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Mesmo sem apoio, atleta do dardo cruza a cidade todos os dias em busca do sonho no esporte

Kennady Tandy vem conquistando bons resultados nos campeonatos universitários da modalidade, mesmo não tendo patrocinadores. Família e treinadores são essenciais na vida do atleta amazonense 17/02/2016 às 18:31
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Kennady Tandy e algumas das suas medalhas conquistadas com o apoio da mãe, Simone, e dos avós Ercília e Francisco
Paulo André Nunes Manaus (AM)

Aos 22 anos, o atleta amazonense Kennady Tandy Justino da Silva Pinheiro, atravessa a cidade, das zonas Oeste até a Leste, em busca dos sonhos de ser um grande competidor. Morador da Compensa, o lançador de dardo estuda e compete há 3 anos pelo Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Amazonas (Ifam), a antiga Escola Agrotécnica localizada na alameda Cosme Ferreira, bairro do São José.

Sua rotina no dia a dia é acelerada como o seu dardo. Ele sai de casa às 5h30, onde pega dois ônibus com sentido ao Ifam, onde chega entre 7h e 7h30 para o curso de Técnico em Agropecuária, que começa às 8h e vai até meio-dia.

Em seguida, ele almoça e, de 13h às 17h, retorna para a mesma atividade vespertina na instituição. Só após às 17h que ele começa a treinar, até 18h30 ou 19h30. Na maioria das vezes, é comum ele ficar na casa de amigos na própria Zona Leste, poupando tempo e se desgastando menos na complicada locomoção.

Sem apoio ou patrocínio da iniciativa privada, é como se ele fosse lançado por um ideal que já o fez chorar de tristeza há algum tempo, mas que vem rendendo resultados mesmo com o mínimo de preparação possível.

Em outubro do ano passado, pela categoria Sub-23, ele conquistou a medalha de bronze nos Jogos Universitários Brasileiros (JUBs) disputados em Uberlândia (MG). E em dezembro, no Norte-Nordeste Universitário disputado em Recife, também subiu ao pódio como terceiro lugar.

“A temporada de 2015 foi meu melhor ano no dardo, porque fui para vários campeonatos e medalhando neles, ficando entre os três melhores como nos Jogos Universitários Brasileiros quanto atingi a marca de 54 metros”, destaca ele, que tem 56 metros como a melhor marca pessoal.

FAMÍLIA

Seus maiores incentivadores vêm da própria família: os pais e avós, que arcam com boa parte das despesas, além de amigos e seus treinadores. Neste ano, vai cursar o 7º período do curso de Técnico em Agropecuária, finalizando sua passagem pelo Ifam Zona Leste, instituição na qual está desde o ensino Médio – e lá se vão 7 anos.

 “Eu já quis sair e trabalhar, mas a minha disse para mim continuar o estudo. Estudar é o principal, e depois de me formar eu posso trabalhar, disse a mamãe”, explica Kennady.

“Um dos meus sonhos de vida é ser atleta e participar das Olimpíadas e de um Pan-Americano. É um sonho, mas tenho outros planos como estudar e me formar, pois atleta também fica velho e é preciso ter outra profissão. Inclusive, esse ano é o meu último pelo Ifam, que me apóia”, contou Kennady, que recebeu a reportagem do MANAUS HOJE em sua casa, na Compensa.

Kennady não começou no lançamento. Sua formação como atleta foi há 12 anos no handebol na escola Vicente Teles de Souza, participando dos Jogos Escolares do Amazonas. Quando passou para o Ifam, há 7 anos, passou a praticar também atletismo, se interessando a praticar mais o dardo e virar um promissor dardista pelas mãos dos técnicos Antônio Cleosmar e Vânia Araújo.

TEMPORADA

Seu planejamento para esta temporada inclui a participação nos próximos Jogos Universitários do Amazonas, Campeonatos Amazonenses e Norte-Nordeste e JUBs de Cuiabá.  “Quero treinar mais forte para poder chegar ao primeiro lugar. Ir mais forte. Mas para isso dependo de saber se a instituição vai liberar a verba ou não”, disse o competidor.

O competidor parou de treinar e competir durante 1 ano e meio por falta de patrocinador e às vezes por ter apenas a passagem aérea. “É complicado às vezes a minha mãe, avós e tios, por exemplo, terem que tirar do próprio bolso nas viagens que eu faço. E não adianta eu treinar e nem ter a passagem aérea”, lamenta ele. 

MUITA LUTA

Os 12 anos que Kennady tem de atleta perfazem o mesmo período que a industriaria Simone Justino da Silva, 39, sua mãe, procura por patrocínios para o filho competidor. A dificuldade é dupla para ela, que está licenciada pelo INSS por motivos de saúde.

“Já fui em todos os lugares possíveis em busca de apoio para ele e ainda não consegui infelizmente”, declara ela sobre o filho que nunca pôde trabalhar em face do seu curso no Ifam ser em regime de tempo integral.

Sua mãe diz que ele já pensou até em parar de competir. “Já teve momentos em que ele pensou em desistir, mas toda vez que acontece isso o sonho dele fala mais alto”, declara ela.

“O apoio que a gente dá é do dia a dia, como  o vale-transporte e a refeição, mas há essa dificuldade em relação a patrocinadores. Se tivesse alguém que investisse nele, teria condições. No Brasileiro, era pra ele ter conquistado uma classificação melhor se tivesse o apoio adequado. Ele teve muita dificuldade. O professor Cleosmar o ajuda demais pois vai atrás de passagem,  mas ele precisa de um preparo físico  melhor. Não tenho condições de mantê-lo na faculdade e no esporte ao mesmo tempo . Estou afastada da empresa pelo INSS e todos sabemos que fica mais complicado ainda. O que eu posso, eu faço. E o que os meus pais podem fazer, eles também fazem”, desabafa Simone Justino, que vai além.

“Fica muito distante a ida dele para a Zona Leste. Nós moramos na Compensa e é uma jornada e tanto pegar às vezes de 2 a 3 ônibus. São seis anos nesta luta. Já chegou a situação dele dizer: ‘Mãe, cansei, parei’. Ele já disputou competições com sapatilha emprestada porque a dele estava abrindo. E uma nova tem que vir de fora. Tem todo um custo. Se tivesse uma pessoa que fornecesse todos esses equipamentos , uma academia, alimentação adequada, ele já teria ido bem mais longe”, comentou a industriária. 

Três perguntas para Simone Justino

Industriária, 39 anos, mãe de Kennady Justino

Há quanto tempo a senhora procura patrocínio para o Kennady?

Há 12 anos, mesmo tempo que ele entrou no esporte. Estou há 8 anos afastada pelo INSS devido problemas na coluna e duas cirurgias no ombro. Nossa renda mensal é de R$ 830 e o pai dele ajuda com R$ 115 mensais para comprar o vale-transporte. O que eu posso, eu faço. E o que os meus pais podem fazer, também. O professor Cleosmar ajuda muito ele também. Já passamos muita dificuldade.

Fale mais dessas dificuldades.

Fica muito distante a ida dele para a Zona Leste. Nós moramos na Compensa e é uma jornada e tanto pegar às vezes de 2 a 3 ônibus. São seis anos nesta luta . Ele já disputou competições com sapatilha emprestada porque a dele estava abrindo. E uma nova tem que vir de fora.

Ele já pensou em parar de competir?

Sim. Já teve momentos em que ele pensou em desistir, mas toda vez que acontece isso o sonho dele de ser atleta fala mais alto.

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