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Cara a cara com Lana

Exclusivo ao CRAQUE, Aderbal Lana fala das três décadas no futebol amazonense

O técnico, que detém nove títulos estaduais, concedeu entrevista reveladora onde fala das alegrias, tristezas, de amigos e inimigos no futebol local, além de seu cotidiano na cidade que escolheu para viver. 28/08/2016 às 07:00
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Lana abriu o jogo e o coração sobre seus 31 anos no futebol amazonense (Foto: Denir Simplício)
Denir Simplício Manaus (AM)

“Nunca é tarde pra sonhar um sonho novo...”. A frase que inicia esse texto é a mesma que o finaliza, e para espanto de muitos foi dita por homem prestes a completar 70 anos de vida. Aderbal Domingos Lana é uma espécie de Clint Eastwood brasileiro, assim como o astro americano que se notabilizou por estrelar papéis em que encarnava o cara durão e anti-herói, o técnico mais vencedor da história do futebol amazonense parte para mais uma batalha e tenta escrever mais um capítulo em sua brilhante carreira, agora no comando do Rio Negro.

O CRAQUE ficou cara a cara com o treinador que tem – entre idas e vindas - mais de 30 anos de serviços prestados ao brioso futebol local para um bate papo revelador. Nove vezes campeão amazonense e tricampeão do Norte, Aderbal Lana falou das alegrias, tristezas, amigos, inimigos, objetivos (sim, ele os tem e muitos) no futebol, além de seu cotidiano, paixão por estudar futebol, leitura, filmes, etc. Com gás de menino, Lana está de volta e promete que vai levantar a taça do Barezão 2016.

Qual a primeira impressão de Lana quando chegou a Manaus?         

R - Quando cheguei aqui queria voltar logo. Não me adaptei, não. Não gostava da comida. Vim pra disputar o Brasileiro de 1985. Quando cheguei aqui fiquei no Centro da cidade, tinha a Zona Franca e aquilo ali fervilhava de gente de dia. Mas a noite era um deserto. Achava esquisito, logo nos primeiros dias o que mais queria era voltar. Mas aí fui me acostumando. Terminou o Brasileiro fui embora. Quando foi em janeiro de 1986 o Maneca (diretor de futebol do Nacional a época) me ligou pedindo que eu voltasse e eu vim, novamente. Fomos campeões.

Depois do Nacional quais os outros destinos do Lana?

R - Em 1987, o Rio Negro formou uma equipe a altura de Nacional e fiquei até 1988 no Nacional, foi quando eu vim pro Rio Negro e depois fui embora. Em 1991, vim só disputar o Campeonato Estadual pelo Nacional e fomos campeões e eu fui embora novamente. Daí fui embora para a Arábia (Saudita). Em 1996 eu vim pro São Raimundo pra iniciar o projeto eu e o Ivan (Guimarães), na época éramos só eu e ele. Mas eu tinha um contrato na Arábia, estava de férias, vim aqui e fiz o Campeonato Estadual e ficamos em terceiro lugar. Voltei para a Arábia e cumpri meu contrato e, me parece, no segundo semestre de 1996 eu voltei pro São Raimundo. Depois dei continuidade ao que tinha iniciado em 1996, fiquei até 2004, se não me engano, no São Raimundo. Depois fui embora várias vezes (do Amazonas).

Quando você resolveu vir morar de vez no Amazonas?

R - Em 2006, voltei pro Fast, foi quando resolvi ficar definitivamente aqui em Manaus. Quando vim pra cá eu era casado e aqui eu conheci uma outra pessoa e acabei ficando com ela e estou com ela até hoje. Com ela tenho dois filhos e resolvi fixar residência aqui.

Você recebeu várias propostas pra deixar o Estado, o que te fez ficar?

R - Recebi muita proposta para sair daqui, mas nunca quis sair. Tenho quatro filhos, dois do primeiro casamento e dois agora. E nesse segundo casamento... nesse “ajuntamento” meu eu tive uma filha, uma coisa que sempre quis ter, porque quando tive os dois primeiros filhos - quando eles nasceram - eu estava em Manaus ou estava na Arábia (Saudita) e não tive muito tempo pra curtir eles. E aqui comecei a curtir desde pequeno e não quis mais sair daqui. Construí minha casa, fixei residência. Alguns times vinham atrás eu nunca quis ir. Primeiro porque no futebol brasileiro você tem de saber pra onde você vai porque nem todos os times andam em dia financeiramente.

Você é um apaixonado por essa terra também?

R - Tenho uma coisa dentro de mim. Não sou amazonense, sou mineiro, mas só quem saiu do Brasil e morou fora pode dar o valor que eu dou pra essa terra. Isso aqui é um Eldorado do mundo pra mim. A natureza, o povo, a forma do povo viver, a comida - que eu passei a gostar. E acho que o fim de vida é aqui, me aposentar num vou não. Enquanto eu estiver andando eu vou trabalhando porque gosto muito daqui. Acho que não tem ninguém em Manaus que torça para que o futebol daqui volte aos grandes momentos.

Você fica chateado quando falam mal do futebol amazonense?

R - Aqui você só escuta que o futebol daqui é muito fraco. Mas, em 2013, peguei o Nacional na Copa do Brasil, onde participam os principais clubes do País, e o Nacional passou pelo Coritiba, passou pela Ponte Preta – ganhamos lá e aqui. Metemos 4 a 1 no Coritiba quando eles eram líderes do Campeonato Brasileiro – quem duvidar pode pegar a tabela daquele ano que vai ver. Então isso prova que nós temos futebol.

O que você que fez o futebol local ter esse declínio?

R - O que derrubou muito nosso futebol foi que desmancharam o Vivaldo Lima, desmancharam a Colina e nós ficamos quatro/cinco anos sem campo. Ficamos jogando no interior. Esse ano fizeram a besteira de começar o Campeonato no final do ano... tirou a motivação. Acho que só falta repensar. Trabalho aqui desde 1985 e estive vários anos fora, mas voltei, mas pegue os resultados que foram conseguidos aqui contra Palmeiras, Inter de Porto Alegre, Atlético Mineiro, Coritiba, São Paulo, o Fluminense. O nosso futebol sempre atropelou esse caras aqui. Então não pode ter um “pedigree” ruim. O que está faltando pra gente é a credibilidade e que muita gente tem de ajudar, não é apenas nós jogando futebol. É a imprensa, o comércio... porque quando se tem um futebol forte você tem um comércio forte. Então minha vinda pra cá era isso, minha história é essa.

Qual a sua primeira impressão do futebol local?

R - O Rio Negro tinha um super time, na minha época. Me lembro de alguns jogadores de nome aqui no Rio Negro, o Volnei, um centroavante, Luizinho Rangel, Paulo Goulart, um goleiro que foi do Fluminense e estava aqui no Rio Negro. Quando cheguei mesmo em 1986, eu treinava o Nacional no Campeonato Brasileiro. Trabalhei com Edu, Dario, Murica, Hidalgo, Raulino, China, Marcão, Galvão, Luis Florêncio... jogadores de nome, jogadores que tinham passado. O Nacional tinha dois tricampeões do Mundo: Dario e Edu. Era um futebol que tinha investimento, mas tinha dificuldade financeira, do mesmo jeito que é hoje. Trabalhava no Nacional, casa cheia, mas sempre com dificuldades financeiras. Não tinha campo, igual hoje. Aquele terreno ali do lado da sede (Nacional) fui eu que fiz de tudo pra ser gramado, na época que estive no Nacional agora (2014/2015). Treinei tricampeões do mundo naquele terreno de terra batida ali do lado.

E como foi a trajetória vitoriosa no São Raimundo?

R - Em 1996, fiquei dois meses e pouco (no São Raimundo), só pro campeonato amazonense, aí definitivamente, voltei no segundo semestre de 1997. Lá, trabalhei com um cara, que vou frisar o nome dele porque sei que é um cara que sofre hoje porque continuo amigo dele, que é o Ivan Guimarães. Esse cara deu a vida pro São Raimundo. A gente trabalhava 24 horas por dia, o Ivan vivia lá dentro. Ele tinha pego o São Raimundo pra comandar o futebol, que era autônomo, e ele me trouxe pra cá. Vim ajudar ele na época porque era um cara que, realmente, tinha trabalhado com ele no Nacional e gostava muito dele. O Ivan me ouvia. Tudo que falava sobre o projeto e a gente começou aquilo ali junto.

Como foi o começo do Lana e do Ivan no Tufão da Colina?

R - A gente começou sem nada. Sem bola, sem água, sem banheiro, o gramado era ruim e sem material esportivo nenhum. Tem até uma passagem triste na época. Nós conseguimos seis bolas pra treinamento e treinamos num dia à tarde e no outro o nosso vestiário tinha sido invadido. Os caras tinham roubado as bolas. E nós batalhamos ali, eu e o Ivan junto comigo. O Ivan foi um cara que me deu plena liberdade de trabalho e quando tenho essa liberdade ninguém me segura. Então essa é uma coisa que guardo no coração. Amizade que tinha com ele e a forma como nós dois trabalhávamos e os jogadores daqui que foram revelados. Porque se você pegar o São Raimundo vamos ter no mínimo 60% de jogadores da terra naquela equipe: Delmo, Luíca, Guara, Sidney, Alberto, Zedivan e assim vai. Neto, que é até maranhense, mas ele veio pra cá e nos foi apresentado ele tinha 17 anos. Então foram feitos dentro do São Raimundo, alguns que esqueci o nome que me desculpe. Trouxe alguns jogadores como Isaac, Luis Cláudio, Araxá, Niltinho, o Iúna, que hoje trabalha comigo, pra compor esse grupo, e foi u grupo ganhador, um grupo que deixou saudades, mas que tenho ainda no coração que isso aí retorne algum dia.

Quais os momentos mais felizes no São Raimundo?

R - A época mais feliz foi no início. Aquela transição de início pro fim. Na transição fui muito feliz, porque via o que foi feito no começo e chegar aonde chegou: Tricampeão no Norte, disputar uma Copa dos Campeões, aonde tinham seis times e tava lá o São Raimundo, do Norte, contra os cinco maiores clubes do País. São Paulo, Flamengo, Cruzeiro, Palmeiras e Internacional-RS e o “São Raimundinho” lá no meio. Então essa passagem me deixou muito feliz. Depois veio a Copa Conmebol, chegar lá no Peru e empatar com o campeão peruano lá dentro e calar a torcida em Lima, na capital. Depois ganhamos do vice-campeão colombiano lá dentro, o Huila (Atlético), na cidade de Neiva. Lá ganhamos de 2 a 1 e aqui de 2 a 0, se não me engano. Fomos terceiro colocado daquela Conmebol aquele ano e não chegamos a final porque o São Raimundo trabalhava com um número diminuto de jogadores no plantel. Nós tínhamos na época 19 jogadores e disputávamos dois quadrangulares, que era o da Conmebol e do acesso a Série B daquele ano. Então nós tínhamos em determinados jogos em optar por um por outro (quadrangular). Pra você ter uma ideia, nós jogamos num domingo aqui em Santarém, depois viajamos para o Rio Grande do Sul pra jogar contra o Brasil de Pelotas. Do Brasil de Pelotas nós fomos pra Maceió pra jogar contra o CSA e nós só tínhamos 19 jogadores disputando as duas competições. Depois de Santarém, nós nos classificamos pro mata contra e Brasil de Pelotas e já viajamos pra Maceió pra jogar dentro do quadrangular com o CSA, foi quando nós perdemos nos pênaltis o quadrangular da Conmebol. Esse foram os momentos felizes.

E quais os momentos tristes no Tufão da Colina?

R - Com o passar dos anos a tristeza começou a chegar. Porque não é só aqui no Amazonas que acontece isso é no mundo todo. No Brasil, principalmente. Quando um time começa a aglutinar torcida, grande público, os aproveitadores começam a se encostar. Aí, de repente, o Ivan (Guimarães) não prestava. Eles falavam que eu é que mandava em tudo. Já começou a diretor querer entrar dentro do vestiário, dinheiro de bilheteria você não sabia pra onde ia, e aquilo foi me doendo muito. Chegou ao ponto de eu quase agredir o presidente do conselho do São Raimundo (João Dias), desde então nós somos inimigos declarados. Pelo menos eu sou dele, não sei se ele é de mim. Isso me deixou muito triste porque foi o fim de uma história.

Existe alguma passagem no futebol que te emocione bastante?

R - Tem. Treinei grandes clubes como o Goiás, no Campeonato Brasileiro. Treinei o Mixto, de Cuiabá, na fase esplendorosa no Campeonato Brasileiro. Também treinei o Vila Nova-GO e o Atlético Goianiense. Tive a felicidade de ser convidado pra treinar fora do Brasil, onde trabalhei muitos anos (8 temporadas). Ganhei dinheiro com o futebol. Gastei tudo. Vivi uma vida tranqüila. Mas, eu digo que a maior felicidade que tive na vida foi em Manaus, foi no São Raimundo. Porque ali sempre disse que era como um filho, que você emprenha a mulher, vê ele crescer e vê ele nascer, e o São Raimundo foi dessa forma. Por isso acho que foi o momento mais feliz da minha vida.

Você disse que teve várias chances de sair para treinar em outros estados e não quis. Acha que alguma coisa atrapalhou sua carreira fora do Amazonas?

R - O que atrapalhou foi a minha língua. Não por achar que eu estava errado, porque se eu achar que tiver de falar a verdade pra um jogador eu falo. Não quero saber se ele é estrela ou deixa de ser estrela, porque tenho uma filosofia comigo, que você não pode ter ela no futebol. Principalmente, no futebol brasileiro. Hoje e sempre, no Brasil, jogador de futebol é tratado como estrela e eu não concordo com isso. Acho que jogador de futebol tem de ser tratado como qualquer outro trabalhador. Você levanta de manhã e, se você não tem carro, pega uma condução no meio de vários operários, de pedreiros, marceneiros, encanador, os caras que trabalham no Distrito (Industrial de Manaus) e você a dificuldade que essas pessoas têm pra chegar no emprego. Você vê a dificuldade maior ainda quando o trabalhador sai cansado do emprego e a hora que ele chega pra estar com os filhos e a mulher e ter de dormir pra trabalhar no outro dia. O jogador de futebol levanta às 8 horas da manhã, toma um bom café da manhã, vai pro campo e treina uma hora e pouco e volta. Tem almoço, descansa até às 3 horas da tarde, se apresenta pra treinar às 4 horas, às 5 e meia ele está saindo. Entra no carro dele, a maioria tem carro. Vai pra casa e é tratado como artista e ele não faz nada mais do que um trabalhador comum. E eu trato o jogador de futebol como um trabalhador comum. Tem de ter horário, tem de ter disciplina tática dentro no campo, tem de estar no peso, tem de estar apto a jogar futebol e praticar aquilo que ele se dispôs a fazer. E fui muito mal compreendido nesse meu posicionamento. Então, muitas vezes eu ouvi falar em times grandes que me queriam, mas sempre aparecia aquilo: ah, o Lana, é difícil de trabalhar com ele. Primeiro, que não aceito palpite de diretor. Segundo, que não devo nada pra ninguém. Terceiro, eu faço aquilo que minha consciência pede. Não importa de vou atrapalhar alguém ou não. Faço o que é certo, sou profissional ao extremo da palavra. E outra coisa: nunca trabalhei com empresário. Porque não acho justo você ser contratado pelo Rio Negro, dando um exemplo, ganhando dez mil reais por mês, e porque um empresário me indicou eu tenho que dar 20% pra ele todo mês. Isso aí ninguém nunca pegou de mim! Então, nisso tudo fui muito prejudicado porque quando se falava no meu nome pra um grande clube, sempre tinha um empresário que dizia: ‘Não, com o Lana não tem negociação’. Porque treinar futebol, não tem nenhum treinador nesse Brasil aí que entenda mais do que eu. Se eu provo é jogando contra eles, o sãoraimundense sabe disso que me seguiu na sua época jogando contra eles. Assim como o nacionalino me seguiu jogando contra grandes clubes do País.

Mesmo com todas as dificuldades do futebol amazonense você é muito respeitado fora do Estado, como você vê isso?

R - Todos os treinadores brasileiros de nome me respeitam. Agora, ser um Pep Guardiola, ser um Mourinho é muito fácil. Porra, vocês estão vendo aí. O cara assume aí um Manchester (City) e vai lá e contrata o Neymar. Você trabalha com os melhores jogadores do mundo, você tem de ser o melhor treinador do mundo. Agora vem treinar um Nacional ou um Rio Negro aí que eu quero ver se eles são uns ‘Guardiola da vida’ ou uns ‘Mourinho da vida’. Time grande vai lá e contrata quem precisa. Se precisar de um lateral-esquerdo, os caras vão lá e compram. Não vieram e compraram o Gabriel Jesus por não sei quantos milhões de reais? O garoto começou a aparecer aqui e o Guardiola veio e comprou. Assim é fácil. Aí você vem trabalhar aqui no Rio Negro e você precisa de um lateral-esquerdo e tem de estar olhando na base, tem que estar olhando pra lá e pra cá pra ver se encontra e tenta ‘fazer’ o jogador. Não tô falando mal do Mourinho, nem do Guardiola só estou falando que é bem mais fácil eles serem o que são do que eu ser o Lana.

Quais os amigos que o Lana fez no futebol?

R - O grande amigo que tenho aqui e que prezo muito da amizade dele é o Ivan Guimarães. É o cara que nós dois trabalhamos juntos e sabemos o que nós passamos. O Cláudio Silva (atual supervisor de futebol do Rio Negro), que é um grande amigo meu. Aprendi a gostar dele, sempre estou no sítio dele, pegando uns peixinhos, tomando uma cerveja. O Maneca é um outro grande amigo que tenho no futebol. Quem mais? (um longo período pensando). Não tenho mais amigos, são só esses. Fico muito em casa, não sou de boate, de vida social. Pra você ter uma ideia, não conheço nem a Ponta Negra depois que arrumaram lá. Se um cara me mandar lá pra Zona Leste tenho de sair perguntado. Só sei os pros campos de futebol, aí eu sei ir. Mas não sou de sair de casa.

E quais os inimigos que o Lana fez no esporte bretão?

R - Inimigos, quem está dentro do futebol, todo dia tem. Principalmente, quem tem a língua solta, quem fala o que pensa. Quem fala o que pensa, vai ouvir o que não quer. Isso é tranqüilo, mas não me preocupo. Várias vezes falei de algumas pessoas e essas pessoas retrucaram, e eu retruco daqui, porque não devo nada pra ninguém... devo pro Imposto de Renda (risos). Mas a vida continua. Hoje nós vivemos num mundo que amizade é aquele que está perto de você. A vida anda muito difícil pra você falar que tem inimigos. Os amigos são esses que citei e minha mulher e meus filhos. São as pessoas que convivem comigo. Tenho de ter amizade, tenho de gostar deles, tenho que amá-los. Os meus filhos do meu primeiro casamento são meus amigos. Minha ex-mulher é minha amiga, não temos nenhuma animosidade, foi tudo bem feito, numa boa. Evidentemente que ficam seqüelas, mas você tem de se acostumar com os problemas. O restante é vida que segue. Há muito tempo li uma coisa que dizia: Ninguém é velho o bastante pra querer atingir uma nova meta e nem pra sonhar com novos sonhos, e eu estou vivendo dessa forma.

Lembra de alguns atletas que eram muito bons, mas que acabaram injustamente não tendo sucesso fora do Amazonas?

R - Trabalhei com jogadores que jogavam em qualquer time. O Delmo era um atacante que, às vezes dormia no campo e você achava que tava morto e ele aparecia. Luíca, muito bom jogador. O Guara foi um dos melhores laterais que vi trabalhar, lateral-esquerdo que trabalhava por dentro. Isso não é qualquer time que tem, não é qualquer lateral que faz da forma que ele fazia. Isaac, um volante que jogou aqui. São uns caras que não saíram daqui. O amazonense, lá dentro dele, tem um amor muito grande pela terra dele. Levei alguns jogadores daqui pra fora e eles não conseguiram se adaptar. É muito difícil, é raro o que vai e fica. Na nossa história mesmo parece que tem o Gilmar Popoca, que não conheci, e o Berg. Mas quantos jogadores pintaram por aqui e chegaram lá fora e vão e voltam. Mas não é por falta de condição de ficar lá, é pelo amor. O Amazonas é como disse antes, é um Eldorado, mesmo com os problemas sociais que nós temos na nossa cidade, de infraestrutura, uma cidade grande com 2,5 milhões de habitantes, mas é um lugar muito bom de se viver.

O que Lana faz nas horas vagas?

R - Quando estou trabalhando é ir pro treino. Aí você não tem muito tempo, porque você chega em casa quase meio dia, almoça e tem de estar saindo pro treino a tarde. Mas quando não estou trabalhando, basicamente, eu estou dentro de casa. Não tenho vida social de estar na rua e tal. Minha mulher que as vezes vai num shopping e eu vou junto, mas evito de ir. Fico mais assistindo os jogos, filmes, gosto muito de ver canal de entretenimento, que mostram a história e filmes sobre a natureza, essas coisas eu assisto muito. Filme mesmo, gosto de rever alguns como “Uma Linda Mulher”, gosto de ler um bom livro e é isso.

O Lana é um cara romântico?

R - Não! Sou um cara duro. Minha mulher mesmo reclama muito. Acho que nunca falei pra uma mulher ‘Eu te amo’. Sou um cara assim bem fechado. Parece que tenho vergonha de expor o meu pensamento, o que está dentro de mim, me seguro muito. Você pode ver que nem no campo de futebol, quando o meu time faz gol, eu vibro. Aquilo (gol) não consegue passar daqui (apontando para a garganta). Mas sou cara alegre, um cara que gosta de brincadeira, de ler, estudar. Às vezes entro nas redes sociais pra ver, não sou um cara de ficar postando as coisas. Fico vendo meus amigos, às vezes quando curto alguma coisa. Tomo minhas duas cervejinhas todo o dia de tarde e depois vou dormir tranquilamente.

No ano passado você chegou a anunciar que iria se afastar definitivamente do futebol, como foi isso?

R - “Sou um estudioso do futebol. Analiso futebol 100%, diariamente. E não vou me aposentar nunca. Tive essa ideia tempos atrás, mas agora cheguei a conclusão que enquanto eu estiver de pé, na beirada de um campo, nem seja pra treinar o Laranjinha eu vou estar lá”

Aderbal Lana mudou, está mais tranquilo?

R - Sou a mesma pessoa. É que existem momentos. Ontem (dia do RioNal), quando saí daqui (sede do Rio Negro) fui daqui lá pra Colina rezando, pedindo a Deus que me orientasse porque ia passar por uma missão muito difícil. Porque assumi o Rio Negro depois de toda aquela polêmica do treinador que saiu, e eu assumi o cargo e agüentei muita gozação na rua. Pô Lana! Como é que você vai dar treino se não tem água pra beber? Isso machuca a gente. Mas as pessoas falam o que querem.

Como você analisa sua reestréia à frente do rio Negro?

R - Acho que temos uma grande condição de crescimento. Sei que vou ser campeão esse ano de novo. Vou trabalhar pelo título. Isso aí o torcedor rionegrino pode guardar com ele, porque se eles me derem um mínimo de condição aqui isso vai acontecer. Se o pessoal tiver com salário em dia, me dando a condição que eles estão dando de estrutura, campos de treinamento, ônibus, o básico pros jogadores... pode escrever aí que vou disputar o título esse ano.

Já são mais de 30 anos de futebol amazonense e 12 títulos. O Aderbal Lana ainda tem objetivos a alcançar no futebol local?

R - Tenho. Vou querer ganhar todos os títulos que disputar. Isso qualquer um quer, mas sei que tenho competência pra isso. E vou trabalhar pra que todo ano que estiver à frente de uma equipe o consiga. Se tudo der certo aqui, se o Rio Negro chegar a pelo uma das vagas na Série D do ano que vem, acho que o futuro do futebol amazonense vai sofrer mudanças e quero fazer parte disso.

Numa escala de 0 a 10, qual o nível de competitividade de Aderbal Lana?

10! Aqui não tem isso não, cara. Aqui não tem esmorecimento, não. Vou competir, posso estar com dificuldades na equipe ou na vida, mas eu estou sempre competindo, porque quero ganhar sempre. Não me acho realizado e ser humano nenhum se realiza. Você sempre está à procura de alguma coisa. Vou repetir o que disse lá atrás: Nunca é tarde pra sonhar um sonho novo...

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