Quinta-feira, 20 de Junho de 2019
Craque

Série 'Diário de Copa' relembra a maior tragédia da história do futebol brasileiro: o 7 a 1 diante da Alemanha

Equipe do CRAQUE, que cobriu a partida histórica relembra aquele inesquecível 8 de julho de 2014



1.jpg Brasil x Alemanha, a maior tragédia do futebol brasileiro
08/07/2015 às 09:27

Sempre tive uma certeza em relação à Copa do Mundo de 2014: independente do que acontecesse seria um evento histórico. Sabia disso desde o dia 30 de outubro de 2007, quando preparei a edição do jornal A CRÍTICA que anunciou o Brasil como sede do torneio.

Cresci ouvindo as histórias sobre a Copa de 50. Os relatos da tragédia, os jogadores humilhados, o Barbosa...

Quando ouvia os jornalistas que cobriram aquele jogo relatando os detalhes da nossa “maior tragédia”, dizia pra mim mesmo: “Nossa, como eu queria ter vivido nesta época para ver isso”.

Esse é o lado mágico da profissão que escolhi. Cada jornalista é um repórter do seu tempo. E o que escrevemos é a História de nosso tempo.
E foi justamente o que fiz no dia 8 de julho de 2014, em Belo Horizonte, Minas Gerais.

Torcida fez a sua parte no Mineirão


Eu, Leanderson Lima e Clóvis Miranda (editor de fotografia do jornal A CRÍTICA) chegamos ao Mineirão ainda cedo. Como se tratava de uma semifinal a concorrência era gigantesca. A gente quase amanheceu no estádio. Tudo para evitar qualquer contratempo.
Era o penúltimo jogo antes da final. O Brasil enfrentaria a Alemanha.

Para a imprensa brasileira, um time temido pela qualidade de seus jogadores. Para a Alemanha, pelo menos para os jornalistas alemães com quem conversei, “seria muito difícil passar pelo Brasil”. Afinal, a seleção deles estava jogando contra os anfitriões.

Havia também uma descrença por parte da imprensa alemã em relação a figura do técnico Joachim Löw.

Antes e durante a Copa, ele foi fortemente criticado pela imprensa de seu país. O chamavam de “pé frio” para baixo. Mal sabiam eles o que Löw e seus comandados estavam prestes a fazer história.  

A verdade é que nem os mais otimistas dos torcedores da Alemanha poderiam imaginar o que aconteceu naquele 8 de julho.

O jogo seguiu o script dos outros. Estádio lotado, praticamente todo em verde e amarelo. Hino cantado a capela. Emoção. Mas o que veio a seguir foi o momento mais humilhante da história do nosso futebol.

A Seleção Brasileira já mostrara seu descontrole emocional em outras ocasiões. Lembra do jogo contra o Chile?

Naquele confronto contra a Alemanha o Brasil entrou sem Neymar, o seu maior craque. A responsabilidade toda caiu sobre os ombros do mineiro Bernard. Aquele jogador que tinha “alegria” nas pernas.

Não funcionou. O sonho do hexa começou a ruir aos nove minutos do primeiro tempo.
Primeiro com Thomas Müller que surgiu por trás da defesa brasileira depois de cobrança de escanteio. Lá estava ele, livre leve e solto para marcar o primeiro gol da Alemanha.

Naquela altura pensei: “dá pra virar”. Engano. Aos 22 minutos Miroslav Klose se tornaria o maior artilheiro da história das Copas (16 gols) ao fazer o segundo da Alemanha.

Dali em diante o que se viu foi brutal. Tabelinha e Toni Kroos fez o terceiro. Menos de 25 minutos do primeiro tempo os números já eram de uma goleada. O próprio Kroos fez o quarto, como se fosse um replay do terceiro gol. Sami Khedira deu números finais ao primeiro tempo fazendo o quinto gol da Alemanha. O meu lugar na tribuna de imprensa era justamente o lado da defesa brasileira. Pude ver ali, debaixo do meu nariz, aquele carnaval de gols.

A tristeza era imensa

Atônitos, nós, jornalistas, olhávamos uns para os outros e a única expressão que a gente conseguia dizer era: “Que p... é essa?”

No segundo tempo o pesadelo continuou. André Schürrle fez mais dois. Alemanha chegou a sete. Oscar diminuiu.

Foi quando a torcida deu um show de ironia gritando o clássico: “Eu acredito”. Como se fosse possível virar um jogo daquele.

Aliás, sobrou para todo mundo naquele dia. Depois do quinto gol da Alemanha a torcida mandou a presidente para aquele lugar. E o Fred, que durante a Copa ganhou o merecido apelido de “cone”, foi xingado por um estádio inteiro quando foi substituído. Ele é mineiro, coitado...

Na torcida alemã, obviamente, tudo era festa. Eles cantavam “Rio de Janeiro ôôôôô” - estavam na final. Eles nem quiseram sair do estádio. Talvez por medo de alguma coisa. Talvez porque quisessem ficar ali, afinal de contas, a então seleção tricampeã do mundo havia acabado de escrever uma das páginas mais gloriosas de sua rica história. Vai saber...

Na sala de imprensa havia um silêncio constrangedor. Os próprios jornalistas alemães estavam atônitos com o que acontecera. Os brasileiros, idem. Foi neste clima que escrevi sobre a nossa maior derrota. A mais humilhante de todas.

Como eu disse antes, sempre admirei a história da Copa de 50, o nosso Maracanazo. Sempre quis ter presenciado aquela tragédia. E quando embarquei para Copa, mal poderia imaginar que seria testemunha ocular de uma tragédia ainda maior, sem  precedentes.

Desculpem meus colegas jornalistas que cobriram a Copa de 50 – que todos julgavam o maior de todos os nossos vexames –, mas vexame de verdade foi o que eu vi naquele 8 de junho de 2014.

Um jogo que não vai acabar com a nossa próxima conquista, ou com a reestruturação do nosso futebol, ainda que isso pareça tão longe de acontecer.

Jogos como este são feridas eternas. Sempre lembraremos deste 8 de julho.
 

Vi a pequena torcida alemã fazer a festa

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