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Esportes
Amazonense de verdade

Ícone do esporte, Ariovaldo Malizia recebe título de Cidadão do Amazonas

O ex-diretor-técnico da Arena da Amazônia e Vila Olímpica de Manaus será homenageado nesta quinta-feira (7), em sessão especial no plenário da Assembléia Legislativa do Estado do Amazonas (Aleam) 06/07/2016 às 13:40 - Atualizado em 06/07/2016 às 13:47
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"Senhor Vivaldão", Malizia administrou o estádio Vivaldo Lima e depois a Arena da Amazônia por duas décadas. (Foto: Arquivo AC)
Denir Simplício Manaus (AM)

Após décadas de serviços prestados ao desporto amazonense, o ex-diretor-técnico da Fundação Vila Olímpica de Manaus, Ariovaldo Malizia, será condecorado com o título de Cidadão do Amazonas, nesta quinta-feira (7), às 11h, em sessão especial no plenário da Assembléia Legislativa do Estado do Amazonas (Aleam).

Paulista nascido em Presidente Venceslau, Ariovaldo Malizia é uma lenda do esporte local. Radicado no Amazonas a 50 anos, o preparador físico de formação chegou ao Estado nos idos de 1966, por volta dos 16 anos de idade, onde veio passar férias na casa de um dos três irmãos que aqui residiam e aqui criou raízes. “Vim passar férias e, de maneira despretensiosa, acabei ficando. Me apaixonei pela cidade, larguei tudo em São Paulo e vim”, relembra.

Quem não conhece a figura carismática do ex-administrador da Arena da Amazônia pensaria que ele é amazonense de origem. “Pelos anos aqui na terra, pode se considerar mesmo”, diz Malizia quando indagado se é “amazonense da gema”. A indicação para o título de Cidadão Amazonense veio por indicação da deputada Alessandra Campêlo (PMDB), como o próprio homenageado conta.

“A indicação foi feita pela deputada Alessandra Campelo. Quando ela era secretária (da Sejel),  eu era diretor da Fundação (Vila Olímpica) e nós realizamos algumas finais de campeonato onde ela organizou e eu estava à frente com ela. Estávamos ajudando a intervir no futebol, em ajudar o futebol. Então ela se relacionou comigo, ficou agradecida e propôs meu nome e foi aprovado. Assim, amanhã (quinta-feira, 07) estarei recebendo essa honra”, comentou.

O nascimento de um amazonense

Instalado em Manaus, Malizia ingressou na então Universidade do Amazonas (UA) onde se formou em Educação Física. “Me formei em Educação Física, na 3ª turma da antiga UA, que hoje é UFAM (Universidade Federal do Amazonas). De lá, não parei mais, entrei no esporte amador e profissional , fui atleta do futsal amazonense. Comecei na União Desportiva Portuguesa, onde o Arnaldo Santos (ícone da crônica esportiva amazonense) era meu treinador. Tive uma passagem muita rápida pelo Nacional e depois fui despontar no Bancrevea”, conta.

Como atleta, Malizia por pouco não foi seduzido a trocar as quadras pelos gramados. “Na passagem pelo Nacional, o técnico João Maria ainda pediu pra que eu ingressasse no futebol de campo, mas não quis. Nunca achei minha praia. Sabia jogar, mas senti que não ia vingar pra ganhar dinheiro”, revela.

A aventura das Arábias

Após a formação, o educador físico partiu para sua paixão, o futebol. “No começo na preparação física, trabalhei com o doutor Roberto Gesta de Melo, na antiga Sedam (Superintendência de Educação Física e Desportos do Estado do Amazonas), no que foi o primeiro órgão de esportes do Estado. E desde lá eu comecei a trabalhar com o futebol. Comecei na Rodoviária, passei pelo Nacional, pelo Fast e fui pro Oriente Médio, onde passei três anos na Arábia Saudita”, relembra Malizia, contado sua aventura das “mil e uma noites”.

“O convite veio do Minelli (Rubens Minelli, tricampeão brasileiro com Inter-RS e São Paulo entre 1975 e 1977). Fui pra lá trabalhar na Seleção Olímpica deles. Fiz um estágio no São Paulo e o Minelli era o treinador na época. Lá eles gostaram de mim e veio o convite dos árabes para o Minelli ser o ’coach’ (técnico) e fomos todos” disse o preparador, lembrando com orgulho que foi o primeiro profissional formado no Amazonas a trabalhar fora do País.

“Tenho orgulho de dizer que sou o primeiro amazonense a sair pro Oriente Médio. Que saiu de Manaus pra trabalhar fora, o primeiro e um dos poucos do Brasil na época. Pois lá só tinham o Didi, na Arábia; o Zagallo e o Parreira, no Kwait, e no Catar estava o Evaristo de Macedo. Não tinha mais ninguém. Fomos pra lá com nossa equipe e só depois de alguns anos é que o mercado se abriu pra jogador, pra treinador e todo mundo foi pra lá. Mas eu saí daqui, isso é um orgulho que tenho de dizer, sou formado aqui no Amazonas”, conta emocionado.

De volta a "terrinha"

Depois do ciclo de três anos no mundo árabe, Malizia retornou ao Amazonas onde preparou fisicamente várias equipes como Rio Negro, Nacional e Sul América, antes de ingressar na vida administrativa. “Assumi a diretoria técnica do Vivaldo Lima a pedido do Arnaldo (Santos) e comecei a administrar o Vivaldão desde 1995 até 2015. Foram 20 anos no estádio onde eu vi a destruição do Vivaldo Lima e vi nascer a Arena da Amazônia”, relembra, contando o convite recebido do amigo Arnaldo Santos.

“O Vivaldão foi a minha casa. Quando o Vivaldo Lima foi reformado, o Arnaldo precisava de alguém que gostasse de futebol e que tivesse o perfil dele. Porque o Arnaldo é um cara muito ‘Caxias’, ele é muito sério e também tenho esse perfil, e ele me disse: ‘vem trabalhar comigo aqui’, e fui. Fizemos toda a parte de organização, compramos colete, crachá, organizamos todos os setores, enfim, modernizamos o estádio”, pontua.

De Vivaldão a Arena

Já no comando da Arena da Amazônia, Malizia recorda do árduo trabalho à frente do estádio que recebeu a Copa do Mundo. “Participei de toda elaboração da Arena, as adequações. Tivemos que nos adequar a muita coisa, a nossa realidade. Tive uma participação bem intensa, foram sete anos discutindo o projeto pra Copa”, disse, completando.

“Trabalhei na Arena na época da Copa. Existia a gerência da Fifa, quem operou a Arena foram os próprios membros da Fifa e eu vinha como suporte do governo do Estado logo abaixo, aparando as possíveis arestas que fossem aparecer. Estive lá em todos os jogos, em todos os momentos, nos dias dos eventos dando o suporte necessário para que nada pudesse acontecer que atrapalhasse o evento e graças a Deus não tivemos problema nenhum”, recorda o ex-diretor do estádio.

As melhores recordações

Questionado sobre as melhores lembranças dos 20 anos à frente do antigo estádio Vivaldo Lima, Malizia aponta o surgimento de um rei, o “Rei do Norte”.

“Na realidade são várias. Mas aquele auge do São Raimundo foi um período longo e por sinal, muito bonito. Eram jogos de casa cheia. Foram nove ou dez anos que o São Raimundo se manteve na frente e aquilo tudo me enchia de alegria porque você estava vendo o estádio cheio e o povo respondendo, indo pro campo. O time respondia dentro de campo, jogando bem e correspondendo. Foi um período muito bacana porque era o nosso futebol. Até então a torcida do São Raimundo era pequena e depois começou a se transformar num time gigante, não apenas de torcedores, mas de admiradores. O amazonense passou a incorporar o São Raimundo como time da terra. Você via rionegrino, fastiano, nacionalino, todos vestindo a camisa do São Raimundo, vestindo a camisa de um time do Amazonas. E aquilo realmente me deixava muito satisfeito. Foi um período memorável”, relembra.

Orgulho de ser amazonense

Malizia aproveitou a conversa com o CRAQUE para convidar os amigos e torcedores amazonenses a comparecer na Aleam nesta quinta, para testemunhar sua homenagem. Mas revelou que a emoção deve tomar conta de seu discurso.

“Nem sei se vou conseguir falar isso amanhã. É que nunca trabalhei pensando nisso, não cheguei a Manaus pensando nisso. Veio de maneira espontânea, bem à vontade, realmente como um amazonense mesmo. Pois eu vi essa cidade crescer, se desenvolver, se modernizar. E eu era partícipe dessa comunidade. Curti e curto essa cidade como um amazonense mesmo. Então eu recebo o título com um orgulho enorme porque eu jamais vi ninguém questionar meu nome em qualquer coisa. Não vejo ninguém falar que o Ari é isso ou aquilo. Nada que pudesse denegrir minha imagem perante a cidade. E receber esse título me enche de orgulho”, revela.

As feras do Ari

Pelas mãos de Ariovaldo Malizia passaram alguns dos maiores atletas do Amazonas e do Brasil. O próprio homenageado faz questão de lembrar de alguns craques que receberam seus ensinamentos.

“São tantos nomes que nem sei por onde começar. Treinei o Berg, o Pifó, mais conhecido como Lima, o Sérgio Duarte, o Marcelinho (hoje na seleção da Bulgária). De fora teve o Tobias, goleiro que foi do Corinthians. Antenor, que era lateral-direito do Nacional e depois foi pro São Paulo. Luis Florêncio, Adalzinho, Dadá Maravilha, Edu, Zezinho Bastos, Mirandinha, Carlos Alberto Garcia, Murica, Paulo Galvão, Fernandinho, Darinta, Patrulheiro, Alcindo, Rui Rei, que ficou famoso contra o Corinthians quando jogava na Ponte Preta, foi meu atleta aqui no Rio Negro. O Marciano, que foi atleta do Flamengo durante muitos anos. É muita gente, não dá pra lembrar de todos, se não vamos passar um dia inteiro”, conta rindo.

Na ativa

Quem pensa que Ariovaldo Malizia está aposentado engana-se. O professor, como ele mesmo diz “tem muita lenha pra queimar” e pretende voltar ao batente em breve.  

“Espero voltar a trabalhar no futebol, mas como gestor. Como diretor de futebol, gerente de futebol, algo que eu possa realmente colocar em prática e tentar solucionar tudo aquilo que sofri como preparador físico. Quando você é preparador físico você tem de cumprir as exigências da diretora. E muitas vezes o seu trabalho não vai fluir porque o plantel que está na sua mão não vai progredir. Por exemplo: muitas contratações numa temporada, isso mata qualquer planejamento, qualquer organização. Acaba destruindo a essência do futebol que é o trabalho de equipe, de amizade, de solidariedade. Você não consegue montar um grupo forte. Chegam dez (jogadores), vão dez. Chegam 15, vão 15. Chegam quatro vão quatro. Então você nunca consegue montar um grupo forte de cabeça, que queira conquistar, que queira ser campeão. Tem gente que vem pra cá só por vir mesmo, veste a camisa depois vai embora. É tchau e bênção. Então você não consegue fazer um bom trabalho. E essa experiência eu espero passar em algum clube que realmente apresente um projeto bom. Porque apesar dos pesares, eu acredito muito no futebol. Ainda tenho muita lenha pra queimar”, explica.

Amor pelo Amazonas

Apaixonado pelo Amazonas, Malizia encarna como poucos o espírito de cidadão do Amazonas. O ex-diretor do Complexo Esportivo da Vila Olímpica comenta que sempre lutou pela terra que aprendeu a amar e defender, além de revelar que mora no paraíso.

“Sempre lutei pelo esporte do Estado. E aquela coisa de lutar pelo Amazonas, por Manaus, reconhecer isso aqui, pois isso aqui é um paraíso. Nós vivemos num paraíso, ninguém me tira isso da cabeça. Isso aqui é lindo. Estamos no meio da Floresta Amazônica e isso é um privilégio. Essa cidade hoje é grande, limpa, moderna e bonita, e eu sem querer fiz parte disso”, concluiu.

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