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Série 'Amazonas Olímpico' conta a história da lenda do tênis de mesa brasileiro, Lígia Silva

Ela superou a infância humilde no bairro Alvorada para se tornar um dos maiores nomes do tênis de mesa do Brasil. E fez mais! Entrou para a história como a amazonense que mais disputou Olimpíadas 16/07/2016 às 01:14 - Atualizado em 16/07/2016 às 01:43
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Ela emocionou o público amazonense ao acender a pira olímpica durante o revezamento da tocha, em Manaus (Antonio Lima)
Leanderson Lima Manaus, AM

Domingo, 19 de junho de 2016. Ponta Negra. Revezamento da Tocha Olímpica em Manaus. A mesatenista Lígia Silva, 35, recebe a chama das mãos do lutador de MMA, Ronaldo Jacaré. Para um atleta, carregar o maior símbolo dos Jogos Olímpicos já uma honra. Ser escolhida para ser a última condutora é ainda mais.

Coube a ela a missão de acender a pira olímpica em Manaus. No trajeto foi como se um filme tivesse passado na cabeça desta que é uma das maiores mesatenistas da história do Brasil. A infância difícil no bairro Alvorada. A decisão de deixar a terra natal em busca de seus sonhos. Tantos dias de luta para enfim ter o seu dia de glória.

Foi difícil segurar a emoção. Lígia chorou no caminho até a pira olímpica e emocionou o público que lotava a praia da Ponta Negra naquele domingo à noite. A menina de ouro do tênis de mesa estava de novo em casa, escrevendo seu nome na história do esporte, algo que ela já havia feito quando se tornou a amazonense com o maior número de participações em Jogos Olímpicos: três no total (Sydney 2000, Pequim 2008 e Londres 2012).

“Para mim foi uma surpresa. Pensei que fosse fazer somente um percurso. Mas quando me ligaram falando que eu iria acender a pira olímpica, pensei: ‘Nossa, que emoção!’ Todos sabem que sou de Manaus, foi onde tudo começou, acho que foi por isso que as lágrimas vieram. Acho que foi um dos melhores momentos no esporte para mim”, contou à reportagem.

Trajetória

Mas o caminho até o olimpo do esporte brasileiro não foi fácil. Ainda na infância, Lígia precisava ajudar em casa e trabalhava com a mãe vendendo marmitas no Centro de Manaus. Quando não estava na labuta, a mesatenista conta que gostava mesmo era de brincar na rua.

“Eu vivia na rua, mas sempre fui uma menina do bem. Ficava na rua, mas sem me perder em nada na vida, pois tive uma educação rigorosa”, conta.

Morar na mesma região onde fica a Vila Olímpica de Manaus acabou sendo um “convite” a pratica de esportes. Sem dinheiro para chegar até lá, Lígia sempre dava um jeito de passar por baixo catraca no ônibus. “Eu esperava até passar um ônibus onde o pessoal (cobrador e motorista) me conhecia, porque não tinha dinheiro para pagar as passagens. Mas às vezes eles não passavam e o jeito era ir a pé mesmo”, lembra.

Destino

Na Vila, Lígia já praticava tênis de mesa, atletismo e também natação. Só que um dia ela foi obrigada a escolher apenas um esporte. “Um dia minha mãe falou assim: você só chega aqui em casa com uma inscrição da Vila se não você vai apanhar!”, revela. Ela precisava escolher já que as modalidades eram gratuitas, mas era necessário pagar para fazer as carteiras de cada esporte de forma individual. E o dinheiro era curto na família Silva.

“Eu fui direito pra fazer natação, só que o professor faltou e as únicas vagas que restavam era do tênis de mesa. Como eu tinha que chegar com a inscrição em casa, tive que escolher o tênis de mesa”.

O destino deu uma mãozinha na hora de escolher o esporte que mudaria a vida desta amazonense para sempre. Foi o primeiro passo. A obstinação pelos treinos foi o segundo. Lígia treinava tanto que quando terminava o seu horário ela ficava no banheiro da Vila batendo bola no espelho. Os técnicos ficaram encantados com tanta dedicação e decidiram levar a pequena mesatenista para suas primeiras competições. “Eu ganhava todas na minha categoria”.

Com as bênçãos de sua mãe, dona Amélia, Lígia começou a se dedicar ao tênis de mesa e praticamente passou a morar na Vila Olímpica. Nesta caminhada um personagem foi decisivo na vida da futura atleta olímpica: Clóvis Souza, o seu Clóvis, que foi quem a convidou para “treinar sério”.

“Ele falou pra mim: você pode chegar longe”. Não demorou muito para que ela começasse a disputar os campeonatos brasileiros sempre com destaque até ser convocada para as seleções de base. “Eu nunca pensei que um dia eu poderia chegar muito longe, assim. Em nenhum momento eu pensei: vou ser uma grande atleta. Mas como eu vivia vendo atletas nas competições eu ficava pensando: um dia vou chegar lá também”. E chegou!

Longe de Manaus

O ano de 1998 foi decisivo. Lígia recebeu convite para morar e treinar em São Paulo. “Foi aí que decidi fazer isso da minha vida. Tinha que estar num grande polo, que sempre foi São Paulo, para poder realizar meus sonhos”. Dona Amélia aceitou que a filha fosse embora com apenas uma condição: que ela não abandonasse os estudos.

O começo, como não poderia deixar de ser, foi repleto de dificuldades. “É difícil você sair muito nova, mas tive que encarar pelo meu sonho de participar de uma Olimpíada. O que me ajudou muito foi o fato de eu não ficar pulando de galho em galho. Santos foi o primeiro e único clube que joguei até aqui”.

Começo devastador

Um ano depois de deixar Manaus, a mesatenista amazonense fez sua primeira participação nos Jogos Pan-Americanos, em Winnipeg, no Canadá. “Só me lembro de que eu estava na Vila Olímpica e queria tirar fotos com os atletas famosos”, conta. E não demorou muito para que ela realizasse o sonho de participar de uma Olimpíada.

Treinada pelo professor Ricardo Dantas, o Bolacha, ela se dedicou ao extremo para garantir vaga para os Jogos de Sydney, na Austrália. “Eu queria tanto ir aos Jogos, que no domingo eu já ficava contando as horas para a segunda chegar. Só para voltar aos treinos”, relata.

A dedicação surtiu efeito. “Sabia que podia ganhar (a vaga). Eu já tinha vencido todas as que estavam lá (na seletiva). Depois desse pré-olímpico coloquei na minha cabeça que tinha que ficar sempre entre as três melhores. Até hoje é assim. Se você não ficar entre os três, no pódio, ninguém pode te ver”, disse.

Amazonense atravessou o mundo para disputar os Jogos de Sydney e foi muito mais além. Viajar, aliás, se tornou uma rotina na vida dessa “caboquinha”, que conheceu quase todos os países do mundo competindo. “Conheço todos os países da América do Sul, quase todos da Europa; na Ásia eu fui China, Japão, Cingapura, Seul (Coreia). Fui para os Emirados Árabes, Malásia. Só não fui para a África”, conta.

Com Bernardinho, em Londres (foto arquivo pessoal)

A amazonense ainda competiria nos Jogos de Pequim, na China, em 2008, e em Londres 2012 sempre honrando a bandeira brasileira num esporte dominado pelos chineses, que já conquistaram 24 medalhas de ouro de 28 disputadas desde que a modalidade se tornou olímpica nos Jogos de Seul, em 1988, na Coreia.

Já pensa em parar?

Este ano ela esteve perto de disputar os Jogos Olímpicos do Brasil encerrando a temporada como primeira no ranking. A Confederação Brasileira, porém, acabou escolhendo uma mesatenista mais jovem para disputar o pré-olímpico. Apesar da decisão, Lígia seguiu em frente. E ela nem cogita a palavra aposentadoria. “Eu me cuido muito. Vou até onde meu corpo aguentar”.

No Pan do Canadá, em 2015, ela foi prata na disputa por equipe (foto Reuters)

É natural que a mesatenista não pense agora na aposentadoria. O tênis de mesa é um caso de amor, um pedaço importante da vida desta guerreira amazonense. “Tudo que eu tenho na vida foi o tênis de mesa que me deu. Me trouxe todos os conhecimentos possíveis. Aprendi a lidar com o mundo, aprendi sobre culturas diferentes, aprendi a lidar com elas. Eu nunca imaginei isso na minha vida. Consegui, mas sempre com os pés no chão. Na honestidade, sem passar por cima de ninguém. Sem me rebaixar pra ninguém”, resume. E para quem sonha em brilhar no tênis de mesa, a multicampeã dá uma dica importante: “Os degraus são muito mais importantes do que a escada em si. Tem que escalar degrau por degrau”, finaliza.

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