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O Líder

Capitão Dinamite fala sobre os bastidores do título do Fast

O volante de 31 anos revela os momentos difíceis durante a caminha rumo à quebra do incômodo jejum de 45 anos sem título do Barezão do Tricolor de Aço. 30/10/2016 às 18:27
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Após quase meio século, o Fast volta a erguer a taça do Estadual pelas mãos de Roberto Dinamite (Foto: Clóvis Miranda)
Denir Simplício Manaus (AM)

“O que você faz em vida está gravado na eternidade”. A máxima dita por Carlos Roberto da Silva, ou melhor, Roberto Dinamite, é de quem sabe que gravou seu nome para sempre na história do futebol amazonense.

Com sangue de líder correndo nas veias, o capitão do Fast Clube se perpetuou ao levantar a taça do histórico 100º Campeonato Amazonense de futebol. Mas que isso, entrou para a eternidade ao erguer a taça do Estadual para o Tricolor de Aço após 45 anos de jejum.

“hoje posso falar que estou de alma lavada por realizar o sonho do torcedor. Saber que está gravado nosso nome na história, o meu nome em si porque fui o capitão e levantou a taça depois de 45 anos. Acho que isso não tem preço, isso não tem nada que vá tirar”, disse o Capitão.

Aos 31 anos, o filho do seu Ocival - responsável pelo nome e apelido ‘Dinamite’ - foi um dos principais pilares do ‘operário’ time do técnico João Carlos Cavalo. Ao lado do treinador, Dinamite ajudou a moldar o time campeão. “Tive uma experiência com o professor Cavalo e desde então mudei minha postura, quando ele veio e me disse: ‘Dinamite, aqui as pessoas te veem muito mais que um jogador, eles te veem como um líder, como capitão, como exemplo e espelho de vida profissional e de vida pessoal. Então eu preciso do seu algo mais’. E foi aí que acho que as coisas começaram a acontecer realmente dentro do Fast, com a união, minha liderança, juntando com a do professor Cavalo no extra-campo e graças a Deus esse grupo deu liga e conseguimos o objetivo tão almejado para todos que foi o título”, revelou Dinamite, que é o primeiro capitão amazonense a erguer a taça desde 2008, quando o goleiro Weber levantou o trofeu pelo Holanda.

O poder do perdão

Antes de uma grande decisão existe a tensão pré-jogo e após o título vem a euforia da conquista. Mas poucos conhecem realmente os bastidores de um elenco campeão. Suas dificuldades na caminha até chegar ao pódio, brigas, crises internas, traumas pessoais.

Dinamite revela uma passagem que marcou o elenco fastiano, uniu o Tricolor e o moldou em aço rumo a quebra do jejum.

“Uma discussão que aconteceu dentro do vestiário entre o professor João e o Andrezinho, lateral-direito. São coisas do futebol que acontecem...  só que foi uma discussão um pouco pesada. Depois, na apresentação, eu e o professor João Carlos Cavalo conversando, usei da minha liderança no grupo e disse que ele era nosso líder maior, tanto dentro de campo como fora dele. Pedi naquele momento  pra que ele reunisse o grupo e pedisse perdão, que com aquele gesto ele ganharia o grupo. A partir do seu maior líder, que era o professor João Carlos Cavalo, pedir desculpa perante a gente... acho que foi um momento muito marcante e naquele instante eu disse: se der liga, nosso time vai ser campeão e foi o que aconteceu”, lembrou o capitão do Fast.

Leia outros trechos da entevista exclusiva com o capitão do Fast:

Qual a sensação de erguer o troféu e voltar a ser campeão amazonense depois de dez anos?

A sensação depois de dez anos é de dever cumprido, uma emoção muito grande pra mim, porque em 2006 eu era um jovem promissor do futebol amazonense pelo São Raimundo. E depois de dez anos eu conseguir sentir o sabor do que é ser uma referência dentro do Estado e levantar o troféu para um clube que aguardava esse título depois de 45 anos, seus diretores, a própria torcida ansiosa pra esse ano ter essa oportunidade é só agradecer a Deus e falar que sou um privilegiado dentro do futebol por viver esse momento tão importante do clube.

Dinamite, você já parou para avaliar o tamanho do seu feito junto ao elenco do Fast?

Às vezes a gente não tem essa noção e a partir do momento que você começa a ter experiências. Eu, pelo menos não tinha essa noção até que um belo dia, depois do jogo contra o Manaus na nossa reapresentação, tive uma experiência com o professor João Carlos Cavalo. E foi nesse dia que eu caí na real e disse: ‘Eu sou um líder e preciso do algo mais a mostrar a esses jovens e até aos que são mais experientes pra gente conseguir algo melhor lá na frente’. Eu tinha de mudar minha atitude, tenho de mudar minha postura e o professor falou pra mim: ‘Dinamite, aqui as pessoas te vêem muito mais que um jogador, eles te vêem como um líder, como capitão, como exemplo e como espelho de vida profissional e de vida pessoal. Então eu preciso do seu algo mais’. E foi aí que acho que as coisas começaram a acontecer realmente dentro do Fast com a união, minha liderança, juntando com a do professor Cavalo no extra-campo e graças a Deus esse grupo deu liga e conseguimos o objetivo tão almejado para todos que foi o título.

Pode nos contar um momento marcante nos bastidores do Fast que marcou o elenco?

O momento que marcou foi uma discussão que aconteceu dentro do vestiário entre o professor João e o Andrezinho, lateral-direito. São coisas do futebol que acontecem dentro do vestiário, uma discussão entre os dois, só que foi uma discussão um pouco pesada e depois, na apresentação, eu e o professor João Carlos Cavalo conversando, disse que eu era um líder dentro de campo e ele era nosso líder maior, tanto dentro de campo como fora dele. E que eu pedia naquele momento ali pra que ele reunisse o grupo e pedisse perdão. Ele como líder maior, pedindo perdão perante os seus atletas, perante os seus comandados, mesmo ele tendo razão, acho que ele tendo aquela atitude disse que ele ganharia o grupo e isso foi o que aconteceu. Então, acho que foi nesse momento que o nosso grupo se fechou. A partir do seu maior líder, que era o professor João Carlos Cavalo, pedir a desculpa perante a gente, acho que foi um momento muito marcante e naquele instante eu disse: se der liga, nosso time vai ser campeão e foi o que aconteceu.

Qual o jogo chave que você considera como a guinada em direção ao título de 2016?

Na verdade, foram dois jogos: a decisão – mesmo tendo uma convicção muito grande de que nós seríamos campeões pela nossa campanha. E uma coisa que sempre falava desde o começo que o futebol são números e os números mostravam que nós éramos os grandes favoritos e o time a levar o título porque a gente já tinha mostrado tudo isso no decorrer do campeonato. Acho que o jogo contra o São Raimundo, que vencemos por 3 a 0, foi uma das melhores partidas que a nossa equipe fez dentro da Arena. Então, acho que esse jogo foi quando nosso time se superou e mostrou tudo aquilo ao que veio e que seria um grande favorito ao título.

O que elenco fazia para relaxar entre uma partida e outra. Haviam momentos de descontração?

No nosso ‘rachão’. Nossos jogos entre nós mesmos, que envolvia nosso roupeiro, nosso massagista, alguns diretores, o próprio professor João, aquele momento ali era quando nós realmente nos divertíamos da melhor forma possível. Ali tirávamos a tensão de um pré-jogo e muitas das vezes a gente comentava, que se a gente entrar no jogo com a mesma vontade que a gente entrar no rachão a gente não perde, vamos sair daqui com os três pontos. Então, o momento mais esperado da semana era na véspera do jogo, que nós sabíamos que ia ter o rachão.

Você marcou seu nome na história do clube. Já caiu a ficha sobre a importânia da conquista da taça de 2016?

Já vivi muito esse tipo de experiência quando estive fora, mas nós somos carentes no nosso Estado de ídolos, de referências, de grandes nomes, e muitas das vezes não cai a ficha. Ontem mesmo eu estava num restaurante e chegou um torcedor e me disse: ‘você é o Roberto Dinamite. Você entrou pra história. Por favor, estou com uma bandeira no meu carro e quero que você assine’. Acho que isso aí é ninguém tira de você, é uma conquista pessoal, apesar de o nosso esporte é coletivo. Mas quando acontecem essas situações, é quando você se sente importante, é quando nós conseguimos realizar o sonho dos outros, porque você trabalhar com seu próprio sonho é muito fácil, mas você trabalhar com o sonho dos outros ele se torna muito, mas muito mais difícil. E hoje eu posso falar que estou de alma lavada por realizar um sonho de torcedor depois de 45 anos atrás ou de torcedores de 60 anos atrás e sabe que está gravado nosso nome na história, o meu nome em si porque eu fui o capitão e levantei essa taça depois de 45 anos eu acho que isso aí não tem preço, isso não tem nada que vai tirar. Porque é como se diz: ‘o que você faz em vida está gravado na eternidade’, e eu estou muito feliz por isso.

Você foi mais que um capitão e líder do Fast, também foi amigo dos atletas. Lembra de alguma passagem em que teve de ser mais amigo do líder no elenco do Fast?

No futebol isso é muito difícil acontecer, acho que a partir do momento que você trabalha com pessoas, com um grupo, é muito difícil você dominá-los porque cada um tem um pensamento diferente, uma cultura diferente. Mas o ponto que sempre procurei passar pra eles é que eles estavam ali pelo algo melhor pra nossa família, para um algo melhor pessoal. Tive uma experiência com Charles de que ele não estava agüentando mais e que ele não viu os filhos dele crescer. Naquele ponto ali eu até entendi porque vivi muito tempo fora e a partir do momento que começa a se tratar de filhos e de família eu sei o quanto dói, o quanto machuca. E a única coisa que procurei falar pra ele é que ele não ficasse por mim, mas que Le ficasse pela própria família dele que a falta tanto estava machucando o coração dele. Que ele usasse aquele motivo de família para dar um algo melhor para a família dele lá na frente. Que ele não chegasse lá de qualquer forma e sim com o título, com uma esperança melhor de vida pro filho dele que está crescendo, pra filha dele e pra própria esposa. Acho que todas as vezes que abordava os jogadores era pra falar dessa forma: cara você está por causa da tua família. Se você está com raiva de mim, mas não fica com raiva da tua família.  E foi dessa forma que nós fomos conduzindo eles e acho que a foi essencial a sinceridade acima de tudo. Quando nós não gostávamos de certas atitudes nós nos reuníamos e falávamos: não faça isso! Isso não é legal pra você e nem é legal para o grupo. E se continuar dessa forma nós vamos tomar atitudes. E essa sinceridade entre nós foi o que nos deu esse título, que nos motivou, que nos deu forças E aí nós saímos de um grupo para uma equipe e hoje uma equipe vitoriosa, uma equipe que entrou pra história, uma equipe que hoje pode falar: hoje nós somos amigos. Por um pedido, por um abraço, por um gesto, acho que isso aí foi o que vale a pena.

Qual o futuro do Roberto Dinamite a partir de agora?

Para falar a verdade, há seis meses, quando voltei do Rio Branco-AC e começamos a montar o time do Fast, eu falei ao Rodrigo Novaes (diretor de futebol) ao Cláudio Nobre (vice-presidente) que esse seria meu último ano como atleta profissional. Só que antes de parar eu queria entrar pra história do futebol amazonense. Como? Eu não sabia. Então me preparei há seis para ser campeão. Contratei uma equipe de multidisciplinar, com personal, com fisioterapeuta, com massoterapeuta, pra cuidar de mim, pra chegar no Campeonato Amazonense pronto. Acho que plantei isso. O meu futuro, acho que não sei. Disse pro Cláudio: se eu for campeão, eu paro de jogar, e seu eu não for campeão também paro. Mas sei que vou ser campeão. Disse pra ele que se não fosse campeão eu pararia de jogar e mudaria meu nome e acho que as palavras têm poder. Trabalhei demais. Ainda não conversei com ninguém do Fast sobre o meu futuro. No momento quero pensar, quero conversar com meu pai o que vou fazer daqui a dois meses, e o meu pai é uma pessoa muito importante pra mim. Foi o cara que sempre esteve próximo de mim. Mas se for pra eu voltar ao Fast e dar algo não só ao Fast, mas é desejo meu dar uma estrutura melhor, um pensamento melhor dentro do esporte e do futebol amazonense. É como o professo Cavalo falou depois da decisão: isso aqui não é que estamos entrando pra história, estamos começando a nossa história. E se for pra começar uma nova história eu também quero estar no meio, como líder ou ajudando de alguma forma para que o nosso esporte, não falo apenas o futebol amazonense, falo do esporte num geral, que o nosso Estado tanto carece, e se for pra estar envolvido nisso, quero ser o carro chefe de mais uma história.

Você é um atleta muito centrado, já planejou o que vai fazer quando pendurar as chuteiras?

Vivo no futebol desde meus 13 anos e sair é muito difícil. Porque sempre falo pras pessoas que futebol é um vício. O esporte no geral ele é um vício. Muitas das vezes as coisas estão difíceis, mas você diz não, vamos por aqui que vai melhorar. O teu sonho acaba te alimentando todos os dias. Creio eu que no dia que parar de jogar, vou continuar no meio do esporte. Vou procurar me especializar pra ser um treinador. Isso é meu pensamento imediato. Claro, creio eu que isso não vá acontecer, pretendo começar um legado maior pro nosso futebol. Quem sabe agora com o Fast com calendário cheio, que eles tanto sonharam com isso, espero que eles montem uma estrutura correta para quem sabe daqui a sete meses a gente já possa ter um acesso. Não só o torcedor fastiano espera por isso, mas hoje é o torcedor amazonense.

Antes de levantar a taça, chegou a imaginar o momento, como levantaria o tão sonhado trofeu da quebra do jejum?

Para falar a verdade, tinha a convicção muito grande de que nós iríamos ser campeões. Além dos números mostrarem isso dentro dos jogos, era o nosso dia a dia. Já fui campeão em outros locais e todas as vezes que fui campeão o nosso vestiário sempre foi saudável. E era o que o nosso time era. Nosso vestiário era muito saudável, nosso dia a dia era muito saudável. Tinha essa convicção de que nós só não seriamos campeões se Deus não permitisse... que não fosse da vontade Dele. Passei três semanas muito ansioso e um cara de 31 anos ansioso como um menino de 17 anos, como na época que fui campeão com o São Raimundo (na Copa Integração com o Sul América). Com aquela ansiedade. Meu Deus, não pode ser agora. Eu e o Fast já vínhamos de uma frustração do ano passado que a gente estava com a faca e o queijo na mão e acabamos sendo eliminados pelo próprio Princesa. Mas tudo que Deus faz é bem feito e em certos momentos pensei em como iria levantar a taça. Pela surpresa eu acabei recebendo duas taças e naquele momento eu posso falar que foi um alívio. Um alívio e ao mesmo tempo muita emoção. Um sentimento de alma lavada e um sentimento de que tudo valeu a apena. Os sofrimentos, os sacrifícios, as superações, os sonhos, a minha família, as pessoas que cuidaram de mim nesses seis meses, as pessoas que estiveram próximas de mim. Naquele momento passa um filme, mas acima de tudo é de que tudo vale a pena e que naquele momento eu sabia que estava entrando na história. Na história do Fast e na história do futebol amazonense. Esse título não foi só esperado pela torcida e pelos jogadores do Fast, mas foi esperado por muita gente como o pessoal da imprensa, pelos próprios torcedores de outras equipes. Acho que esse título foi um pouco coletivo e penso que todo mundo ficou feliz.

 

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