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O homem que mudou o jogo': presidente do Flamengo Eduardo Bandeira de Mello em exclusiva para o CRAQUE

Responsável por um modelo de gestão que tem mudado a histórica cultura administrativa do maior clube do Brasil, dirigente fala com exclusividade ao craque: 'Vamos fazer escola'  02/08/2015 às 20:29
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Eduardo Bandeira de Mello tem feito gestão 'revolucionária' no Flamengo
Felipe de Paula Manaus (AM)

Ao assumir o Flamengo em 2013, o presidente Eduardo Bandeira de Mello trazia consigo um currículo invejável como executivo do Bando Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), além do status de reconhecido frequentador das arquibancadas rubronegras por mais de 40 anos. Mas o que talvez não pudesse imaginar nem o conselho deliberativo do clube, ao qual ele pertenceu por mais de três décadas, era a ‘revolução’ que o administrador de 61 anos daria início em pouco tempo e que se constituiria no melhor exemplo de gestão dos clubes brasileiros que se tem notícia nos últimos anos.

Ao aposentar-se do BNDES, Bandeira de Mello se dedicou inteiramente ao clube e deu início a um processo de reorganização das contas rubronegras, pautando-se pelos princípios de austeridade financeira, responsabilidade fiscal, planejamento a longo prazo e transparência. No início de 2014, fez um “golaço” ao estimular a aprovação - que veio por unanimidade - de medida que trata a irresponsabilide financeira dos recursos do clube com sanções ao patrimônio privado dos gestores que os promoveram, adequando as regras do clube à Lei de Responsabilidade Fiscal do Esporte, a Medida Provisória 671.

Em sua premiada guinada na gestão do Flamengo, conhecido pelo histórico de completa desorganização financeira, para dizer o mínimo, Bandeira de Mello encontrou o clube em situação caótica, com dívida de mais de 750 milhões, ele fez do Flamengo um exemplo que pode “fazer escola” e ser um divisor de águas do futebol brasileiro. Hoje, o time é o único clube brasileiro que faz sua dívida diminuir,  e também um dos poucos que fechou o ano de 2014 em superávit. Enquanto as receitas dos cinco maiores clubes desce, a do Flamengo sobe, chegando a quase R$ 250 milhões em 2015.

Ao mesmo tempo que o clube de maior torcida no Brasil quer tornar a “força da paixão de sua torcida”,  um dos maiores combustíveis do seu sucesso – e para isso quer que o programa sócio-torcedor seja o primeiro gerador de receita do clube –,  o Rubronegro carioca amplia suas condições de contratação sem fugir da realidade de contenção de gastos. É o que garante o presidente Eduardo Bandeira de Mello, que concedeu entrevista exclusiva pelo telefone com o CRAQUE e falou sobre o  futuro promissor  do Flamengo, que caminha para sanar suas dívidas, segundo a previsão do dirigente, e ter um poder de investimento digno de grandes clubes da Europa.

O senhor tem feito um trabalho à frente do Flamengo  que dá uma guinada no modo como vinha e vem sendo administrado o futebol brasileiro logo no maior clube do País. Que fatores o senhor acredita que tornaram  possível e bem sucedida essa empreitada? O senhor acredita que ela pode ser replicada em outros clubes?

No caso do Flamengo, pra nós é uma questão de princípios. Entrei no Flamengo (presidência) em 2013. Esse grupo que veio junto comigo também tem experiência no futebol e estamos acostumados a lidar nas nossas empresas e vidas profissionais com um padrão de ética que talvez não seja muito comum no futebol, mas que pra nós é o único possível, implantando no Flamengo e teve ressonância muito grande. Afinal de contas ninguém gosta de ver seu time ridicularizado, taxado como clube mal pagador, que pratica sonegação de impostos, apropriação indébita. Acho que vai fazer escola, até porque com a implantação da Lei de Responsabilidade Fiscal do Esporte essa conduta deve ser obrigatória.

E o senhor acredita que ela vai ser adotada pelos clubes?

Acho que a partir do momento que virar tem que ser seguir e deve seguir, pois é a lei.Hoje o Flamengo é o único clube brasileiro que tem receita positiva e vem diminuindo sua dívida. O senhor já declarou que se 20% dos flamenguistas adotarem o sócio torcedor... Na verdade, se tivéssemos 2%, já seria muito.

Obrigado pela correção. Justamente. Com 2% cento, o clube teria um poder de investimento digno dos grandes da Europa. Neste cenário, qual a perspectiva do futuro do Flamengo, por exemplo, em cinco ou dez anos, no que diz respeito a pagamento de dívidas e poderio financeiro? Acho que as perspectivas são as melhores possíveis porque a dívida já começa a ser equacionada com a MP 671, e alcançará um patamar extremamente confortável.O senhor já teria números dessa redução?

Temos que esperar para ver ainda, mas já dá pra imaginar que vai dar um alívio interessante pra nós. O resto vai sendo equacionada, sendo pagas. As dívidas trabalhistas, hoje somos credores; as dívidas cíveis, temos feito processo de renegociação. A dívida do Flamengo em 2016 já vai ficar inferior ao valor anual de nossas receitas, o que há muito tempo não acontece no Flamengo. A partir daí, vamos melhorando gradativamente e essa melhora vai se refletir no desempenho esportivo, nos futebol, nos outros esportes, e no conforto dos sócios aqui da Gávea.

Falando em sócio-torcedor, qual a meta ou expectativa quanto ao crescimento desse programa?

Aqui na região, por exemplo, o senhor sabe bem que temos milhares de flamenguistas tão apaixonados quanto os cariocas...É verdade. Em Manaus e nos arredores há um percentual de rubronegros que talvez seja maior que aqui no rio. Toda vez que vamos aí sentimos o carinho da torcida rubronegra. Mas temos muito a melhorar (quanto ao sócio-torcedor). Estamos chegando a 75 mil, acredito que se chegar dentro de um ano a 100 mil já vai ser uma grande ajuda. Hoje o programa é a terceira principal fonte de renda do clube, se aproximando da segunda. (Dentro de) um ano, um ano e pouco, já vai ser a segunda e a partir daí é trabalhar pra ser a primeira.

O Flamengo já jogou quatro vezes na Arena da Amazônia. No entanto, pelo fato da operação de um jogo na Arena ser cara, o ingresso mais alto acaba gerando um contra-senso por parte dos torcedores, e a própria distância do Rio de Janeiro traz implicações na escalação do time. Como equilibrar esses pontos negativos e positivos de se jogar no estado?

Mão vejo nenhum ponto negativo. É claro que não podemos ir sempre, fazer jogos com a frequência que nossa torcida gostaria. Mas podemos programar de vez em quando fazer com o time principal. Ganhamos do São Paulo de 1 a 0, com gol do Samir, no início do ano (torneio SuperSeries), e demos nossa primeira volta olímpica no estádio. Espero que não seja última.

Sobre a política de austeridade que tem adotado o clube, como responder à dúvida da torcida sobre o investimento em jogadores como Paolo Guerrero? Guerrero está dentro dos padrões de austeridade?

Como gerar esse equilíbrio?Claro! Nós não nos afastaremos da nossa política de responsabilidade. Isso contrariaria todos os nossos princípios. O que aconteceu é que 2013 o ano foi praticamente caótico. 2014 foi melhor e 2015 ainda melhor. A tendência é melhorar cada vez mais. Com a situação  que estamos desfrutando em 2015, já podemos fazer estudos e trazer jogadores do quilate do Guerrero,  um jogador caro, mas que vamos pagar cada centavo. A torcida pode ficar tranquila, que daqui pra frente vamos nos reforçar cada vez mais o time, mas não significa que nos afastaremos da nossa política.

O time ainda deve contratar neste ano?

Ainda podemos fazer ajustes no nosso elenco, mas sempre captando no mercado interno, porque a janela do exterior já está fechada.E o senhor poderia nos adiantar alguma coisa?Ainda que soubesse, não posso. Só falamos de contração quando estão sacramentadas. Isso está a cargo do (Rodrigo) Caetano, temos plena confiança nele.Qual sua perspectiva pessoal para o time no Brasileiro?

Minha expectativa de torcedor é sempre a melhor possível. O time está melhorando, ganhando entrosamento, foi reforçado e a tendência nossa é melhorar. Ainda espero ter um desempenho próximo do que a torcida merece, vamos ver se conseguimos brigar lá em cima da tabela no Brasileiro e a Copa do Brasil também pode nos reservar uma boa surpresa.

Sobre o cenário geral do futebol brasileiro. Por que o senhor acha, que mesmo diante de bons exemplos como o seu, as coisas demoram a mudar: falta vontade política, compromisso financeiro? Presidentes de outros clubes já lhe procuram?

Tenho muito contato com presidentes de outros clubes. Acredito eu eles estão dispostos (a fazer essa mudança positiva). Se não são todos que seguem, acho que é mesmo questão de dificuldade de se adaptar aos novos tempos.

O senhor sempre diz que é torcedor. E ao contrário de outros presidentes, às vezes mais comportados, o senhor vibra bastante e mostra muito esse lado. O que tem a  dizer sobre esse lado “rubronegro fanático”?

No estádio nem sei se deveria agir assim, mas me comporto como torcedor, não dá pra ser diferente com mais de 40 anos de arquibancada. Espero que pessoas compreendam que não sou um lorde, todos temos um lado torcedor e o meu lado é bastante acentuado...Sobre a MP do futebol. O senhor tem aprovado reiteradamente  o texto, mas clubes pressionam por mais benefícios  (ou regalias).

Qual sua perspectiva pragmática sobre essa questão? Qual sua visão do cenário?

No momento a lei já foi aprovada e de seguir pra sanção presidencial. Daqui pra frente o que vai acontecer é simplesmente ajustes, veto da Presidência da República, que a gente imagina não seja significativo, então o cenário que está é o que vai prevalecer, mas ela (Medida Provisória) é um excelente ponto de partida e devemos continuar trabalhando pelo aperfeiçoamento dessa política de (responsabilidade fiscal dos clubes).




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