Quinta-feira, 22 de Outubro de 2020
Bastidores

'Não tínhamos salário': supervisora do Iranduba fala sobre bastidores do clube

Bia Banora conta experiências de dentro do clube que vão desde as atletas serem retiradas do alojamentos após competição nacional, até salários atrasados



IMG-20201018-WA0003_0F2D4AD2-0C0E-405E-97E3-DDE0BCD278DE.jpg Foto: Arquivo pessoal
18/10/2020 às 08:29

Após a confirmação da queda inédita do Esporte Clube Iranduba da Amazônia à segunda divisão do Campeonato Brasileiro, os efeitos do estrago ainda seguem sendo ouvidos em vários cantos do cenário baré. Não é por acaso que existem manifestações por partes de vários personagens dessa trajetória, ainda mais por se tratar da equipe octacampeã do Barezão feminino, semifinalista da Copa Libertadores e que detêm os recordes de públicos no futebol feminino.

E se tratando de uma equipe feminina de futebol, o jornal A Crítica entrevistou uma personagem com sete anos de Iranduba, que nesses anos acumulou funções que vão desde colocar as luvas e defender o time debaixo das traves, até arregaçar as mangas e trabalhar como cozinheira, Bia Banora, a atual supervisora do Hulk. A ex-atleta falou sobre os tempos em que o clube ainda dava seus primeiros passos no cenário nacional, sem conseguir grandes feitos fora do Amazonas, mas já sendo soberano dentro dos limites do estado.



“Comecei minha trajetória em 2013 através do professor Mululo e acabei ficando. Na época nos eram repassado dinheiro das passagens de ônibus. E tínhamos atletas dos municípios de Borba, Manicoré, Parintins, Urucurituba, Itacoatiara, Autazes, Itapiranga, Maués e Manaquiri, entre outros municípios do Amazonas que chegaram a fazer parte do clube e, também, algumas atletas que vinham de Boa Vista”, disse.

“Fui campeã amazonense junto com o time naquele ano 2013, 2014, 2015. Continuei no time e tinha competição da Copa do Brasil, Campeonato Brasileiro, que na época eram apenas quatro jogos na primeira fase, e nunca passamos dela até 2016. Vale destacar que o calendário do clube era curto na época, não tínhamos um ano cheio de competições como depois passou à acontecer”, destacou.

Sem comida e sem moradia

Bia conta que durante as competições nacionais, o estado cedia a Vila Olímpica para as atletas terem um lugar para morarem e se alimentarem. Só que no ano de 2015, a supervisora revela que foi cortada a alimentação para o elenco e, em troca, foi dado 10 reais para cada uma comprar a sua alimentação. Pelo relato de Banora, o pior ainda estava por vir, pois após o Iranduba ser eliminado da primeira fase da Copa do Brasil, as meninas foram comunicadas que teriam que sair da Vila Olímpica.

“Chegamos a morar na Vila Olímpica que era cedido para competição nacional e lá tinha o que comer. Só que em 2015 foi cortada a alimentação. Quando isso aconteceu, nos repassavam 10 reais para cada atleta comprar a sua comida. Quando acabou a competição nacional, nos disseram que teríamos que sair da Vila, e se não fosse o Edu Lima, vice-presidente do clube, teríamos ficado na rua. Edu arrumou uma casa pra ficarmos e quando chegássemos do treino fazíamos a nossa própria comida”, conta a supervisora do Hulk.

Quando perguntada sobre se o salario de atleta ajudava na questão alimentar, a ex-goleira respondeu: “Não tínhamos salário! E de 2013 a 2015 recebi apenas R$ 100,00, uma única vez, e em um envelope que me foi entregue no Zamith”, disse.

Bia conta sobre a vez em que a equipe ficou alojada em um quartel antes da partida contra o Boa Vista-RR pela Copa do Brasil: “Em 2015 na estreia da Copa do Brasil, em Boa Vista/RR , nos colocaram alojadas no quartel. Só depois eu soube que a CBF disponibiliza R$ cinco mil reais para alimentação e hospedagem”, disse Banora.

A reportagem da A Crítica procurou o ex-técnico do clube na época, Olavo Dantas, que exercer um cargo militar no exército brasileiro, para falar sobre o ocorrido na Copa do Brasil de 2015, o técnico preferiu não entrar em detalhes e só disse que essas situações devem ser tratadas com o presidente do Hulk, Amarildo Dutra, que ultimamente não tem atendido a contatos da imprensa ou feito aparições públicas.

Vaquinha do Iranduba

Quando questionada sobre as críticas que o clube recebe por conta da vaquinha virtual que promoveu para conseguir levantar 900 mil reais, sendo que o rombo total chega à quase dois milhões, Bia não cita nomes, mas é bem direta ao criticar ex-integrantes do Hulk.

“Não foi só o Iranduba que fez vaquinha. O Foz também fez, outros clubes. Nós não temos apoio de prefeitura e nem de governo. Há pessoas que já foram da comissão técnica que não queriam atletas de fora, depois não podiam estar nos treinos nos horários estabelecidos, depois queria a mídia toda para ele, como se fosse dono do Iranduba. E o Iranduba não tem dono”, disse.

Sobre as criticas de que o clube antes não deixava acontecer o rombo financeiro que hoje o clube acumula, Bia rebate dizendo que não existe possibilidade de na época o clube fazer dívidas, pois não existia pagamento de salário para as atletas.

“As pessoas esquecem das dificuldades que passamos. Como que na época o time vai contrair dívidas dando R$ 10,00 para a alimentação de cada atleta? Como que vai ter dívidas não pagando salário? Como que um clube vai ter dívidas se a mulher aqui, que colocavam para carregar gelo e lavar roupas, em três anos recebeu apenas um envelope de R$ 100,00.”, afirmou Bia.

Após realizar a parceria com o 3B Sports, o Iranduba tentou se livrar permanecer na primeira divisão, mas acabou sendo rebaixado fazendo 11 pontos e ocupando a 13ª posição do Campeonato Brasileiro. O Hulk ficou três pontos atrás que do Minas Brasília, primeiro time fora da zona de rebaixamento.

Repórter de A Crítica

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