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Esportes
Atletismo

Sandro Viana, o senhor do tempo. Uma história de superação e amor ao esporte 

Ele começou no atletismo na idade em que a maioria dos corredores já está em seu ápice físico, mesmo assim, ele foi para duas Olimpíadas depois dos 30 e ainda deve herdar um bronze olímpico em breve  24/07/2016 às 22:46 - Atualizado em 24/07/2016 às 22:55
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Sandro Viana aguarda a medalha de bronze referente aos Jogos Olímpicos de Pequim, depois de caso se doping com corredor da Jamaica (Foto: Arquivo A CRÍTICA)
Leanderson Lima Manaus, AM

Impossível. Aquilo que não se tem possibilidade de fazer. Impraticável, inviável, irrealizável. O que foge do usual, que é fora do comum. Extraordinário, extravagante, irracional. O que não se pode admitir, explicar, impensável, inadmissível, incrível! Quantas expressões são necessárias para definir Sandro Viana? Um homem que subverteu os conceitos do atletismo. Um velocista que desafiou o tempo, de todas as formas possíveis e imagináveis. E é a história dele que será contada, hoje, no último capítulo da série “Amazonas Olímpico”. 

“O esporte me define”. É com esta frase de efeito que Sandro Viana começa a entrevista concedida ao CRAQUE no dia 1º de junho de 2016, na Vila Olímpica de Manaus. De fato, nem mesmo o velocista sabe explicar onde começa o esporte e onde começa sua própria vida. “Eu não tenho diferença entre minha vida pessoal e o esporte. Eu vivo o esporte desde que olhei para baixo e vi que tinha pés e vi o que eles podiam fazer”, conta.

O atletismo não foi o primeiro esporte deste amazonense. Nem o primeiro, nem segundo, nem o terceiro. Mas é claro que desde criança ele já dava suas corridinhas na Rua Mendes Sá, no bairro Dom Pedro, zona Centro Oeste de Manaus. “Ninguém corria mais do que eu na minha rua”, revela.

Antes de literalmente “correr” o mundo, Sandro praticou judô, jiu-jitsu, natação – por dez anos –, basquete, vôlei, futebol de campo e salão e até triatlo.

Sua força

O velocista conta que a mãe dele, dona Marlene, 74, sempre foi sua maior incentivadora. “Venho de uma família de três gerações de professores. Então é natural o estímulo ao esporte, cultura, arte... Minha mãe sempre me levou para tudo. Teatro, eventos cívicos”, lembra. E ela sempre fez tudo isso, mesmo tendo que trabalhar em três turnos para poder sustentar a casa.

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Dona Marlene, a torcedora número 1 de Sandro (Foto: A Crítica)

Vida difícil

Sandro nunca deixou de praticar esportes, mas desde cedo precisou correr atrás, já que a vida da família Viana, sempre foi difícil. “Trabalhei como entregador de salgados e depois como contador de moedas em casas de bingo”, relembra. Neste trabalho, o que incomodava o futuro campeão era odor de cigarro que sempre havia neste tipo de ambiente. “Eu ficava fedendo a cigarro o dia inteiro”, reclama. 

Ele ainda atuou como corretor de imóveis. Sem um veículo, trabalhava procurando imóveis para aluguel e venda. “Eu tinha 22 anos, eu tenho 1.89 de altura e naquela época eu pesava 67 quilos. Eu não comia porque não parava. O melhor horário para os clientes era a hora do almoço então eu passava o dia inteiro no sol quente”, confessa.

Quando não trabalhava, Sandro, é claro, praticava esportes. Tentou ser jogador de basquete, mas acabou reprovado na peneira. “Quase” se tornou um atacante do futebol profissional, quando o clube em que atuava, o Clíper, acabou desistindo do futebol por falta de recursos financeiros.

O jeito foi ficar nas peladas disputadas até a noite cair no Batalhão da Polícia Militar, no Dom Pedro. Foi lá que ele conheceu um atleta que mudaria a vida dele para sempre.

Destino

O jornalista Bruno Marzzo, hoje com 32 anos, era praticante do salto com vara no extinto CETAN (Centro de Treinamento de Alto Nível), que funcionava na Vila Olímpica de Manaus. Ele jogava bola com Sandro e um dia deixou a pelada mais cedo para conferir um meeting de atletismo na Vila e levou amigo com ele. E não ficou só nisso. Marzzo começou a encorajar o amigo a fazer um teste nas provas de velocidade.

“Ele (Bruno) falou que ia (treinar) na segunda-feira – no horário do futebol. Eu vim. Ele pegou o material dele e disse: vou estar treinando bem ali, e me apontou os treinadores cubanos e disse: vai lá e diga que você quer fazer um teste”, conta Viana.

Marzzo afirma que insistiu e muito para que Sandro fizesse testes no CETAN. “Eu via que o Sandro era foda na corrida. A gente brincava de corrida na rua, eram outros tempos, tempos de brincar e interagir na rua com os amigos da vizinhança. Chegou um dia que eu falei pra ele: ‘bicho tu é dos 200m ou 400m. Aparece lá na Vila. Vou te apresentar para os caras. Ele tinha 24 anos e achava que estava velho demais para começar, mas eu sabia que não porque ele tinha um condicionamento físico muito bom”, lembra o jornalista.

O tempo
É entre 24 e 26 anos que a maioria dos velocistas atinge o seu ápice físico. Começar então uma carreira aos 24 anos seria algo possível? Não para os técnicos da época.
Foi a primeira vez que Sandro, então, desafiou o tempo. Aceitou o conselho do amigo e foi ao teste com os cubanos que à época trabalhavam na Vila Olímpica com a missão de descobrir novos talentos.

Logo de cara, Viana bateu o recorde do teste, deixando os treinadores boquiabertos. Quando disse que morava a poucos metros da Vila, viu começar um bate boca entre os treinadores. “Não te disse que não precisava ir longe para descobrir os talentos”, gritou um dos técnicos.

Foi quando um treinador fez a pergunta crucial. “Perguntaram quantos eu tinha. Eu disse: tenho 24. Eles foram da empolgação à decepção”, lembra. O projeto do CETAN, à época, recebia atletas com o máximo de 20 anos.

Ainda assim, um dos cubanos pediu que ele voltasse na semana seguinte para treinar. Sandro aceitou a proposta. “Tempos depois eles me falaram que me mandaram voltar na semana seguinte porque eles queriam ver se não era só empolgação minha”, lembra o campeão, que começou a treinar junto com as crianças no CT, vestido com um calção do Vasco da Gama e uma camisa de campanha eleitoral, do ex-governador Amazonino Mendes.

O sucesso não tardou. No primeiro Norte/Nordeste conquistou cinco medalhas de ouro e já despontou na imprensa como promessa do atletismo local e até ganhou uma bolsa para entrar na universidade.

A rotina era dura. O velocista treinava, estudava e ainda trabalha no Polo Industrial de Manaus (PIM). “Eu acordava quatro horas da manhã para ir ao Distrito e chegava todo dia na faculdade com uma hora de atraso por conta dos treinos. O professor nem olhava na minha cara”, conta.

E os resultados não pararam por aí. Em 2004, Sandro foi campeão brasileiro universitário. “Foi quando eu pensei: eu vou passar um ano em São Paulo e só vou olhar só para o esporte. Vou a um lugar onde eu possa ser exigido ao máximo. Se não der certo, eu volto para a minha vida normal”, confessa.
 

Vendeu tudo
Sandro decidiu ir para São Paulo, mas não tinha como se manter na capital paulista. A solução encontrada? Vender os móveis de sua própria casa. A decisão teve apoio da esposa Mireya, com quem o velocista é casado e tem duas filhas. “Vendi tudo que tinha. Sapateira, máquina de lavar, rádio, geladeira, vendi a cama, ficou só o colchão. Vendi até a aliança de casamento, a minha e a dela. Minha esposa sabia que eu estava angustiado e me apoiou”. 

No dia 26 de março de 2005, dia em que faz aniversário de 28 anos, Sandro chegou em São Paulo. Com o dinheiro arrecadado, teve que viver no centro de treinamento com R$ 6.50 por dia. “Eu gastava 0,50 centavos no café da manhã. Gastava 4,50 no almoço, naquele restaurante do trabalhador mesmo, que tinha um prato feito e um suco. Na noite eu tinha R$ 1 e comia um pão, uma bolacha só para não ficar com fome”.

Foram 150 dias longe de casa. Ainda em 2005 conquistou o sexto lugar no Troféu Brasil de Atletismo e o bicampeonato universitário, desta vez, acompanhado do índice para disputar a Universíade, realizado na Turquia.

No ato da inscrição precisava dizer de onde estava partindo e onde seria o local de retorno. Marcou a volta para Manaus. Nesta altura do campeonato, o velocista não tinha mais nem dinheiro para comprar comida. Foi o “manto” da seleção brasileira que lhe deu forças para seguir em frente.

“Quando cheguei no quarto, alguém da organização tinha arrumado o uniforme da seleção em cima da cama. Aquilo curou todas as dores. Era o manto sagrado que eu sonhava”, conta.

Na Turquia, Sandro viveu o primeiro momento mágico de sua carreira. Ele chegou ao evento com 65º melhor tempo e terminou com a medalha de bronze no peito. Começava ali uma promissora carreira no atletismo internacional.

Bronze na Turquia abriu portas (Foto: A Crítica)

“Eu estava cego. Eu só pensava em correr. Foi uma festa”, lembra. Em Manaus o velocista recebeu pela primeira vez ajuda governamental - R$ 4 mil. Dinheiro que precisava para retornar aos treinos em São Paulo.

Foi ai que a carreira dele deslanchou de vez. Viana conquistou medalhas no Troféu Brasil e a vaga para os Jogos Pan Americanos do Rio de Janeiro, em 2007, lá ele conquistou a medalha de ouro no Revezamento 4x100. “Eu entrei na vitrine. Ganhei patrocínio de marca esportiva, de marca de óculos”, conta.

Sandro fechou o revezamento 4x100 no Pan do Rio (Foto: Arquivo)

Equipe brasileira fez bonito no Pan de 2007, no Rio (Arquivo AC)

A vida financeira do amazonense deu uma virada entre 2007 e 2008, ano em que ele se classificou para os Jogos Olímpicos da China, nos 100m, 200m e ainda de quebra participou do revezamento 4x100. Por essas coincidências do destino, o índice para Pequim foi conquistado no dia 26 de março de 2008, dia em que o campeão completou 31 anos de vida. “Eu interpreto como um presente”.

Na China, o velocista pode realizar seu sonho de ser um atleta olímpico. “Mudou minha visão do esporte e da vida”, conta.

A equipe brasileira no revezamento 4x100 era formada por Vicente Lenilson, Bruno Lins, José Carlos Moreira, o Codó, e pelo amazonense. Na final eles conquistaram o quarto lugar.

Na volta pra casa, Sandro enfim pode comprar de volta tudo que havia vendido para tentar a sorte no esporte. “Comprei tudo que faltava. Deu pra resolver todos os problemas financeiros da família, eu saí pagando tudo. Era uma promessa colocar tudo de volta. Até uma aliança nova eu comprei”, conta.

Londres 2012

Despedida das Olimpíadas foi nos Jogos de Londres (Foto: Clóvis Miranda)

O amazonense ainda voltaria a desafiar o tempo, quatro anos depois, ao se classificar para os Jogos Olímpicos de Londres, em 2012, e disputar sua segunda Olimpíada aos 35 anos. 

Em 2016, de forma incansável, o velocista mais uma vez tentou o índice olímpico para os Jogos do Rio de Janeiro. Não deu pra ele. Mas se o índice não veio, um tesouro deve chegar em breve.

É que um reteste feito neste ano acusou doping na amostra do jamaicano Nesta Carter, que participou da final do revezamento 4x100 em Pequim. A equipe da Jamaica conquistou a medalha de ouro. Com o resultado cassado – o que é normal neste tipo de caso – o Brasil vai herdar a medalha de bronze dos Jogos Olímpicos de Pequim.

“O atleta, é claro, quer ir para o pódio ganhar medalha, mas ali não deu... mas mesmo assim, isso não tira o brilho da medalha. Os justos sobrevivem e nós sobrevivemos. Nós fomos justos, não comprometemos ninguém, não fomos mentirosos e essa é a satisfação. Um resultado de quarto lugar por nove centésimos é a sensação de que eu cheguei à porta do paraíso e não entrei. É uma posição ingrata, mas as coisas mudaram”, comemora.

A maior conquista da carreira virá mais cedo ou mais tarde, mesmo depois de oito anos daquela final histórica, mesmo longe do estádio Ninho do Pássaro, o palco do atletismo nos Jogos de Pequim.

Enquanto a medalha não vem, Sandro aguarda pacientemente, até porque o “tempo”, nunca foi problema pra ele. 
 

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