Publicidade
Esportes
Craque

Paratleta amazonense que disputará o Pan do Canadá faz ‘de tudo um pouco’ para se sustentar

Nos fins de semana, José Ricardo vende pipas. Ele chegou a ser mototaxista e cantor de bolero nas noites manauaras 20/06/2015 às 21:34
Show 1
José Ricardo tem a força!
Paulo André Nunes Manaus (AM)

Mesmo sem parte da perna direita (amputada abaixo do joelho após um acidente com um barco) e com os constantes percalços do dia a dia de um deficiente físico, o para-halterofilista manauense José Ricardo Costa da Silva, 47, integrante da seleção brasileira paralímpica, nunca se fez de “coitadinho” ou “vítima”. Muito pelo contrário. Ele sempre soube que ficar parado, se lamentando, não adiantaria nada. Com ele é levantar, sacudir a poeira e dar a volta por cima! Há duas semanas, José Ricardo garantiu vaga nos Jogos Parapan Americanos, que acontecem no mês que vem, em Toronto, no Canadá.

Há alguns anos o paratleta chegou a ter três atividades paralelas para se sustentar: era cantor de bolero, mototaxista e vendedor de papagaios de papel. Dessas três fontes de renda, a única que ele ainda usa é a das pipas, que vende em sua residência localizada no Vale do Sinai, Zona Norte. A atividade comercial é exercida logo após ele chegar dos treinos de 3 horas e meia às segundas, terças, quintas e sextas na academia da Vila Olímpica de Manaus, onde o atleta é treinado pelo técnico Luís Cláudio Campos.

Aos sábados e domingos, ele coloca as pipas para vender na esquina da rua onde reside. “Vendo há uns 30 anos, e costumo brincar também. O gosto da gurizada, da criançada, é ‘cortar’ quem vende, pois geralmente temos a linha melhor”, conta José, que compra as pipas de um fornecedor do bairro Monte das Oliveiras a R$ 1,10 e as revende a R$ 2.

Depois de perder a prata conquistada no Pan do Rio 2007, por conta de doping, José espera sua redenção oito anos depois (Foto: Antônio Menezes)


Durante a semana o paratleta comercializa cerca de 400 unidades, mas é aos sábados e domingos que o faturamento melhora, quando vende de 500 a 800 papagaios de papel. Ele conta com apoio da Associação dos Pipeiros do Amazonas, que repassa papagaios para ele. No entanto, nada disso é o bastante para que ele se mantenha, ainda mais sendo paratleta. Ele integra o programa Bolsa-Atleta federal, mas o pagamento está atrasado.

“Infelizmente não dá para me manter só com o dinheiro das pipas. A venda é pouca e mal dá para suprir a alimentação. Ficam faltando os suplementos alimentares, que são caros. Se eu comprar o suplemento vai faltar para a mesa. O certo era não faltar nenhum dos dois”, explica o paratleta da seleção brasileira, que é casado e tem um filho de criação de 8 anos de idade.

As vertentes de ser cantor e mototaxista fazem parte de um passado recente seu. Parar de trabalhar e ter essas duas fontes de renda foi uma exigência do Comitê Paraolímpico.

Os papagaios são hoje uma das principais fontes de renda do atleta, que mesmo com bons resultados, tem pouquíssimo apoio  (Foto: Lucas Silva)

“A cobrança veio do Comitê Paraolímpico Brasileiro porque uma noite perdida você não recupera jamais. Como eu fiz isso na minha preparação para o Mundial do México e na última etapa lá em Uberlândia, e deu certo, eu optei por parar de trabalhar à noite. O trabalho é intenso e você se desgasta muito. Tocar de noite e no outro dia tentar treinar é muito cansativo. Não dá pra fazer as duas coisas. No caso da música ou você treina, ou canta. Parei os contratos, minha aparelhagem está parada em casa e hoje só me dedico ao esporte”, conta o agora ex-cantor de brega, bolero, xote e pé de serra e fã declarado de Reginaldo Rossi, Tarcísio Andrade e Wando.

Indo além no Parapan

O amazonense conquistou, no mês passado, a classificação para o Parapan de Toronto, no Canadá, de 2 a 18 de agosto deste ano, após disputar o Mundial Aberto na Cidade do México e obter a marca de 185 kg que o credenciou como o campeão das Américas. A vaga foi confirmada com os 190kg alcançados por ele na seletiva realizada logo depois em Uberlândia (MG).

E José Ricardo quer ir mais longe: ele espera chegar a levantar 200kg cravados em Toronto. “Estamos treinando em cima dessa marca de 190kg e já colocando pesos de 200kg e até 240kg para ficar ‘leve’”, diz o campeão.

Três perguntas para José Ricardo

Você guarda consigo a frustração de ter sua medalha de prata cassada pela Agência Mundial Antidoping (Wada) no Parapan de 2007, no Rio de Janeiro, quando testou positivo para a substância sibutramina, um estimulante indicado no tratamento para emagrecimento e que está na lista das substâncias proibidas do Código Mundial Antidoping. Como você está passados oito anos daquilo tudo?

Aquilo ali me chocou bastante. Mas eu não deixei me abalar pois não foi culpa minha. Foi um suplemento adulterado, havia uma fórmula nas cápsulas que estava adulterada e não tinha nas bulas. Até então foi para o laboratório e lá eles viram que não havia nada de irregular na bula. No entanto, nas pílulas estava adulterado. Perdi o segundo lugar que eu havia conquistado naquele ano, mas agora eu quero recuperar a minha medalha de prata neste Parapan do Canadá em Toronto. Quero reconquistá-la, finalmente.

Quem foi o culpado por tudo isso?

Creio eu que foi o laboratório.

Você pensou em abandonar o esporte?

Jamais. Se eu fosse o culpado por tudo isso eu me responsabilizaria pelo fato. Mas como não fui eu o culpado, não posso assumir uma burrice dessa. Quem faz uma coisa dessas não é um atleta. É antiético. Tem que ganhar a competição na limpeza. Passei um ano parado, sem competir.

Resposta do Ministério do Esporte

O Ministério do Esporte respondeu às informações prestadas por José Ricardo que o Bolsa Atleta estaria atrasado. "Não há atrasos nos pagamentos do programa Bolsa Atleta. Em todo o País, mais de 7 mil atletas de modalidades olímpicas, paraolímpicas, não-olímpicas e não-paraolímpicas, do exercício de 2014, receberam as 12 parcelas devidas. Entre esses atletas, está José Ricardo Costa, que recebeu R$ 11.100,00, valor referente a 12 parcelas de R$ 925,00. José Ricardo é bolsista do programa na categoria Nacional", disse a nota enviada pelo Minsitério do Esporte.  "O Ministério do Esporte encerrou, em maio, as inscrições para o exercício de 2015. A lista de contemplados será publicada no dia 22 de julho deste ano. As inscrições ao programa Bolsa Atleta são feitas em duas fases. Na primeira, contempla atletas de modalidades que integram os programas olímpico e paraolímpico. Essas inscrições são abertas no segundo trimestre da cada ano. A lista com os nomes dos atletas contemplados é publicada no início do segundo semestre. Cada atleta contemplado recebe 12 parcelas do valor definido na categoria (Base, Estudantil, Nacional, Internacional, Olímpico/Paraolímpico). O pagamento não é mensal. É feito de acordo com o cronograma definido pelo Ministério do Esporte. Na segunda fase de inscrições, o programa contempla os atletas de modalidades não olímpicas e não paraolímpicas. Essas inscrições serão abertas apenas após o encerramento da primeira fase", finalizou o Ministério do Esporte.


Publicidade
Publicidade