Segunda-feira, 14 de Junho de 2021
Atletas indígenas

Projeto em São Gabriel da Cachoeira gradua novos judocas

Iniciativa que visa popularizar a arte suave, atende crianças de adolescentes, sendo a maioria indígenas



judocas_indigenas_5B098B47-B313-4A58-B549-FA390BFF2AE2.jfif Foto: Divulgação
24/04/2021 às 09:28

Na última segunda-feira (19), em São Gabriel da Cachoeira (distante 852 km de Manaus), 50 jovens receberam novas faixas de graduação no judô. Os alunos fazem parte do Projeto Social Judô para Todos, que atende cerca de 90 atletas – entre 5 e 20 anos – e contempla habitantes do município e de comunidades próximas.

A escolha da data – quando se homenageia os povos indígenas – não foi por acaso. Segundo a professora do projeto, Jéssica Muller, a maioria dos alunos atendidos são indígenas e o 19 de abril foi uma forma de tornar a data simbólica por uma conquista dos jovens judocas. Os formandos receberam faixas nas cores cinza, azul, amarela e laranja.



“É um projeto social, onde atende as crianças, jovens carentes e trabalhamos com 95% de indígenas entre várias etnias, dentre elas Baré, Tukano, Dessano, entre outras. São Gabriel da Cachoeira é o município mais indígena do mundo, localizado no extremo noroeste do estado do Amazonas, com 23 etnias e quatro línguas cooficiais (nheengatu, baniwa, tukano e yanomami). Sendo assim, os jovens se identificaram muito com a modalidade de judô e se adaptaram de uma forma expressiva”, explicou a sensei Jéssica.

Os formandos receberam faixas nas cores cinza, azul, amarela e laranja | Foto: Divulgação

O projeto foi fundado em novembro de 2018 e é uma iniciativa da prefeitura municipal de São Gabriel, liderado por Jéssica desde que passou a integrar a secretaria de esporte do município. A iniciativa também está integrada à ACOPAJAM (Associação Comunitária de Pais e Alunos de Judô do Amazonas). De acordo com a mestre, a procura tem aumentado devido aos bons resultados na comunidade.

“Os alunos contam com o projeto, pois mudou a visão dos jovens na prática e, ao saírem da vulnerabilidade social, o projeto teve uma boa repercussão e há muita procura pela modalidade tanto na sede (do município) quanto nas comunidades ribeirinhas, na esperança de, com a inclusão social, fazerem valer seus direitos”, contou.

Apesar da cerimônia de graduação ter ocorrido na segunda-feira (19), as atividades do projeto estão paradas por conta da pandemia do novo coronavírus. Os treinos pararam em janeiro e a última competição da equipe do município foi o Campeonato Amazonense da modalidade, que aconteceu em dezembro, na capital. O 'Judô Para Todos' levou 19 atletas, que conquistaram 15 ouros, duas pratas e dois bronzes. Os lutadores tiveram que encarar uma viagem de três dias na ida (descida do rio) e quatro na volta (subida do rio).

Interiorização

De acordo com o mestre Gláucio Mendonça, presidente da ACOPAJAM, além do suporte da academia, materiais como tatames foram conseguidos junto à Federação de Judô do Amazonas (Fejama).

“No caso de São Gabriel, nós resgatamos a Jéssica, que estava parada e afastada do judô. Chamamos ela para nossa academia, credenciamos na federação e intervimos junto à mesma para conseguir os tatames e estamos dando suporte técnico, para que ela possa trabalhar como plano de aula e exames de faixa”, disse Mendonça, salientando que além do projeto em São Gabriel, há outro em Tabatinga (distante 1.106km de Manaus). Além disso, em Presidente Figueiredo e Balbina, há planos para implantar projetos nos mesmos moldes com participação de ex-alunos da ACOPAJAM, que ainda tentam conseguir material e apoio para desenvolver a modalidade.

Quanto à interiorização da arte suave no Amazonas, Gláucio explica que o ensino do esporte é uma forma de afastar os jovens das drogas.

“Lógico que tem a vantagem de aumentar o número de praticantes e o número de filiados à nossa academia. Nós não ganhamos nenhuma vantagem pecuniária com isso. A gente sabe que o interior necessita do desporto porque, no interior, o número de viciados em drogas aumenta e o judô é uma forma de combater o avanço das drogas e, se usado como ferramenta de educação, tem muito a contribuir com os atletas e cidadãos do interior”.


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