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Índios encaram 10h de viagem para participarem do Peladão

O jogo mais duro para o time de Autazes, o Funai Amigos do Sapo, é e sempre foi vencer os 118 quilômetros que separam o município de Manaus para colocar os 11 jogadores em campo 12/12/2014 às 11:31
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Índios da etnia Mura encaram 10 horas de viagem para jogar o Peladão
Lúcio Pinheiro Manaus

Não são poucos os testes que um time que se propõe a disputar o título de um campeonato de futebol amador do tamanho do Peladão enfrenta. Na maioria das vezes, muitos dos obstáculos que insistem em separar as equipes do sonhado troféu aparecem dentro de campo, como a qualidade superior do adversário, um erro de arbitragem ou desfalques de última hora. (Veja galeria de fotos)

Mas alguns times vivem a exceção dessa regra, encarando os piores adversários fora das quatro linhas. Um caso emblemático dessa situação e também do poder que o amor pelo futebol tem é o dos índios do povo Mura, de Autazes (município distante 118 Km de Manaus), que têm um time no Peladão Indígena.

O jogo mais duro para o time de Autazes, o Funai Amigos do Sapo, é e sempre foi (a equipe já disputou a competição em 2007 e 2008) vencer os 118 quilômetros que separam o município de Manaus para colocar os 11 jogadores em campo. Não somente pelo desgaste físico da viagem de cinco horas, mas principalmente pela falta de recursos financeiros para custeá-la.

“Para falar a verdade, eu não sei nem explicar porque a gente inscreveu o time. Acho que o que explica é gostar muito do futebol. Porque se a gente fosse pensar bem, a gente não faria isso. Porque não é fácil”, conta Fábio, 31, o “Tato”, como é conhecido pelos demais indígenas. Ele é uma espécie de faz tudo no time e na aldeia São Félix quando o assunto é esporte.

Na data de estreia do Funai, 7 de dezembro, um domingo, o dia começou às 3h. Na verdade, foi difícil dormir. A ansiedade e o medo do novo - afinal havia jogadores que nunca tinham saído da aldeia, quanto mais conhecido Manaus - não deram muito espaço para o sono ao longo da noite.

Depois de um copo de café com pão, preparado na própria aldeia pelos sogros de Tato, que mantém um pequeno forno em casa onde vendem o alimento, Tato e seus 11 atletas se reuniram e começaram a viagem rumo a Manaus. Da aldeia São Félix até o final da estrada que dá acesso a Autazes, onde é possível pegar microônibus até o porto do município de Careiro da Várzea (a 29 quilômetros de Manaus) é preciso caminhar por 40 minutos. Metade do trajeto em um ramal de terra batida.


O trajeto até o ponto do ônibus poderia ser feito de carro, mas o grupo não tinha dinheiro suficiente para alugar um veículo que o transportasse da aldeia até os microônibus. O bom da caminhada é que ela já serve de aquecimento e para afastar de vez a preguiça de quem acabara de acordar.

Para os índios, a caminhada de 40 minutos - naquela madrugada em especial sob uma linda lua cheia - representava mesmo era o início de um dia de festa. Afinal, se estavam ali se deslocando para Manaus, é porque tinham vencido talvez o principal adversário do time: a falta de dinheiro para comprar as passagens dos 11 atletas. Na tarde de sábado, após uma semana de conversas, Tato conseguiu sensibilizar o prefeito de Autazes, José Thomé Filho (PSD), a ajudá-los na compra das passagens do time.

A caminhada do time encerra às margens do Paraná Autaz Açú (braço do rio Madeira). Às 5h em ponto, a equipe pegou o microônibus, para uma viagem de mais uma hora até o Careiro da Várzea. Para vencer os 29 quilômetros finais até Manaus, o time embarcou em uma lancha, por volta das 7h. Se optasse pela travessia em balsa, eles corriam o risco de não chegar a tempo no campus da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), local do jogo.


Já em Manaus, no porto do Ceasa, o grupo do Funai pegou um ônibus de linha e, em 15 minutos, chegou ao campos da Ufam, vencendo assim, seu primeiro desafio do dia.

Com a bola nos pés, os Muras de Autazes mostraram porque são bicampeões da competição, e não tiveram dificuldade para golear por 4 a 0 a equipe do Rio Negro. “Ouvimos durante a semana que iríamos ser goleados. Mas respondemos as provocações dentro de campo”, desabafou Tato ao final da partida.

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