brasileiro está muito longe daquele Atlético da Libertadores.

Voltando a falar de Seleção Brasileira e Neymar. Se você pudesse dar um conselho para o Neymar, que está indo agora para o Barcelona, que conselho daria?

Deixando a modéstia de lado, o que é comum no Dadá, eu que sei tudo de futebol, eu que fui campeão de tudo, artilheiro e recordista de tudo, tanto que eu sou o jogador que mais gols fez em uma partida de futebol no Brasil: 10 gols... Eu queria dizer ao Neymar a frase que o Brasil conhece: “Neymar, não existe gol feio. Feio é não fazer gol”. Eu fiz três gols de bunda; de canela eu fiz mais de 100 e eu sou o Rei Dadá, com 926 gols, campeão para tudo que é lado. Porque eu não embelezava, eu queria fazer o gol e eu tinha respeito ao torcedor. Esse negócio de fazer muita jogada bonita para o torcedor bater palma, o torcedor bate palma, mas não vai no placar. Eu chego em qualquer lugar do Brasil o povo me aplaude. Eu chego em Manaus, sou ídolo; eu chego em Belém, sou ídolo; eu chego em Salvador sou ídolo, São Paulo, Curitiba e sou ídolo. Aqui em Belo Horizonte eu mando prender e mando soltar, porque eu fui campeão, eu fui artilheiro de tudo. Agora pergunte uma coisa ao Dadá: “Dadá você é craque?”. Me pergunte.

Dadá, você é craque?

Perna de pau! Não sei nem tocar uma bola, não sei driblar, não sei tabelar. Agora eu sou um homem inteligente. Eu não sabia dar um passe longo. Eu corria oito metros com a bola e dava um passe de dois metros, porque de dois metros eu não erro. Eu era o jogador que menos errava passes porque dava passes curtos. Agora minha cabeçada era um tiro e a minha velocidade: o beque para correr comigo tinha que pegar um taxi e para pular tinha que usar a escada de Bombeiro.

E de onde veio seu outro apelido: peito de aço?

Eu era um cara que não tinha condição técnica, eu dava canelada, mas eu tinha uma força física muito grande, eu treinava muito e tinha uma força descomunal. Seguravam na camisa do Dadá eu carregava. Tanto que no fim do jogo eu cobrava pedágio porque eu carregava os caras. Eu dizia: “Tá me devendo cinquentinha porque te carreguei no campo”.

E o que você tem achado destes protestos contra a Copa?

Acho que demorou muito. O povo tá sofrendo demais, o povo tá ouvindo muita mentira. A política diz que o povo tá comendo, que o povo tá com uma situação melhor e não é verdade. Dizem que não tem desemprego, não é verdade. O povo cansou. Eu gosto de futebol, sou um dos maiores ídolos da história do futebol brasileiro em todos os tempos, mas antes de ser jogador de futebol eu sou cidadão brasileiro. Então a saúde tá precária, a segurança tá precária, isso aí (os protestos) foi para acordar os políticos que estavam naquela gangorra do Lula, de que estava tudo dando certo, a verdade não é essa, a verdade é que a situação está periclitante. A palavra é essa! Temos que acordar e ver que o Brasil é um País que Deus abençoou, tem tudo aqui. Em cima da terra tem pessoas maravilhosas, embaixo da terra tem petróleo, tem ouro, tem uma porção de coisas. Então vamos aproveitar tudo que Deus nos deu e vamos ser sinceros. Eu por exemplo, eu sou famoso, eu sou o rei Dadá, mas eu tenho humildade de reconhecer que eu não jogava nada, que eu era um perna de pau. Só que eu era uma máquina de fazer gol. Porque, eu era um cara que tinha consciência de que tinha que cuidar do meu corpo, do meu preparo. Quando eu corria a velocidade era tanta que até a televisão tinha dificuldade de acompanhar. A humildade é de trabalho, eu era muito humilde de trabalho, agora na hora que eu falo de Dadá ele é o máximo, ele é o melhor.

Você sempre vem aqui no Café Nice?

Eu cheguei em Belo Horizonte em 1968 e um amigo do Atlético-MG disse: “Vou te levar ao Café Nice para tomar frapê de coco. Eu tomei em 1968 e até hoje eu venho aqui. É sagrado a minha presença. Eu sou muito feliz. Brinco com as funcionárias, brinco com todo mundo aqui na frente. Na realidade em Belo Horizonte eu sou rei assim como sou em Manaus.

Perfil

Dario Josédos Santos

Idade: 67 anos

Naturalidade: Rio de Janeiro

Posição no futebol: centroavante. É o quinto maior artilheiro do futebol brasileiro com 926 gols. Perde apenas para Túlio Maravilha com 995 gols, Romário com 1006 gols, Arthur Friedenreich, com 1239 gols, e Pelé, com 1284.

Clubes: Mais de 16 clubes, entre eles o Atlético Mineiro, seu clube de coração, onde fez, de cabeça, e “parando no ar”, uma das suas características principais, o gol do único título de Campeonato Brasileiro da equipe, em 1971.

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