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Exclusivo: técnico da Seleção Brasileira de handebol feminino fala ao CRAQUE

O dinamarquês Soubak Morten, que já fez mochilão pelo Amazonas, contou sobre a preparação brasileira para os Jogos Olímpicos de 2016, relembrou a conquista do ouro no Mundial da Sérvia e a eliminação da equipe masculina no Catar 06/03/2015 às 20:41
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Com Morten Soubak, o Brasil conquistou o inédito título de campeão mundial de handebol feminino
Felipe de Paula Manaus

Soubak Morten, dinamarquês que conduziu a Seleção Brasileira Feminina de Handebol ao inédito título mundial em 2013, sempre foi apaixonado pelo Brasil. Há pouco mais de 20 anos, ele colocou um mochilão nas costas e embarcou rumo ao País, onde conheceu, entre outras maravilhas brasileiras, a Amazônia.

“Passei pelo Rio e depois fui pra Manaus. Foi espetacular, fantástico! Comi muito peixe, dormi em rede e até hoje lembro dos guias, que eram muito legais”, disse Morten, que concedeu entrevista exclusiva ao CRAQUE e falou sobre a preparação brasileira para os Jogos Olímpicos de 2016, no Rio de Janeiro.

“Agora virou a moeda. Todos querem ganhar do Brasil”, cravou ele, que descarta qualquer ideia de favoritismo brasileiro nem nas Olimpíadas do Rio nem no Mundial da Dinamarca - seu país natal – marcado para dezembro deste ano. “Todo mundo está falando que vamos defender o título. Não vejo assim”, disse.

Gentil, bem-humorado e em português com forte sotaque estrangeiro, ele falou ainda sobre a conquista do ouro no Mundial da Sérvia, da emocionante final com o país anfitrião e favorito ao título, comentou a eliminação da seleção masculina no Catar e projetou o desenvolvimento do handebol no Brasil.

Em 2013, Morten virou personagem central dos noticiários brasileiros quando, antes da final que deu o título de campeão mundial à seleção feminina do Brasil, fez uma preleção motivacional que emocionou o País. Nele, o técnico distribuía medalhas feitas de papelão e prateadas e, ironicamente, sugeria às atletas que se conformassem com o segundo lugar no campeonato mundial. Após o discurso, que já provocava olhares desconfiados das atletas, ele sacou uma medalha do bolso e disse que, se elas quisessem a medalha, teriam que ir buscá-las. As atletas então se atiram em direção ao treinador e arrancam a medalha de suas mãos. Naquele dia, o Brasil entrou na quadra e derrotou a favorita e anfitriã Sérvia, numa conquista inédita para os quadros do handebol brasileiro.


Senhor Morten, você sempre foi apaixonado pelo Brasil, tanto que fez um “mochilão” pra cá em 1994 sem falar português. Como foi essa visita?
É verdade, eu visitei o Brasil em 1994 com mochilão. Viajei sozinho, passei pelo Rio (de Janeiro), fui a Manaus. Foi espetacular, fantástico! Estudante sem dinheiro, fiquei em um hotel baratinho no Centro. Manaus em si não conheci muito, porque fui para o interior, mas comi muito peixe, dormi em rede e até hoje lembro dos guias, que eram muito legais.

Como é para você, um dinamarquês que sempre curtiu o Brasil, ter sido campeão mundial por um país e representando um povo que sempre admirou?
(Risos). Primeiro é uma honra poder estar nesse cargo como treinador, mas é um País que eu sempre fui apaixonado. Essa sensação de trabalhar com a seleção e ainda conseguir uma medalha no mundial é sensacional.

Como está a seleção? Qual a expectativa para esse ano que precede os primeiros jogos olímpicos em território brasileiro?
Nós temos bastantes compromissos neste ano: o Pan-Americano (Toronto) em junho, que é classificação das seleções da América para o mundial da Dinamarca. O Pan de Toronto, que já estávamos classificados, serve como preparação para o Mundial, no fim do ano, na Dinamarca, e para as Olimpíadas.

O Brasil chega ao Mundial da Dinamarca com status de campeão. Como você vê essa condição?
Está todo mundo falando em defender o título, mas não vejo bem assim. Não é pra defender, no meu ponto de vista. Não é nosso perfil. Nosso perfil é continuar a conquistar jogos e vamos manter isso, mesmo sabendo que agora virou a moeda, todos querem derrubar o Brasil agora!

E mesmo com o fator casa e o recente título mundial, o Brasil não é favorito nos Jogos Olímpicos do Rio então?
Eu não estou vendo o Brasil como um dos favoritos para Olimpíadas. Hoje, ninguém pode falar isso, porque o Brasil é apenas um dos que podem ganhar: Não sei como Espanha, França, Hungria, Dinamarca, Noruega, estão. Não existe (favoritismo) nem pra Olimpíada nem para o Mundial.

Se todos estão estudando o time brasileiro, como você espera blindar a previsibilidade e fazer da seleção um time que possa surpreender os adversários?
Fizemos várias mudanças indo pro mundial em 2013 em vários aspectos, e realmente isso fez muita diferença. O próximo passo, o Mundial 2015, (para ele) também estamos trabalhando algumas mudanças. Se mantivermos como estamos, sempre vai ter um fim, então estamos tentando construir em cima do que já temos e claro, também levar uma pequena surpresa, porque as coisas mudam um pouquinho de ano pra ano. As regras são iguais, mas os times não.

É estranho jogar um mundial pelo Brasil na Dinamarca, seu país natal?
Já jogamos contra a Dinamarca várias vezes, não tem nada especial. Agora sei que é um Mundial, não é amistoso, mas vai ser uma competição como qualquer outra, então não penso muito nisso.

O senhor até se declara baiano não é?
(Risos) Sim, eu mesmo digo isso. Sempre vou (a Bahia) e brinco dizendo que sou baiano brasileiro.

A Seleção masculina perdeu no Catar. O que você acha que faltou?
Nada. Eu acho que não faltou nada. Quando se perde, você sempre vai procurar o que faltou. Ok, tudo bem, mas por muito pouco perdemos o jogo contra Croácia e hoje o mundo todo está olhando esse jogo. Os dois melhores jogos do Brasil foram contra Espanha, que perdeu por dois pontos, e contra a Croácia, que perdeu de um. O Brasil fez um avanço muito grande e conseguiu mostrar para todo mundo que quer ser o melhor.

Você já se mostrou preocupado com o handebol brasileiro no que tange à formação de atletas. Como você vê o handebol de base no Brasil? O que falta para darmos uma formação mais digna que garanta um bom desenvolvimento do esporte no Brasil?
Precisa na verdade, de muito mais envolvimento. O handebol no Brasil é formado nas escolas, então temos que ter mais handebol nas escolas, investir mais, ter melhores professores. Temos que ter clubes, cidades que queiram levantar (o esporte). É preciso começar muito mais cedo. Aqui no Brasil, se começa com 10, 14 anos. Onde eu nasci, se começa com quatro. No Brasil, um jogador de futebol não começa com 14 anos.

Aquele vídeo em que você provoca as meninas antes da final emocionou o Brasil. Como você pensou em fazer aquilo e qual importância tem a motivação no mundo competitivo?
Eu acho a motivação em geral, em qualquer aspecto, muito importante. Eu preciso de um motivo pra saber o que eu estou fazendo, tem que ter um porquê. Agora o vídeo, é claro que isso também era um modo de tentar conseguir certa motivação para o jogo. Todas elas sabiam que nos íamos jogar na casa das sérvias e não era só contra equipe que íamos jogar, era contra 20 mil torcedores.

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