Domingo, 19 de Maio de 2019
Craque

No aniversário de um ano do 7 a 1 para a Alemanha, Dorival Júnior analisa o futebol brasileiro

Dorival foi o técnico que montou o último grande time do futebol brasileiro, o Santos de 2010 que lançou Neymar



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Dorival Júnior faz uma análise sobre o futebol brasileiro
08/07/2015 às 15:12

Dorival Júnior é o responsável por montar um dos times mais vistosos do futebol brasileiro nos últimos anos. Em 2010, ele promovia a entrada no time titular dos Santos de um garoto franzino, oriundo das categorias de base da Vila Belmiro, que mais tarde se consagraria como a maior estrela canarinha da atualidade: Neymar Júnior.

Ao lado de Paulo Henrique Ganso, outro garoto na época, além de André, Robinho e outros, o treinador desafiou o conservadorismo defensivo do futebol e a aposta por atletas carimbados (o próprio Vanderlei Luxemburgo, antes dele, insistia em não escalar o futuro craque, a quem chegou a chamar de ‘filé de borboleta’). Com uma equipe ofensiva e futebol ousado, o time de Dorival Júnior conquistou o Campeonato Paulista e a Copa do Brasil.

Com passagem por Manaus programada para o próximo dia 14 de julho, quando será um dos palestrantes do 1º Curso de Treinadores do Futebol Profissional do Estado do Amazonas, o técnico, atualmente sem clube, conversou com a reportagem do CRAQUE sobre o atual momento do futebol brasileiro, um ano depois do 7 a 1.  Confira a entrevista:

Você fez um dos times que mais bonito jogou no futebol brasileiro dos últimos anos: o Santos de 2010, que tinha como uma das maiores características a revelação de talentos da base. Neymar, por exemplo, era pouco aproveitado por Luxemburgo, que chegou a chamá-lo de ‘filé de borboleta’. Você bancou o garoto, que hoje é a maior jogador do futebol brasileiro. O que lhe fez olhar diferente para aqueles meninos? Como foi a montagem daquele time?
Primeiro foi em razão daquilo que eu havia visto no Santos no ano anterior. Cheguei falando que montaria um time em cima do Neymar e do Ganso. Achava e continuo achando dois jogadores diferenciados. O Paulo (Henrique Ganso) teve sequência de lesões, acabou encontrando alguma dificuldade, mas nunca deixou de ser esse grande jogador. Trouxe alguns jogadores da minha confiança, montamos um elenco forte, dois grandes jogadores em cada posição, e acreditei naquele trabalho. Desde o primeiro treinamento com bola que fizemos no CT do Santos, por volta do dia 13 de janeiro (de 2010), parei o trabalho e disse que eles prestassem atenção naquilo, que prestassem atenção e valorizassem aquilo que ia acontecer porque poderiam estar vivendo um momento único no Campeonato Brasileiro. Pela necessidade depois, venda do Wesley, venda do André, lesão do Ganso, saída dos jogadores, volta do Robinho, quebrou um pouco a sequência, mas não deixou de ser promissora, coletivo, antes das individualidades.

Falta jogo coletivo no futebol brasileiro?
Nos últimos dez anos valorizamos a individualidade e abrimos mão do coletivo das equipes. E queiramos ou não o reconhecimento das qualidades do futebol brasileiro ultimamente se dá mais da qualidade individual de cada um do que do coletivo. Foi o maior erro que tivemos e não percebemos. Tecnicamente vivemos um momento difícil, mas o futebol brasileiro pode dar uma reviravolta desde que todos os segmentos possam trabalhar um pouco mais, viver um pouco mais o futebol, não aquilo que estamos vendo nesse momento. A cada momento colhemos resultados ainda mais comprometedores que acabam tirando o crédito do nosso futebol.

Neste dia oito de julho se completa um ano do maior massacre esportivo brasileiro.  O que significou aquela partida para você?
Acabou a Copa do Mundo, veio aquela enxurrada de críticas. Todo mundo atirando pau de todos os lados, querendo transformar a figura do treinador naquilo que foi o Barbosa na Copa do Mundo de 50. O brasileiro é expert em direcionar a um segmento e apontar suas armas. O futebol brasileiro já vinha tendo dificuldades há muito tempo. É um resultado que mostra a realidade, mas um resultado atípico... Poderia acontecer com outra equipe... Todos nós ficamos muito machucados com aquilo, mas a questão é que o futebol brasileiro parou no tempo e no espaço, se questiona só treinadores, mas não estamos formando treinadores, comprometemos nossa formação de atletas também, a mídia de forma geral, só tem atacado em todos os aspectos. É muita gente atirando pedra, apagando luz e poucas pessoas acendendo luzes no futebol. Acho que as pessoas que fazem o futebol precisam ser mais ouvidas e valorizadas porque é através delas que tentaremos uma recuperação do nosso futebol. O futebol brasileiro vem doente há muito tempo, combalido há muito tempo. Nunca nos preocupamos com isso. Tanto que passamos 45 dias discutindo, na verdade falando mal da Seleção Brasileira, nem por isso paramos e buscamos encontrar caminhos. Para iniciar recuperação. Um ano da Copa do Mundo e continuamos da mesma forma. Os culpados são treinadores do futebol. Só os treinadores, 11º rodada do brasileiro, dez técnicos demitidos. Até que momento vai ser assim?

O Brasil está atrasado taticamente?
Não vejo isso de maneira nenhuma. Não vejo novidade nenhuma. Chegaram quatro argentinos na final da Copa América. Não deixo de reconhecer o valor de algum deles, mas não vejo diferença nenhuma na maneira com que eles jogam. A Argentina joga num 3-5-2 disfarçado. O Mascherano é um terceiro zagueiro. Em 2002 o Edmilson fez essa função e ganhamos a Copa. O Chile tem dois volantes como zagueiros, um trabalho de bola mais coletiva equipe entre as equipes sul-americanas. Não vi tanto mudança no âmbito sul-americano nem no futebol mundial.  Futebol brasileiro precisa ser trabalhado com seriedade. Não vai ter mudança a curto prazo porque não vimos mudança nenhuma. Vamos continuar apanhando. Vamos continuar discutindo rodada da quarta, rodada de domingo. É tudo que importa.

Você também critica muito essa cultura de imediatismo no futebol brasileiro.
Não é cultura do futebol brasileiro. É falta de cultura. Futebol brasileiro vai na contramão da história. Quando começou achar que o treinador é o principal problema das equipes, não sei que caminho vamos tomar. Tá na hora dos dirigente se profissionalizarem. Reconhecemos o valor do dirigente, mas esse dirigente, que vive pra torcida, não está fazendo bem pro futebol. Futebol brasileiro tem que ter um dono, pessoa responsável que acima de tudo  assimile o que se passa com o futebol brasileiro. Preferia ser um dirigente muito mais do que um treinador de futebol. A qualquer momento estaria justificando parte da minha incompetência em cima da figura de uma pessoa. Treinador tem nível de culpa, tem sim, mas jogadores tem que assumir um pouco mais, as pessoas que dirigem tem ser mais responsáveis.

E no futebol do Norte... Como você vê a situação em que vivemos: pouco ou nenhum público, times falidos ainda mais do que os do resto do País,  pouca ou nenhuma base. Você vê caminho?
Olha, infelizmente, não. Não vejo caminho saudável, assim como não vejo caminho saudável no todo pro futebol brasileiro, se não pararmos e tomarmos algumas decisões. Se continuamos mantendo mesma postura, não vejo. Fugindo do eixo RJ-SP-Minas, é natural que outros Estados tenham ainda mais dificuldades. Trabalhei no Sport, no Fortaleza, sei da dificuldade que enfrentamos.

Dentro das opções táticas que o Felipão tinha naquela semifinal, o que você faria pra tentar segurar aquela Alemanha?
Sinceramente, não seria distante daquilo que o Luis Felipe fez. Acho que você discute às vezes um nome ou outro, mas na convocação eu não vi discordância, foi a primeira vez que não vi discordância. Se os jogadores estavam lá é porque poderiam ser titulares. Se ele tomou a decisão, ele estaria respaldado pra fazê-lo. Não vejo a escalação como maior erro. Estamos errados na nossa concepção.

Como repetir um Santos de 2010?
Primeiro que a gente consiga encontrar um outro Neymar e um outro Ganso. É tempo de trabalho, não tem outra. Marcelo Oliveira teve dois anos no Cruzeiro, depois teve uma mudança brusca, e penalizaram o treinador. No São Paulo, Muricy teve quatro anos. Tite teve um bom tempo com o Corinthians. Só o trabalho de médio e longo prazo darão resultado. As pessoas se deixam levar pelo primeiro resultado negativo. Acham que o treinador brasileiro não sabe trabalhar. Você trabalhando com tempo e podendo escolher seus jogadores, treinador brasileiro também vai saber trabalhar e vai deixar seu legado de trabalho e reconhecimento. Precisamos voltar um pouco mais às origens, à essência. Estamos desaprendendo a jogar bola.

Você assumiria a Seleção Brasileira?
Não, não falo sobre hipótese. Ela está muito bem dirigida.

Você acha que precisa de técnico estrangeiro na Seleção? Tipo o Jorge Sampaoli (técnico da seleção do Chile)?
Se nós continuarmos com esse pensamento nosso, pode colocar três técnicos estrangeiros: o Sampaoli, o Guardiola, mas se continuar com esse com esse imediatismo não vamos a lugar nenhum, os três serão demitidos em um mês!

Como está sua situação no mercado brasileiro: você tem sido sondado por algum time?
Eu conversei com alguns clubes, estou tendo um problema particular com a minha esposa, e tentando resolver essa situação. Estou finalizando essa condição, e espero voltar o mais rápido possível.


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