Quarta-feira, 17 de Julho de 2019
Craque

Presidente da Federação de Taekwondo do AM desabafa

Raimundo Gomes reclama da pouca atenção que a arte marcial coreana recebe no Estado em comparação a outras modalidades como Jiu-Jitsu e MMA



1.jpg Raimundo Gomes assumiu a federação ainda nos anos 90, quando a modalidade engatinhava no Brasil
05/08/2013 às 16:46

Uma vida dedicada ao esporte. Amor, abnegação, trabalho. Assim é a história do grão mestre faixa-preta 7º DAN, Raimundo Gomes Lima, 50, que também é presidente da Federação de Taekwondo do Estado do Amazonas (FTKDAM). Mas o mestre não vive seus dias mais felizes.

Há duas semanas ele fez um desabafo no Facebook reclamando da pouca atenção que a arte marcial coreana – que é um esporte olímpico – recebe no Amazonas em comparação a outras modalidades como jiu-jitsu e MMA - que não são esportes olímpicos. Cansado de tantas lutas, o mestre já tem data para deixar o comando da entidade: 2016, depois dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro. Em entrevista exclusiva ao CRAQUE ele fez um diagnóstico da modalidade no Estado. A má notícia é que o panorama não é nada animador.

O senhor fez um comentário no Facebook falando sobre a falta de apoio ao taekwondo no Amazonas. Qual é a avaliação que o senhor faz da modalidade?

O taekwondo numericamente falando está um pouco estagnado. Estamos com um projeto em 12 municípios do interior, mas perdemos muitos atletas porque na maioria das vezes eles não se sentem estimulados a continuar na prática da modalidade. Você vai ficando adulto, vai tendo outras obrigações e deveres e eles não vêem grandes oportunidades para vislumbrar um futuro. Infelizmente esta é a realidade.

A questão financeira, a falta de apoio continua sendo o maior adversário da modalidade?

Falta patrocínio não só ao atleta, mas à entidade também (Federação de Taekwondo do Estado do Amazonas (FTKDAM) que anda a passos de tartaruga por falta de recursos. Sonhávamos em ver a modalidade virar um esporte olímpico porque a gente imaginava que haveria uma mudança pra melhor e o que a gente tem observado é o contrário. Somos tratados de maneira até inferior a modalidades que nem são olímpicas. É um problema que persiste, embora a gente hoje já receba um apoio maior com relação a passagens. Atualmente a gente recebe mais do que em outras gestões do governo, mas isso ainda não reflete a necessidade dos atletas de chegarem mais longe e até vislumbrarem uma mudança de vida por meio do esporte.

O judô amazonense tem participado de intercâmbios internacionais para dar mais experiência aos atletas. Falta isso ao Taekwondo?

Isso até existe. Esta semana temos uma garota do Amazonas (Larissa de Souza Alves) que foi para a Seleção Brasileira Juvenil. Está rolando um camping nacional e internacional. Mas apesar disso a modalidade não é contemplada como deveria, porque a verba do COB e da Petrobras disponibilizada é só para a categoria adulta. Não atinge as categorias de base.

E o problema é justamente a falta de um apoio maior na base...

Exatamente! A categoria juvenil depende da ajuda da prefeitura, governo e da iniciativa privada. Precisamos de apoio em nível federal, apoio de lá pra cá, uma vez que a gente, como federação, não tem como mandar esses atletas. Esses problemas refletem o que a gente viu no Mundial com apenas uma medalha de bronze (com Guilherme na categoria até 58 kg.) Estávamos competindo em todas as categorias. É culpa da confederação? É culpa da federação? Não é um trabalho mal feito nos Estados. O problema é a falta de estrutura.

Não basta chegar à seleção, muitas vezes não chega a ser complicado chegar lá, mas é complicado você competir com atletas que têm todo um acompanhamento em todos os níveis e em todas as etapas que ele passa.

Faltam nutricionistas, fisiologistas, estrutura para treino?

Se você quiser obter um resultado pensando numa Olimpíada, não falo nem dos Jogos Olímpicos de 2016, porque não acredito que a gente possa conseguir algum resultado. Falo isso baseado no trabalho que está sendo feito que é nenhum.

Se a gente quiser obter resultados no futuro a gente teria que ter uma união entre os entes públicos e iniciativa privada e apoiar a carreira do atleta não só quando ele consegue um resultado para aparecer junto com ele. Teria que traçar um projeto, botar este atleta em uma Vila Olímpica, num centro de treinamento em horário integral ou parcial com todo equipamento necessário, com acompanhamento de nutricionistas, preparação física, psicológica, fisioterapia...

Também temos um problema complicado que é a questão do tratamento de contusões. O atleta se machuca e precisa passar por exames e aí vai para o SUS resolver o problema? O SUS a gente sabe como é. Ou seja, dentro desta estrutura o atleta tem que ter tudo isso se ele quiser vislumbrar alguma coisa. Tem que dormir bem, comer bem e ser bem assessorado. Se a gente quiser pensar no futuro tem que mudar esta mentalidade, não se pode esquecer das demais coisas que envolvem o esporte além da competição em si.

Tem algum trabalho específico desenvolvido hoje no Centro de Alto Rendimento da Vila Olímpica voltado para o Taekwondo?

Trabalho específico eu não diria. O que existe é uma parceria que a gente fechou com a secretaria (Sejel) pelo uso dos equipamentos de musculação e a parte de fisioterapia, mas a gente não tem espaço na Vila Olímpica. Não existe um lugar apropriado. Tem um tatame lá que já está comprometido com a prática do judô e da luta olímpica. A gente treina a seleção amazonense na Universidade Federal do Amazonas (Ufam).

Com a melhoria da estrutura os nossos atletas poderiam ter uma chance. No Mundial, por exemplo, um atleta do Iran que ganhasse medalha de ouro ganharia uma casa e um carro. Como um atleta vai competir com alguém que tem um incentivo assim?

Quais são os países que hoje dominam a cena mundial do Taekwondo hoje?

Além da Coreia do Norte temos Cuba, Espanha e México, onde o esporte é muito forte. Cuba é um celeiro de atletas. É um país pequeno em que os caras se focam no esporte e tem outros países africanos, enquanto isso o Brasil sai com uma mera medalha de bronze... É muito constrangedor ter que explicar porque um País como o nosso, com tantos recursos volta apenas com uma medalha de bronze.

O senhor se sente decepcionado por carregar uma modalidade olímpica e de repente ver que este esporte tem menos atenção e apoio financeiro que modalidades que não são olímpicas?

É desestimulante. Não que a gente se sinta enciumado. Acho que todo o sucesso para o Brasil, seja lá no que for a gente tem que aplaudir, mas como no Brasil o oba-oba é tão grande e principalmente e tem também os políticos que adoram pegar carona com o esporte da moda, essa questão eu vejo com preocupação. Por exemplo, o que é o MMA? É um subproduto das artes marciais, que alguém muito esperto transformou numa grande jogada de marketing, algumas pessoas pegam carona nisso, alguns atletas bem treinados conseguem se destacar, mas junto com isso vai uma coisa negativa. Tem caras que dizem que praticam MMA e não seriam nem faixa-branca na minha academia. E esses oportunistas que dizem que ensinam MMA? Não existe essa ideia de ensinar MMA, qual é a origem? Eu vejo isso com preocupação, é muita gente, o cara não aprendeu a disciplina... Nem todo mundo vai ser dar bem. No caso do jiu-jitsu o cara diz que é campeão mundial e o Mundial é disputado no Brasil, tem no máximo quatro países disputando. É diferente do taekwondo, que tem vários países no mundial. Não tenho nada contra o jiu-jitsu, tenho muitos amigos no jiu-jitsu, mas algo tem que ser feito. Enquanto isso modalidades olímpicas, que tem importância na formação do caráter do cidadão estão sendo deixadas de lado.

A torcida brasileira não sabe reconhecer o esforço dos atletas e não conhece a realidade do dia-a-dia do esporte e eles pegam pesado com os atletas durante as Olimpíadas. Como o senhor vê isso?

Isso é o que mais dói. Quem assiste a televisão vê que o atleta está lá tentando vencer, é a oportunidade da vida dele. O que acontece é que o camarada chega lá sem estrutura emocional. Ele tem que estar bem emocionalmente, os nossos atletas não tem um preparo psicológico, às vezes nem estrutura.

Peço que a população pegue leve nas cobranças, não com os atletas milionários, que ganham muito. Esses têm que cobrar mesmo, mas o restante a gente vê que o cara está colocando a alma ali.

Se o Amazonas continuar com a estrutura que tem em quanto tempo vamos colocar um atleta do taekwondo em uma Olimpíada?

Eu vejo com muito pessimismo do jeito que está. Não podemos alimentar a esperança de alguns governantes. Eles falam que a gente tem que colocar o Brasil entre os dez melhores (nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro em 2016). Não coloca. No meu ponto de vista é quase impossível e nem na Olimpíada seguinte e nem na outra. O problema é estrutural.

A Inglaterra, por exemplo, fez um investimento pesado visando uma melhor colocação no ranking durante os Jogos Olímpicos de Londres. O resultado veio. As medalhas são uma somatória de apoio e empenho. Os atletas levam no mínimo seis anos de trabalho para produzir alguma coisa.

O senhor tem 34 anos dedicados ao esporte. Até onde vai a sua energia para continuar na luta pelas melhorias do Taekwondo?

Por ser esportista a gente tende a ter uma energia mais longa. Mas até a qualidade de vida fica comprometida com tantos problemas que a gente enfrenta. Pretendo deixar a federação depois deste mandato que termina em 2016. Resolvi ficar só por mais este ciclo olímpico. Mas depois vou cuidar da minha vida porque cuidar de federação é cuidar da vida dos outros.

Perfil

Nome: Raimundo Gomes Lima

Idade: 50 anos

Naturalidade: Amazonense

Graduação: Grão mestre faixa preta 7º DAN

Cargo: Presidente da Federação de Taekwondo do Estado do Amazonas (FTKDAM).

Meta: Buscar apoio para a modalidade e concluir seu mandato à frente da federação em 2016.


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