Domingo, 22 de Setembro de 2019
Craque

‘Nunca estive fora do Flamengo’, diz o ex-jogador Zico

Maior ídolo da história do Flamengo comemora neste domingo 60 anos. Confira a entrevista concedida à ACRITICA pelo ex-jogador



1.jpg Zico, ex-jogador de futebol
03/03/2013 às 15:11

Qual a sensação de chegar aos 60 anos e ser amado cada dia mais como o maior ídolo da nação rubro-negra?

E muito mais do que eu podia imaginar para a minha vida, por isso agradeço sempre a Deus. Quando era menino, meu sonho era apenas jogar no Flamengo. Mirava no meu ídolo Dida. E consegui vestir a camisa que ele usou, consegui ser ídolo da torcida. Me sinto realizado, orgulhoso e feliz com esse carinho que recebo o tempo todo dos torcedores.

O saudoso radialista Celso Garcia dizia, todos os dias em uma rádio carioca, que se sentia o flamenguista mais realizado do mundo por tê-lo levado para o Flamengo e que essa era sua missão terrena, como o senhor o conheceu e quais as lembranças do Celso e dessa época?

O conheci pessoalmente depois do jogo que ele foi me ver no River. Eu já o conhecia de nome da Radio Globo. Fizemos depois uma grande amizade e ele passou a frequentar minha casa quase todos os domingos pela manha e passou a ser chamado pelo pai de filho mais velho. Era um cara muito simples e flamenguista de coração.

Por ter feito um trabalho físico intenso para poder se profissionalizar, como o senhor vê os jogadores que nasceram com talento e porte físico privilegiado desperdiçarem a carreira com farras?

Acho que cada um tem o direito de fazer o que quiser em seus momentos de folga, desde que isso não prejudique o trabalho. Vale para qualquer profissão. Prefiro não julgar, mas sempre soube que a escolha pelo esporte ia me exigir que abrisse mão de muitas coisas que gostava de fazer. É preciso ter disciplina, entender que o futebol é um esporte coletivo e todos precisam dar o seu melhor. Para isso, tem que ter uma boa alimentação, descansar, cuidar do corpo e da mente. Não tem jeito.

Sua história é muito parecida com a do Messi, pois foi fruto de um trabalho de reforço muscular bancado pelo clube. Acredita que, hoje, algum time do Brasil faria o mesmo investimento que o Barcelona fez com o Messi e o Flamengo como o senhor? Quem foi o responsável em acreditar no seu potencial?

É interessante que no futebol atual eu talvez tivesse dificuldade também para entrar por causa do meu porte físico. Acho que há outros casos no Brasil e no mundo, talvez sejamos (ele e Messi) os mais conhecidos. Foram várias pessoas que na época trabalhavam no Flamengo que acreditaram no meu potencial.

É mais difícil ser ídolo ou se manter ídolo após tanto tempo?

Confesso que nunca parei para pensar nisso. Nunca me preocupei em ser uma referencia, mas entendi no momento que isso aconteceu que a minha missão passava a ser maior. Liderar, ser a referencia, aumenta ainda mais a responsabilidade. E nunca fugi das responsabilidades e desafios que passaram pelo meu caminho.

O senhor é considerado por muitos como o maior jogador brasileiro na era pós-Pelé, esse reconhecimento também vêem das crianças e jovens que não o viram jogar?

Pois é... Tenho consciência de que para os mais jovens, muitos deles, as referências são outras. Entendo perfeitamente isso e fico muito feliz com o carinho que crianças e jovens, que não me acompanharam, sentem por mim. Significa que o pai deles atuou aí. (risos)

O senhor teve uma rápida passagem pelo Flamengo no ano passado, quando saiu de forma conturbada da diretoria, após uma traição da cúpula administrativa do clube, tendo como um dos motivos a aquisição do jogador Rafinha. Passado um ano, Rafinha é a grande esperança de um futuro melhor para o time, provando quem estava com razão. Ficou alguma mágoa com a ex-presidente Patrícia Amorim? O senhor ainda processa o Capitão Léo (ex-presidente do conselho fiscal do clube)?

Não tenho mágoa e prefiro nem falar sobre esse assunto, que para mim está superado. O importante é que algumas pessoas que nunca fizeram nada pelo clube estão saindo e espero que a atual gestão siga esse trabalho para colocar o clube de volta ao trilho.

Ainda pensa em trabalhar no Flamengo? Ser presidente, por exemplo? Ou a situação complicada por qual passa seu amigo Roberto Dinamite, no Vasco, te faz pensar que é melhor ficar marcado como o maior ídolo do clube?

Nunca quis ser presidente, nem penso nisso agora. Acho que posso e, certamente, ainda vou ajudar muito o Flamengo estando onde estou. Sempre ajudei e vou continuar fazendo isso, passando a minha experiência. Não preciso estar necessariamente dentro, afinal, a verdade é que nunca estive fora do Flamengo.

Muitos jogadores e dirigentes aproveitam a empatia com o público para entrar na política. O senhor, na condição de ídolo maior do Flamengo, seria eleito facilmente para qualquer cargo. Por que jamais tentou seguir a carreira política? Sua experiência como Secretário dos Esportes foi fundamental para essa escolha?

Não acho a política um bom caminho para mim, pude confirmar isso quando passei pelo Governo (em 1990). Acho que temos bons profissionais nisso, mas eu não tenho talento para lidar com a política nesse nível. Da mesma forma, prefiro colaborar com a sociedade em projetos que acredito, que atuem na educação, na formação, como a Escola Zico 10. Na verdade, eu não deixo de estar fazendo política, mas do meu jeito.

Como avalia o trabalho parlamentar de Bebeto e Romário?

Olha, prefiro não analisar isso. Até porque não acompanho de perto. São duas pessoas inteligentes que seguiram por esse caminho. Pela vivência das dificuldades, ambos têm plenas condições de realizar coisas boas para a sociedade.

Não ter vencido uma Copa do Mundo ainda te atormenta?

Claro que todo jogador gostaria de ganhar uma Copa do Mundo e não seria diferente comigo, a Seleção Brasileira é especial. Mas acho que sou um privilegiado. Sempre tive tanto carinho da torcida do Flamengo, até mesmo de torcedores dos clubes rivais, que esse sentimento (de não ter sido campeão do mundo pelo Brasil) ficou menor. E pelo Flamengo consegui fazer parte de uma geração que conquistou tudo o que era possível.

A frustração da Copa de 1982, na Espanha, foi maior do que a Copa de 1986, no México?

Sem duvida que nosso time em 1982 estava muito melhor preparado do que o de 1986. Eu mesmo não tinha condições físicas ideais para a Copa de 86.

O momento daquela cobrança de pênalti contra a França, na Copa do Mundo de 1986, no México, volta e meia retorna em sua memória?

Sinceramente, não. Muitas coisas boas aconteceram na minha vida, graças a Deus as imagens boas são em maior numero e eu penso mais nelas.

Qual foi o melhor técnico que o senhor teve na carreira?

Tele Santana (que comandou a Seleção Brasileira de 1982 e 1986, e também o comandou no Flamengo).

Como o senhor vê o andamento e os gastos das obras para a Copa do Mundo no Brasil do ano que vem?

Mais uma vez é um assunto que eu não entendo bem e não acompanho de perto. Espero que tudo esteja sendo feito corretamente e que tenhamos pessoas fiscalizando para que o dinheiro público seja usado devidamente.

E dentro de campo, o Brasil tem chance de conquistar o hexacampeonato?

Não resta duvida. O Brasil tem uma geração com jogadores talentosos e, jogando em casa, entra como favorito. Felipão vai precisar trabalhar bastante, mas qualidade não falta para sermos campeões.

O senhor é um ídolo mundial com passagens pelo futebol de vários países e é idolatrado em todos eles, o que o Brasil poderia aprender com estes países?

Rodando pelo mundo percebi que sempre e possível aprender alguma coisa. A organização dos japoneses e algo que eles tem de muito bom, por exemplo. Mas há muitas dificuldades por lá também.

O senhor já atuou em Manaus, quais lembranças guarda da cidade e daqueles jogos?

Foi há muito tempo atrás e as lembranças maiores são da cidade ter a zona franca. Dos jogos não me lembro muito.

Não é uma ironia o fato do maior símbolo do Flamengo ser filho de um português?

Um português que era torcedor do Flamengo. (risos)

Como foi vestir a camisa do Vasco na despedida do Roberto Dinamite?

Acima de qualquer coisa esta amizade. Não era um jogo oficial, mas uma homenagem a um amigo. Resumo assim.

Qual presente o senhor gostaria de ganhar no seu aniversário?

Gostaria muito de um joelho esquerdo novo.... (risos)


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