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Quatro irmãos do tênis de mesa estão superando dramas do passado através do esporte

Tendo em suas histórias dramas pessoais, Marlison Henrique da Silva Alfaia, 16, Andrya Larissa, 10, e os gêmeos Natanael, 10, e Daniel Ferreira, 11, estão conquistando vitórias importantes não apenas nas mesas oficiais da modalidade, mas também na vida 03/06/2015 às 12:57
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O “Quarteto Fantástico” treina de 16h às 21h no projeto de tênis de mesa coordenado pelos professores Vivaldo Serafim e Pedro Filho
paulo andré nunes ---

No vai e vem desenfreado das bolinhas de tênis de mesa, quatro irmãos carentes do bairro Jorge Teixeira, na Zona Leste, esquecem momentaneamente dos seus problemas e focam no esporte como resgate social. Tendo em suas histórias dramas pessoais, Marlison Henrique da Silva Alfaia, 16, Andrya Larissa, 10, e os gêmeos Natanael, 10, e Daniel Ferreira, 11, estão conquistando vitórias importantes não apenas nas mesas oficiais da modalidade, mas também na vida.

O “Quarteto Fantástico” treina de 16h às 21h no projeto de tênis de mesa coordenado pelos professores Vivaldo Serafim e Pedro Filho, no Centro Educacional Adalberto Vale, que fica no conjunto Morada do Sol. Tudo começou há 1 ano com Marlison, que sofreu paralisia infantil e que convive com sequelas na locomoção, fala e escrita.

Marlison conheceu o mestre em um projeto com alunos de uma escola do Jorge Teixeira e pediu para praticar a modalidade no Adalberto Vale. Depois seus três outros irmãos foram acolhidos pelo mesmo projeto dentro da equipe da Associação Atlética Adalberto Valle: todos têm bolsas para a prática do esporte cedidas por aquela unidade educacional.

Em novembro do ano passado, com apenas 9 meses praticando, e tendo desenvolvimento rápido, surgiu a possibilidade dele disputar as Paralimpíadas Escolares, em São Paulo, pela Classe 6 paralímpica. Não deu outra: ouro para ele. Em abril, Marlison participou da Copa Brasil de Tênis de Mesa, em Manaus, e ficou em terceiro lugar.

Sua próxima competição oficial acontece em novembro, em Natal, novamente pelas Paralimpíadas Escolares. “O tênis é tudo pra mim. Consegui me desenvolver muito nos últimos tempos com o esporte graças a Deus”, disse o paratleta.

“A evolução do Marlison vem sendo muito proveitosa, Nesse 1 ano ele aprendeu a segurar direito a raquete e melhorou. Ele já pega um garfo e se alimenta. O desenvolvimento motor dele melhorou muito. E o intelecto também além da parte técnica. É muito gratificante constatar tudo isso”, garante Pedro Filho.

Os irmãos de Marlison seguem o caminho dele: Andrya Larissa já disputou o Brasileiro ano passado em Fortaleza e foi 3º lugar pelo mirim. Já na Copa do Brasil em Manaus ela foi 2ª no mirim e 3º pelo pré-mirim. E Natanael e Daniel começam a ganhar ritmo cada vez mais, como as bolinhas rápidas das mesas da modalidade!

Problemas do passado vão ficando para trás

A história de Iranildes Ferreira da Silva, 30, a mãe de Marlison, envolve drama, superação e a tentativa diária de dar a volta por cima após uma série de insucessos e tragédias. Inclusive fatais, num resumo próprio dos problemas sociais de várias famílias brasileiras.

Seus dois primeiros maridos - os pais de Marlison e Andrya - tinham envolvimento com o tráfico de drogas e foram mortos após confrontos com a polícia. Já o pai dos gêmeos Natanael e Daniel encontra-se preso em uma penitenciária do Estado também sob acusação de tráfico de entorpecentes.

Seu atual marido - o autônomo Emerson Menezes, pai de João Vitor, de 7 anos, o caçula da família, - não tem envolvimento com práticas ilícitas, mas sofre com dores nos ossos e articulações, garante a própria Iranildes. Outro drama foi superar as sequelas da paralisia infantil causada pela ausência de oxigênio durante o nascimento de Marlison

“Quando nasceu o Marlison foi desenganado pelos médicos, que lhe deram alguns dias de vida. Eu recebi um laudo médico e fui orientada, quando ele tinha dez anos de idade, a ter esse benefício para mantê-lo até enquanto ele estivesse vivo. E é isso que nos ajuda mensalmente”, fala a mãe.

“Aos 7 anos ele não andava e nem falava. Com muita luta conseguimos uma consulta com um neurologista. Aí me falaram que era paralisaria que ele teve, e que ele demorou pra nascer e que faltou oxigênio durante o nascimento. Eu fumava muito e isso pode ter comprometido o quadro dele. Eu era muito nova. Tive ele à força”, conta ela.

Evangélica, Iranildes da Silva não fez laqueadura de trompas mesmo sendo mãe de 5 filhos. Sobre a vida, ela diz estar ciente que o que ocorreu em seu caminho foi consequência das suas próprias escolhas: “Eu era sozinha, não tinha filhos, fui me envolvendo e não queria estudar. Mas chega um tempo em que você dá um basta porquê a gente só continua na vida errada até o dia em que quisermos”.

Marlison sustenta a família com apenas 16 anos

Por conta das sequelas da paralisia infantil, Marlison recebe desde os 7 anos de idade um benefício federal mensal no valor de R$ 750 que é, há anos, a principal fonte de renda da família dele (formada pelos quatro mesatenistas, mais o irmão caçula João Vitor, 7, a mãe Iranildes Silva e o padrasto Emerson Menezes, totalizando 7 pessoas).

A segunda é a venda de trufas pelas ruas do bairro Jorge Teixeira três vezes por semana. “Cada trufa custa R$ 1, que eu e meu esposo vendemos pelas ruas do bairro. Geralmente produzimos umas 50 unidades, mas não vendemos tudo. Digamos que umas 25 ou 30 por dia dá para o café e o almoço. Isso sem contar a compra do material para fazer as trufas”, explica Iranildes Silva, mãe do paracompetidor.

Se levarmos em conta a venda de 25 trufas por dia, ao final de 12 dias serão arrecadados R$ 300 (R$ 25 x 12 = R$ 300), nem a metade do benefício garantido por Marlison.

Segundo confirmou a Confederação Brasileira de Tênis de Mesa em seu site oficial (cbtm.org.br), por ter sido campeão brasileiro nas Paralimpíadas Escolares, o mesatenista receberá a partir de agosto uma bolsa de R$ 370. O apoio da Associação Adalberto Vale é ressaltado pela entidade em sua home page: “Para se manter no esporte, conta com doações de todos os pais de colegas da Associação Adalberto Valle e se tornou um ‘xodó’ no clube devido à sua perseverança”.

Além das atividades de segunda a sexta no Adalberto Vale, Marlison parece ser incansável: aos sábados e domingos pela manhã ele também treina na Fundação Vila Olímpica de Manaus. O paratleta também praticava xadrez na escola municipal Esmeraldo Bessa, no Jorge Teixeira, mas parou devido a saída de um dos professores da modalidade. Atualmente ele cursa o 5º ano do ensino fundamental na Escola Municipal Joaquim da Silva Filho. “Deus me dá ânimo e força de vontade para vencer. Quando a pessoa tem força, ela corre atrás das coisas”, ensina o guerreiro.


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