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Esportes
Série 'Amazonas Olímpico'

Helsinque 1952: Douglas Arnaud, o primeiro amazonense a disputar a Olimpíada

Em nova série de reportagens especiais sobre os Jogos Olímpicos, o CRAQUE conta a saga de um jovem atleta do polo aquático que lutou contra tudo e contra todos pra levar a bandeira do Amazonas a maior competição esportiva do mundo 12/06/2016 às 20:06 - Atualizado em 13/06/2016 às 09:28
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Ao lado dos companheiros da Seleção de Polo Aquático, inclusive João Havelange, o amazonense Douglas Arnaud de Souza Lima disputou os Jogos de Helsinque 1952. (Foto: reprodução)
Denir Simplício Manaus (AM)

A vida nos ensina desde sempre que apenas os melhores vencem. No entanto, no mundo existem vários tipos de vencedores. Não apenas aqueles que sobem no lugar mais alto do pódio podem ser considerados campeões. A história reserva um lugar de destaque também àqueles que lutam pela vitória com honra e dignidade. Com a proximidade da Rio 2016, o CRAQUE promove uma homenagem ao seletíssimo grupo de atletas amazonenses que representou tão bem o nome do Amazonas nos Jogos Olímpicos.

A partir deste domingo vamos contar as histórias de superação de nossos heróis em reportagens pra lá de especiais na série “Amazonas Olímpico”. E, lógico, vamos começar com aquele que deu início a saga dos “Guerreiros do Amazonas” nas Olimpíadas: Douglas Arnaud de Souza Lima. A poeira do tempo até tentou, mas não conseguiu esconder o feito histórico do primeiro amazonense a disputar uma Olimpíada. Na longínqua Helsinque 1952, o nadador de 20 anos disputou a 15ª edição dos Jogos Olímpicos com a seleção brasileira de pólo aquático. Mas vamos voltar ainda mais no tempo e contar um pouco da vida do menino, que virou atleta, pai de família exemplar, empresário de sucesso e que hoje é um exemplo vivo de um verdadeiro campeão.

Natação no igarapé

Nascido na capital no dia 31 de março de 1932, o ex-atleta começou a nadar ainda menino no igarapé de Manaus próximo a ponte Romana I (ou Primeira Ponte), na Avenida Sete de Setembro, no Centro. Naquela época, as águas que cortavam a cidade eram limpas e transformavam o local em verdadeiras piscinas naturais. O pai, Euclydes de Souza Lima, já era um bem sucedido empresário e, preocupado com a educação do filho, que acabara de completar 14 anos, o mandou para o Rio de Janeiro a fim de aprimorar os estudos. Na então Capital Federal do Brasil, Douglas foi levado por um amigo à sede do Fluminense Football Club, nas Laranjeiras, onde se transformou em um exímio nadador.     

Com a esposa dona Celeste e as filhas Dayse, Denise e Dória, exemplo de pai e atleta (Foto: arquivo pessoal)

Vitórias

Daí em diante o amazonense desandou a vencer competições e colecionar medalhas. Tanto que em 1952, mesmo ano dos Jogos na capital da Finlândia, Douglas Arnaud se tornou recordista sul-americano no revezamento 4 x 200 metros nado livre. A luta por uma vaga na equipe brasileira que representaria o País nos Jogos de Helsinque era acirrada e, assim como outros nadadores, Douglas não atingiu o índice necessário para ir aos Jogos como atleta da natação. No entanto, um amigo em especial o convocou para integrar a equipe de pólo aquático do Brasil que iria à Olimpíada. A convite do então atleta, João Havelange, nosso representante começava a arrumar as malas para ir aos Jogos.

Caminho difícil

Mas já naquela época o caminho para disputar os Jogos Olímpicos era árduo. Nosso pioneiro  tinha de arcar com as passagens aéreas para o país escandinavo se quisesse participar da competição. Para tanto contou com a ajuda do irmão mais velho, James Arnaud de Souza Lima, que vendeu o próprio carro   - um Vauxhall - para ajudar o “mano” a realizar seu sonho. “Meu irmão, o James, foi quem me ajudou a comprar as passagens. Teve de vender o carro. Era uma viagem muito longa, do outro lado do mundo. Só assim consegui disputar a Olimpíada”, lembra seu Douglas, hoje com 84 anos.

 Vida pós Olimpíada

Depois da aventura na Olimpíada que marcou o início da “Guerra Fria” no esporte, o amazonense se casou, em 1957, com Celeste de Souza Lima. Da união com a bela jovem que conhecera no próprio Fluminense teve três filhas: Denise, Dória e Deyse. No mesmo ano retornou à Manaus para assumir os negócios da família. Ao lado da esposa e do irmão, transformou a Importadora Souza Arnaud em uma gigante do comércio amazonense. Na década de 1970, a empresa chegou ao seu auge com 14 filiais espalhadas pelo Amazonas e Pará. Também trabalhou por 14 anos no Banco do Brasil antes de retornar ao Rio de Janeiro, onde convencido pelo nadador Rômulo Arantes voltou a nadar na categoria máster.   

Seu Douglas nadou diariamente até os 79 anos; ao lado da filha Dayse e o neto Douglas Mêne  (Foto: arquivo pessoal)

Vida no exterior

No início dos anos 1980, aos 60 anos se mudou para Miami, nos Estados Unidos, e de lá continuou a administrar suas empresas. Com saúde invejável, Douglas Arnaud continuou sua rotina de nadador até os 79 anos, quando sofreu uma complicação cardíaca e foi obrigado a parar de nadar. Atualmente, com a ajuda de Dona Celeste – a qual completará 60 anos de casado no ano que vem -, ainda presta assessoria a empresas de importação. “Passei meses sem andar e tive de parar de nadar por recomendações médicas.    

Memórias do evento histórico

Aos 84 anos, a memória já não é mais a mesma, mas seu Douglas Arnaud, que há pouco tempo foi diagnosticado com o mal de Azheimer, ainda lembra com entusiasmo de sua participação nos Jogos Olímpicos. “Uma coisa que percebi em Helsinque era a grande quantidade de mulheres trabalhando em postos que geralmente seriam dos homens. Dirigindo ônibus, por exemplo. Ainda era reflexo da guerra, que matou muitos homens”, conta o amazonense, que foi homenageado no ano passado pela Associação Comercial do Amazonas (ACA).

Com o apoio do irmão James de Souza Lima, Douglas partiu para a aventura em Helsinque 1952 (Foto: arquivo pessoal) 

Com João Havelange na equipe, o Brasil perdeu para a Espanha por 3 a 2 na estreia, no dia 25 de julho de 1952. Na segunda rodada, logo no dia seguinte, o time de Douglas Arnaud bateu Portugal por 6 a 2. Classificados para o Grupo D, junto a Espanha, Bélgica e África do Sul, os brasileiros perderam todas as partidas e deixaram a competição. “Infelizmente, perdemos mais do que ganhamos. Me lembro bem do time da Hungria. Eram os melhores no ‘water polo’ (polo aquático)”, comenta o ex-atleta, lembrando dos húngaros, que foram os medalhistas de ouro naqueles Jogos e ícones da modalidade até hoje.

“Passamos um mês em Helsinque. Era verão e a cidade era linda, próxima de uma floresta. Havia muitos parques. Foi um ensinamento muito grande. Uma experiência interessante, diferente de tudo que já tinha visto. Muito bom ter participado daquilo tudo”, comenta saudoso o primeiro amazonense a disputar os Jogos Olímpicos.

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