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Reportagem especial: Dez anos sem o mestre Carlson Gracie

CRAQUE relembra histórias marcantes de um dos maiores lutadores de vale tudo e técnico de MMA de todos os tempos, Carlson Gracie, sob ponto de vista de seu mais fiel pupilo 01/03/2016 às 10:59
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Carlson foi lançado ao mundo vale tudo aos 17 anos contra Waldemar Santana
Leanderson Lima ---

Só existem “dois” caminhos para quem nasce na família Gracie: lutar ou lutar. Assim tem sido a história do maior clã do jiu-jitsu mundial, desde quando eles começaram a difundir a modalidade no Brasil desde os anos 20 do século passado.
Foi desafiando todos os estilos de luta, que o Gracie Jiu-Jitsu (ou Brazilian Jiu-Jitsu, como o estilo também ficou conhecido no exterior) fez sua fama no Brasil e no mundo.

Mas este legado esteve ameaçado quando o maior expoente da família, o mestre Hélio, já em idade avançada para um lutador - 41 anos -, foi derrotado no maior vale-tudo da história, que durou nada menos que três horas e quarenta minutos, para o ex-aluno, Waldemar Santana.
Quem foi encarregado da missão de “salvar” o nome da família foi um menino que sequer tinha idade para tirar carteira de motorista. Seu nome? Carlson Gracie.

Filho mais velho do mestre Carlos Gracie – professor e irmão de Hélio e também criador da famosa dieta Gracie –, Carlson desafiou e venceu o algoz do tio quando tinha apenas 17 anos.

Foi apenas o início de um longo reinado nos ringues, que garantiu a continuidade do prestígio da família.

Ele vingou o tio Hélio contra Waldermar Santana e garantiu o prestígio da família

O legado de Carlson, porém, acabou sendo muito maior quando ele se aposentou da vida de lutador de vale-tudo (o precursor do MMA). Foi da academia fundada por ele na Rua Figueiredo Magalhães, em Copacabana, que surgiu aquela se transformaria em uma das maiores gerações do jiu-jitsu mundial. Como mestre no pano e também técnico no MMA, Carlson pôde realizar o sonho de criar um “exército de guerreiros”.

Em 2016, dez anos após a sua morte, o CRAQUE relembra a trajetória do mestre pela óptica de seu mais leal discípulo, o ex-campeão mundial de vale-tudo e hoje empresário, o amazonense Wallid Ismail, 48, que é também presidente do Jungle Fight, o maior campeonato de MMA da América Latina.


Lado social em primeiro lugar
A história de Carlson e Wallid Ismail se cruzam ainda nos anos 1980, quando o amazonense decidiu sair de Manaus para aprimorar seu jiu-jitsu na meca da modalidade, na época, o Rio de Janeiro.

A academia escolhida, até pela proximidade de onde Wallid estava morando, foi justamente a Academia Carlson Gracie.

O amazonense não tinha dinheiro para pagar os treinamentos de forma diária. Foi aí então que ele conheceu o lado mais humano do mestre.

“Quando eu cheguei à Academia do Carlson eu não tinha dinheiro para pagar aula todos os dias. Mas tinha para pagar duas vezes por semana. Aí eu paguei o primeiro (mês) e depois passei o dia inteiro na academia”, conta.

“Era um cara de um grande coração. Ele olhava para aqueles que realmente queriam lutar. Ele foi o primeiro grande cara da família Gracie a abrir o leque para quem não tinha condições de pagar, porque na época o jiu-jitsu era uma coisa elitizada. E a única academia que deixava as pessoas treinarem, as pessoas que tinham e não tinham condições. Lá tinha gente de todas as camadas sociais”, lembra.

Fera na luta, mas não tão bom com os negócios
Carlson fez fama nos ringues enquanto esteve na ativa e teve a academia mais proeminente de sua época. Mesmo assim, todo esse sucesso não garantiu a ele uma situação confortável do ponto de vista financeiro.

“Quando eu larguei tudo em Manaus e cheguei ao Rio de Janeiro e vi meu mestre, o mestre maior da luta andando num fusquinha branco, eu disse, caramba... mas no dia a dia vi que não era porque a academia não dava dinheiro. Era porque a vida dele era pensando em expandir o jiu-jitsu, era uma vida dedicada a formar um exército.

Ele queria treinar pessoas que não tinham condições. Ele fazia um trabalho social inacreditável, que na época tinha muita atenção e que ninguém fazia”, diz Wallid, lembrando que pelo menos 98% dos alunos não conseguiam arcar com os custos das mensalidades da academia. “Para você ter uma ideia, a gente até dormia na academia. Quando não dormia no primeiro andar, dormia no segundo. Ele era espírito excepcional, uma pessoa magnífica, como mestre, mas que não era um bom comerciante. Eu percebi isso”, atesta.

Wallid foi autor da última homenagem ao mestre, no Jungle em Manaus. Foto: Marcelo Alonso


Uma boa briga de família
Carlson Gracie se diferenciava dos demais membros da família pela atitude de ensinar jiu-jitsu aos menos favorecidos. Algo bem diferente do que fazia, por exemplo, seu tio Hélio, que tinha em sua clientela a verdadeira nata da sociedade carioca.

E essas diferenças só aumentaram depois da morte do pai de Carlson, Carlos Gracie. “Quando eu era faixa-roxa teve um problema de herança e ele (Carlson) achava que não tinha sido favorável a ele. Então eu disse pra ele que ia vingar ele contra todo o outro lado da família. A história começou por aí”, explica Wallid.

Foi aí que começou uma rivalidade dentro da própria família Gracie e o amazonense defendendo a bandeira da academia de Carlson, começou a “caçar” os Gracie.

“Quando eu peguei a faixa-marrom comecei a desafiar o outro lado da família. Ganhei do Ralph (na faixa marrom). Na (faixa) preta ganhei do Renzo e do Royce, sempre defendendo o nome do Carlson. Venci todo mundo”.

A luta contra Royce, até hoje, é considerado um dos maiores combates da história do jiu-jitsu. Gracie já havia conquistado os títulos do UFC quando retornou ao Brasil e lutou contra o amazonense. Royce acabou finalizado com um estrangulamento e acabou desmaiado.

Carinho: Wallid se manteve fiel ao mestre até o fim. Foto: Marcelo Alonso


Lealdade até o fim
Lealdade e gratidão são duas palavras que sempre fizeram parte da relação de Wallid com Carlson Gracie. Uma relação que durou até o fim da vida do mestre.

Foi o empresário, aliás, autor da última homenagem ao mestre, que aconteceu na quinta edição do Jungle Fight, realizada no ginásio do Tropical Hotel, na Zona Oeste de Manaus, na noite de 26 de novembro de 2005.

“A homenagem tem que ser feita com a pessoa em vida. E a última homenagem que ele recebeu foi no Jungle Fight. Coloquei ele na televisão para mostrar tudo que ele tinha feito, toda a história de vida dele”, lembra o ex-lutador.

Da capital amazonense, Carlson retornou para Chicago, nos Estados Unidos, onde estava morando e tinha uma academia.

O mestre passou à eternidade no dia 1º de fevereiro de 2006, no Hospital Lincoln Park, por conta de complicações renais.

Carlson se foi, mas o legado dele continua, assim como os ensinamentos que deixou aos seus alunos. “Ele era um cara autêntico, sincero e irreverente. Se havia dois lutadores dele discutindo, ele mandava logo sair na porrada e aí paravam. Carlson foi um segundo pai para todos nós, uma pessoa especial, e que o legado dure gerações e gerações. Que o legado dele continue vivo”, finalizou Wallid.


Duas perguntas para Wallid Ismail, empresário
Quais foram as lições mais importantes que o mestre Carlson te deixou?

O treinamento do dia a dia, as abdicações. Ele sempre falava que éramos o míssil e o adversário era o alvo. Então nós já íamos lá (nos campeonatos) para destruir o adversário. Ele fazia um trabalho psicológico muito importante com a gente.

E como eram as eliminatórias para os torneios dentro da academia ?
As eliminatórias dentro da academia eram mais difíceis do que qualquer campeonato. Tínhamos que lutar entre si para ver quem era o melhor. A gente já lutava com os melhores. Quando chegava no campeonato a cabeça já era de vencedor.

Carreira de Wallid
Sob a tutela de Carlson Gracie, Wallid foi campeão mundial de vale-tudo pelo IVC e ainda protagonizou uma das mais célebres lutas da história do vale tudo contra o representante da luta livre, Eugenio Tadeu, em agosto de 1991. O amazonense venceu o combate. No jiu-jitsu ele ficou conhecido como “The Gracie Killer” – o “Matador de Gracie”, por conta de suas vitórias contra membros do mais poderoso clã da luta da história.

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