Sábado, 30 de Maio de 2020
EXCLUSIVA

No retorno ao 3B, Marcelo 'Tchelo' fala sobre carreira e expectativas para 2020

Ítalo-brasileiro foi o primeiro técnico da história do 3B Sport. Em 2020, o comandante tem a missão de conseguir o acesso à elite



WhatsApp_Image_2020-03-01_at_22.01.06_77D9E090-D608-413A-AE2F-11D34DA76140.jpeg Foto: Sandro Pereira/Freelancer
02/03/2020 às 09:01

Nascido na Itália e radicado em São Paulo, Marcelo Frigerio, o ‘Tchelo’, se tornou um dos maiores nomes do futebol feminino. Ao lado da ex-seleção brasileira Emilly Lima, o treinador é o único profissional com licença PRO, concedida pela Confederação Brasileira de Futebol (CBF), no futebol feminino. Com mais de 20 anos de carreira e um extenso currículo, o técnico já esteve em Copa do Mundo e experimentou até o futebol chinês.

Neste ano, o ítalo-brasileiro retorna ao 3B Sport para o Brasileiro Série A2, após ser o primeiro comandante da história do clube, em 2017. A Fera da Amazônia terminou aquela temporada invicta, mas ficou com o vice-campeonato estadual por perder pontos no Tribunal de Justiça Desportiva do Amazonas (TJD–AM) por conta de irregularidades no registro de algumas jogadoras.




Treinador já trabalha com o grupo visando a Série A2. Foto: Sandro Pereira/Freelancer

O retorno a Manaus marcou um encontro entre o CRAQUE e o treinador para um papo exclusivo. Na conversa, Marcelo Tchelo falou sobre o começo da carreira, ainda no futsal, as experiências de treinar a Seleção Feminina da Guiné Equatorial, o período no futebol chinês, as expectativas para o ano do 3B Sport e os detalhes da segunda passagem pela capital amazonense. A banda de tambaqui já ganhou fáceis elogios...

Você é um treinador que tem dupla nacionalidade. De onde vem essa ligação com a Itália? Você nasceu lá?

Meu pai é italiano, assim como minha avó. Acabei nascendo em Milão, mas com um ano de vida já vim para São Paulo, no Brasil, com familiares. Depois, em 2005, voltei ao país para treinar um time feminino da primeira divisão, o Atletico Oristano. Passei três meses trabalhando na região da Sardenha (ilha italiana, conhecida como ‘Ilha Mágica do Mediterrâneo’ pela localização e a beleza natural).

Você se tornou um dos principais nomes do futebol feminino brasileiro. Os momentos que chamam mais atenção são as passagens pela seleção feminina da Guiné Equatorial e o período no futebol chinês. Como foram essas experiências?

As duas experiências foram um tanto quanto difíceis. Na China, muito mais. Na Guiné, o futebol feminino é mais importante do que o masculino. Os estádios lotavam mais nos    nossos jogos, era sempre casa cheia. Andávamos na rua e éramos reconhecidos. Sempre passava nas ‘blitz’ por ser como uma autoridade no país. Mas na Seleção em si eu tive muito trabalho, de todos os tipos, fora e dentro de campo. Penso em escrever um livro. 

Uma dessas situações loucas foi a gente não participar das Olimpíadas de Londres, em 2012. Classifiquei no Pré-olímpico, mas a federação esqueceu de fazer uma documentação de naturalização de uma atleta nossa. Ela tinha jogado pelo Sub-20 da Espanha, porque a mãe era espanhola. Acabou que a jogadora foi punida, não pode jogar a Copa, e a equipe foi punida não podendo jogar as Olimpíadas. Outra situação foi o caso escandaloso da descoberta de que a seleção tinha dois homens no time. Pedi o teste e constatei.


'Tchelo' viveu passagem negativa no futebol chinês. Foto: Acervo pessoal

Já na China eu tive dificuldades de comunicação mesmo. Me sentia em regime fechado. Só ia de casa para o treino. Além disso, sofri com a alimentação também. Foi bem complicado. Hoje eu só voltaria se levasse junto comigo uma comissão técnica.

Você já treinou alguns grandes clubes do país, como São Paulo e Palmeiras, este, em quatro oportunidades. Isso por volta dos anos 2000. O que mudou no futebol feminino de lá para cá?

Futebol feminino vem quebrando barreiras. Chegaram a ter campeonatos organizados no final dos anos 90, com verbas e transmissão de TV, o que também gerava cotas. Mas hoje em dia já está mais consolidado, é mais fácil até para conseguir patrocínios. No início, era recriminado mesmo. O apoio da Caixa, em 2014, durante o governo Dilma, foi muito importante, desenvolveu o Campeonato Brasileiro. E essa nova regra, que obriga os times de Série A a terem equipes femininas, pode acabar a qualquer momento. Se acharem brecha, os clubes vão derrubar, tenho certeza. Gera custo para eles.

Falando mais sobre o 3B, como é a sua ligação com o clube? Você foi o primeiro treinador e, curiosamente, ainda não perdeu sob o comando da Fera. O retorno pode ser ainda mais especial com o Brasileiro Série A2?

Na primeira passagem, perdemos o Amazonense não por minha causa. Acabou havendo um problema de documentação. Não perdemos nenhum jogo, tiramos a invencibilidade do Iranduba. Foi um campeonato especial. Agora, tenho o desejo de subir de divisão. Acredito na estrutura do clube e tenho esse carinho. Quero ser marcante agora também.  

Entrando no campo, quais são as expectativas para a Série A2? Na apresentação do elenco você chegou a dizer que classificar na primeira fase era obrigação.

É um campeonato traiçoeiro, principalmente porque depois da primeira fase, os confrontos são sorteados. Falei para elas (jogadoras) que ainda não subimos. Vamos ter que trabalhar para dar cada passo. Primeiro deles é classificar em primeiro. Depois, vamos de fase em fase. Objetivo é estar entre os quatro melhores. O título é outra situação. 


Treinador é um dos poucos a possuir a lincença PRO no futebol feminino. Foto: Acervo pessoal

Você e Emily Lima são os únicos treinadores que possuem a licença PRO no futebol feminino, a principal categoria de especialização da modalidade. Qual é o significado de ter essa qualificação?

Eu tendo, os outros vão querer ter também. E isso gera um processo de qualificação da modalidade, onde todos ganham. É importante porque quando eu pegar um time, as jogadoras já vão ter passados por outro treinador que já deu a base tática. Não vou precisar ensinar tudo. 

E conquistei essa qualificação em um turma muito boa, que tinha Rogério Ceni, Mano Menezes, Tite. Foi muito importante.

Por fim, como tem sido o dia a dia em Manaus?

Sou muito bem tratado pelo clube como um todo. Moro em um local legal, em frente a um shopping. Mas acaba sendo meio solitário, faz parte da vida de treinador. Viajo muito e acabo perdendo o vínculo com a família. Moro longe da minha namorada, por exemplo. Antes do início do campeonato vou conseguir da um ‘pulo’ em São Paulo para encontrá-la. Acaba sendo duro para ela. A parte da distância é que complica. Mas acabo fazendo uns passeios para relaxar. Quero ir naqueles flutuantes também, ainda não tive a oportunidade.

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Repórter do Craque
Jornalista em formação na Universidade Federal do Amazonas (Ufam) e repórter do caderno de esportes Craque, de A Crítica. Manauara fã da informação e que procura aproximar o leitor de histórias – do futebol ao badminton.

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