Sábado, 14 de Dezembro de 2019
REPRESENTATIVIDADE

Sandro Viana, medalhista olímpico, se tornou símbolo da luta negra no Estado

Sandro Viana faz do seu enorme sucesso um meio para dialogar sobre o racismo no Brasil



Sandr_o_010DFB33-487E-44B2-94F4-1CCCAB80840D.JPG Foto: Sandro Pereira
20/11/2019 às 16:44

 “Não é só minha vitória, é de uma família, de uma geração e sobretudo de um povo. O dia da consciência negra é uma marcação de que nossa luta não chegou ao fim. Nossa luta continua”. A fala forte do amazonense Sandro Viana, medalhista olímpico dos jogos em Pequim 2008, faz ressoar a grande importância da presente data. A celebração ocorrida hoje, relembra a necessidade  do permanente estado de alerta sobre a exclusão e discriminação do negro em um país com raízes africanas. Certamente o maior atleta negro do Estado, o velocista fez de sua enorme conquista um ‘mastro’ para levantar a bandeira da representatividade.

 O esporte, como um todo, está repleto de grandes atletas negros, mas isso não significa que a jornada para o sucesso tenha sido tranquila ou confortável. Pelo contrário, ilustra bem os desafios que pessoas negras precisam superar para obter reconhecimento em outras áreas da sociedade, deixando o uso de seu corpo como principal alternativa de êxito. É o que ilustra Sandro.



“Das 500 maiores empresas do Brasil, somente 5% possuem suas lideranças compostas por negros. Dentro desse número, menos de 1% são mulheres negras. Praticamente nada. São números reais, são concretos e inquestionáveis. O racismo não só existe, como ele é praticado diariamente”, disse Sandro sobre a escassez de negros em grandes cargos empresariais. 

A democracia racial, em tese está presente no Brasil, com a ilusão de que brancos e negros são de fato tratados da mesma maneira, com oportunidades de vida iguais. A tal da meritocracia, que também pode ser estendida à diversos campos sociais. Hoje, aposentado das pistas, o manauara conta sobre o racismo que viveu e sentiu, verdadeiramente, na pele. 


 “Quando me tornei o homem mais rápido do Brasil, na prova dos 100m rasos, recebi críticas dos repórteres locais do estado em que eu estava, que eu não deveria estar ali comemorando com uma bandeira dos Estados Unidos. O que mostra o quanto nós somos invisíveis para algumas pessoas. Naquele momento eu tive de ser ajudado por uma outra pessoa que explicou que na verdade era a bandeira do meu estado, o Amazonas. Isso há mais de uma década atrás. Hoje, através do meu empenho, eu sou respeitado. Impondo minha cultura e não baixando a cabeça para as coisas erradas que eu vi no caminho” revelou o medalhista olímpico. 

Apesar da grande capacidade de Sandro em compreender e desenvolver de fato, uma consciência a respeito do movimento negro e da luta racial, o atleta sabe que não são todos que entendem o racismo que sofrem, e, justamente para conscientizar outros, desenvolveu um projeto com palestras para conversar sobre o tema.

“Em minhas andanças pelo Brasil e no mundo,  consegui identificar que eu havia conquistado um mecanismo que me ajudava a superar esses obstáculos, mas que era algo que outras pessoas sofriam e não sabiam lidar. Algumas até acabam sucumbindo às práticas racistas. Foi aí que percebi que precisava fazer alguma coisa”, afirmou sobre sua importante iniciativa de conversar com diversas camadas da sociedade a respeito do racismo e como desvencilhar-se dele.

Carregando a medalha de bronze no pescoço, Sandro durante suas palestras, não esquece das pessoas que precisaram batalhar antes mesmo dele nascer para  que a sua geração tivesse esperança de dias melhores, e faz questão de contar a história de sua família.

“Estou trazendo uma história que é arraigada tanto na cultura negra, quanto no Amazonas. Não conto só a minha história, mas da minha mãe, dos meus avós e dos meus bisavós para que eu pudesse chegar nessa condição hoje. O que veio antes de mim é tão importante quanto o momento em que estamos”, afirmou sobre um dos conteúdos centrais da palestra, a luta de geração em geração.

Nesta semana, o manauara fez cinco palestras em dois dias, numa espécie de ‘maratona’ da conscientização.  Ele participou do programa “Respeito dá o Tom”, realizado pela Águas de Manaus aos seus colaboradores que se autodeclararem pretos e pardos, voltado para igualdade e diversidade racial.

Para o diretor-presidente da Águas de Manaus, Renato Medicis, o debate pode ajudar os colaboradores a enxergar a questão de uma maneira diferente. “Precisamos refletir diariamente sobre a questão racial e pensar no que queremos construir para o futuro do País. No Brasil, ainda temos poucos executivos negros. Fora do País, esse número já é mais equilibrado. Promovendo ações como o Respeito dá o Tom, vamos conseguir essa mudança”, disse o diretor-presidente.
 

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Repórter de A CRÍTICA

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