Domingo, 05 de Dezembro de 2021
de casa

Gudbol: o futebol de bolinhas genuinamente amazonense

Criado no Amazonas e pautado sobre os três princípios que regem a competitividade do certame, o Gudbol foi reinventado após anos no ostracismo pelo seu próprio criador, Walter Bandeira



WhatsApp_Image_2021-10-25_at_17.40.16_138D5D20-363B-4268-ADB2-A8F9DE629626.jpeg Fotos: Gilson Mello
25/10/2021 às 17:50

Um esporte genuinamente amazonense e que começou, de forma simples, nas ruas de Manaus como uma mera diversão de crianças. Esse é o Gudbol, que vem sendo passado de geração a geração na família do criador, Walter Bandeira. 

Pautado sobre três princípios máximos que regem a competitividade do certame - Respeito ao adversário; Direito de defesa e a Infração sempre será punida -, o Gudbol foi reinventado após anos no ostracismo pelo seu próprio criador, o administrador Walter Bandeira, ou Walter Gudbol, alcunha que ganhou não somente por ser o pai do esporte, mas também pelo exímio talento com as bolinhas de gude. Mas antes de entendermos o porquê do ‘renascimento’ do esporte, é necessário entender como foi criado. Nas ruas do parque 10, nos anos 70, começa o futebol de bolinhas.



“O gubdol surgiu no parque 10 em 1978, é uma lembrança que eu tenho graças a Copa da Argentina. Eu era um moleque de rua, e nós (amigos da época) embaixo de uma mangueira e um terreno plano de areia, pensei: ‘Vamos criar um jogo de futebol de bolinhas?’ E aí desenhamos um retângulo, um círculo e decidimos colocar uma bolinha no meio que deveria ser o alvo, e isso vai ser o gol”, explica Walter.

Embora a ideia inicial tenha surgido ainda nos anos 70, o Gudbol só veio a ser de fato um esporte apenas nos anos 90, mais precisamente no ano de 1992, quando apresentado a familiares, amigos e rapidamente se tornou febre, ganhando normas e regras além dos três princípios que o regem até hoje.

“A infância passou e aí eu digo que o Gudbol nasceu mesmo em 92, quando eu, casado com uma pessoa de uma família tradicional na Praça 14. Ali, todo mundo é muito sério, diferente de mim e que quando eu falei desse jogo pra eles: ‘olha eu tenho um jogo aqui, que mistura bolinha de gude com futebol’, eles disseram: ‘mostra pra gente!’ E aí eu fiz um campo de feltro primeiro  e, quando eu coloquei na mesa, os vizinhos começaram a vim ver, começamos a falar do jogo e eu comecei a pensar e lembrar das regras”, comentou Walter, em tom nostálgico.

Depois de apresentado, o Gudbol virou sensação não somente no Amazonas, como em outros estados por onde passou. Walter rodou o Brasil apresentando um novo esporte, que usava como matéria prima algo comum entre as crianças da época: a bolinha de gude.

Patenteamento

A primeira matéria relacionada ao esporte foi publicada no dia 21 de junho de 1992, pela Gazeta Esportiva, tradicional meio de comunicação esportiva do estado de São Paulo. Assim que apresentado em outras praças, rapidamente Walter conseguiu popularizar o até então desconhecido Gudbol.

“Quando eu chego em São Paulo em junho, eu não tinha noção desse impacto (positivo), divulgaram e na hora chegaram e me perguntaram: ‘O senhor não quer fazer um campeonato aqui em São Paulo?’. Eu respondi que vinha apenas para uma apresentação, estava sozinho, só com 22 bolinhas e um campo. E então eles insistiram, nós geramos dois campos e fomos a uma escola”, disse, antes de completar, explicando o seu retorno a Manaus.

“Quando eu volto a Manaus, resolvo patentear, faço toda a questão com uma instituição de ensino e aí sim eu resolvo mostrar o que é o Gudbol e vieram matérias. O Amazonas Shopping pra mim foi uma coisa fantástica: coloquei quatro mesas lá, sempre lotadas e essa é a minha motivação. Onde eu coloco a minha mesa de Gudbol, têm jogadores. Esse é o barato dele, ele atrai jogadores”, comenta Walter com orgulho.

Mesmo com o sucesso, Walter precisou dar um tempo no seu sonho para se dedicar aos estudos. Foram mais de 20 anos com o esporte no ostracismo, até que uma tragédia familiar - causada pela pandemia da Covid-19 - reacendeu a chama do Gudbol em Walter, que o relançou em 2020 em homenagem a criadora do nome ‘Gudbol’, que batizou o futebol de bolinhas criado por Walter: a ex-sogra.

“Eu parei para estudar e deixei de lado, ficou assim de 1997 até 2020, quando aconteceu o falecimento da pessoa que deu nome ao Gudbol. Era a minha ex-sogra, a dona Inês Rocha e a minha ex-esposa era a Gisele. As duas foram juntas ao hospital e, na mesma semana, morre primeiro a filha e depois morre ela. Pra mim foi muito ruim, porque embora não estivéssemos mais ligados, eu nunca esqueci que foi ela quem deu nome ao Gudbol, não tinha nome, era só futebol de bolinhas. O nome veio da dona Inês e, com a morte dela, me provocou reviver o Gudbol de novo”.

Modernização

Walter enfatiza que, para jogar Gudbol, não é necessário ser habilidoso com as bolinhas, mas sim ter inteligência e estratégia. Conforme o jogo era ‘recriado’, ele percebeu que certas nuances do jogo facilitavam a pontuação e sempre colocavam quem estava em posição de defesa em desvantagem. 

Entre as principais mudanças do jogo estão as marcações de falta, que na versão ‘clássica’ eram todas convertidas em pênaltis e o movimento do arqueiro-gol ‘bolinha’, que é alvo do adversário e que antes ficava inerte no ponto central dentro da pequena área. 

“No Gudbol do passado, o arqueiro-gol não se mexia. As minhas filhas foram jogar e eu mostrei para elas como era jogado antes, eu disse que o pessoal passa do meio campo e o arqueiro-gol pode ter zaga, o que tiver, estará desprotegido e então eu mudei a regra do arqueiro, que agora se move dentro da área penal”, disse Walter.

Sonho

Walter Bandeira agora se dedica a difundir o seu esporte. Para isso, ele faz questão de ressaltar que o Gudbol é patenteado e revelou que criou a Federação Mundial de Gudbol, sediada aqui mesmo em Manaus. Walter revela ainda que seu sonho é deixar o legado não somente restrito a seus filhos, mas também a todo o mundo, onde segundo ele, gostaria que fossem aplicadas na sociedade as três regras máximas que regem a competição. 

“Meu sonho é fazer ele ser conhecido no mundo todo, como sendo do Amazonas e do Brasil. É levar para as pessoas mais carentes o Gudbol. Eu tenho contato com outros países, um amigo disse que se eu fosse a Angola, eu não teria noção do que aconteceria lá e eu pretendo ir lá agora, tem o México também. Meu sonho é levar o Gudbol a todos os lugares do mundo para que ele se torne um esporte mundial , para um dia a gente olhar e ver o Gudbol numa Olimpíadas. Mesmo que eu não esteja mais aqui, vou estar feliz. Ver uma brincadeira de criança, um jogo criado sem nenhum recurso, ter ido tão longe, é de alguma forma trazer o passado ao presente”, finalizou.

João Felipe

Mais de Acritica.com

Sobre Portal A Crítica

No Portal A Crítica, você encontra as últimas notícias do Amazonas, colunistas exclusivos, esportes, entretenimento, interior, economia, política, cultura e mais.