Quarta-feira, 24 de Fevereiro de 2021
Poderosa

Lutadora de MMA e professora de jiu-jitsu, Akel Rocha afirma :'Todas são capazes'

Com apenas 19 anos, Akel comanda a equipe feminina de jiu-jitsu da Rock Solid Family, que conta com 15 mulheres entre 10 e 34 anos



IMG-20210122-WA0080_303A9017-0C4A-463D-BA74-519BD8711E50.jpg Foto: Reprodução/Instagram
23/01/2021 às 18:39

“Já sofri machismo quando eu chegava pra lutar em eventos e as pessoas achavam que eu ia pra ser ring girl”. Logo de cara, a frase da lutadora de MMA amazonense, Akel Rocha, de 19 anos, mostra um pré-julgamento de uma parcela do público consumidor de MMA que, em sua grande maioria, é formado por homens. A realidade vivida pela faixa preta de jiu-jitsu ainda é a mesma presenciada por diversas mulheres dentro do esporte, mas que aos poucos, essas profissionais usam as suas forças tanto dentro do octógono, como fora dele, para conseguir “nocautear” este incômodo adversário.

“Essas pessoas sempre associam que uma lutadora forte e boa de porrada é aquela que mais parece um homem. Isso está errado e, pior ainda, quando as pessoas dizem que a gente ‘bate como um homem’, querendo dizer que você é muito forte. Nós somos mulheres, independente da aparência de cada uma ou da força maior ou menor de cada uma. Quando a gente entra numa luta, são duas mulheres lutando e é assim que temos que ser reconhecidas”, frisou a lutadora de MMA.



Um dos primeiros desafios da jovem competidora foi ter que enfrentar a desconfiança dentro de casa. Com background na arte suave - onde é lutadora desde os sete anos -, Akel conta que demorou para que sua família vislumbrasse nela um potencial para o futuro e desabafa sobre como foi para conseguir conquistar essa confiança.

“Um dos problemas que enfrentei foi quando eu era mais nova. O fato da minha família nunca ter me visto como uma lutadora profissional ou uma professora de jiu-jitsu, mas vinham isso no meu irmão, que é homem. Pra eles eu era muito fraquinha e o meu treino era por hobby. Conforme fui crescendo e mostrando toda a minha vontade e persistência, hoje, meus maiores fãs estão dentro da minha casa. Apesar disso, a gente sabe que em outros lugares tem situações ainda piores”, disse a atleta da academia Rock Solid Family, construída por sua família.

 

Patrocínio

 

Sem citar nomes, Akel contou ao CRAQUE que teria sido enganada por um potencial patrocinador. Na busca por incentivo financeiro, ela teria procurado a empresa para tentar um acordo, mas teria recebido uma resposta dos mesmos de que não fechava patrocínio com ninguém. Após este episódio, a atleta descobriu que a empresa patrocinava outro lutador - contrapondo a resposta que ela recebeu - e que este profissional teria os mesmos títulos da jovem lutadora.

“Já aconteceu de eu tentar patrocínio com uma loja e a pessoa me dizer: ‘Poxa, princesa, eu não patrocino ninguém’. Dias depois, essa mesma loja mostrou ser patrocinador de um atleta que disseram ser de ponta, pois era atleta do evento ‘X’, sendo que eu também sou atleta do mesmo evento ‘X’ e ainda tenho os mesmos títulos que o rapaz, mas ele é reconhecido como um atleta de ponta por isso e eu não”, contou.

Graduada recentemente para a faixa preta de jiu-jitsu, Akel acumula dois títulos amazonenses na faixa marrom, além de um pan-americano. No MMA, a lutadora começou sua carreira em 2020 e já têm três lutas profissionais - sem saber o que é derrota -, tendo um cartel de 3-0.

 

Projeto

 

Ainda em julho de 2020, Akel foi procurada por uma moça na sua academia - localizada no bairro São José Operário, Zona Leste de Manaus -, interessada em ter aulas de jiu-jitsu. Preocupada por já ser a única mulher no treino da Rock Solid Family, a lutadora achou que não seria legal introduzir uma pessoa sem nenhuma experiência no meio para praticar ao lado de outras mais experientes. Foi a partir disso que a jovem teve uma ideia.

“Em julho de 2020, uma moça me procurou interessada em começar a treinar na minha academia. Mas eu sou a única mulher no treino de competição, que era o único horário de JJ (Jiu-Jitsu) na minha academia. Então, eu não achei legal trazê-la para começar do zero, em uma equipe já tão avançada, achei que ela se sentiria deslocada e iria acabar desistindo. Foi aí que tive uma ideia: chamei ela pra começar em um horário da tarde e divulguei para as minhas amigas que iria abrir um horário feminino, só para iniciantes. De cara, começamos com quatro alunas. Elas gostaram tanto que foram chamando as amigas e o nosso time foi crescendo”, afirmou.

Com o passar dos meses, a equipe que havia começado com quatro alunas, hoje já conta com 15 mulheres de idade entre 10 e 34 anos. Além de profissional, a agora professora Akel contou para a reportagem que tenta não passar o sentimento de medo para as suas alunas, tentando filtrar apenas para si todas as experiências de preconceito que ela própria sofreu dentro do esporte para não assustar suas “pupilas”.

“Eu pego todas as experiências ruins que já tive ou presenciei no tatame e evito passar esse tipo de motivação, de medo, para as minhas alunas. Tenho toda a paciência do mundo de explicar, ensinar e adaptar na hora do trabalho e, acima de tudo, motivar a buscarem melhorar cada vez mais, mostrando que todas são capazes”, explicou.

 

A base é forte

 

Com as meninas treinadas, chegou o momento de colocar em prática tudo que foi aprendido dentro da academia. No último mês de novembro (2020), as meninas da Rock Solid Family conseguiram um expressivo resultado, conseguindo garantir medalhas com todas as atletas que representaram o time na academia.

“Os frutos disso vieram cedo, levei elas pro primeiro campeonato da vida delas, o amazonense da Fajjpro, no final do ano passado. Das seis atletas que competiram, todas trouxeram medalhas: quatro de ouro, uma de prata e uma de bronze. Todas faixas brancas iniciantes. Isso mostra que muitas mulheres, às vezes, não entram em um esporte de luta por ouvirem frases como: ‘isso não é pra você’”, afirmou.

O foco continua Abrindo espaço para crianças dentro da equipe, Akel diz ter planos para elevar a bandeira da academia nos eventos pela cidade. Para isso, a jovem competidora sabe que primeiro é necessário aguardar que o mundo vença o período de pandemia.

“Elas continuam treinando para as próximas competições e nossa equipe tem crescido cada vez mais. Inclusive, abrindo espaço para crianças também, meninas e meninos de até 14 anos, que geralmente são os filhos ou irmãos das minhas alunas. Já tivemos a primeira graduação do time e, após esse período de pandemia, com certeza estaremos marcando presença, mostrando a eficácia do nosso método de ensino e levantando nossa bandeira nos eventos”, concluiu.

Repórter de A Crítica

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