Quinta-feira, 26 de Novembro de 2020
PELA SALVAÇÃO

Em busca do porto seguro, São Raimundo encara o Penarol, na Colina

No dia do Descobrimento do Brasil, o técnico Eduardo Clara, que é descendente de portugueses, fala ao CRAQUE do maior desafio de sua carreira: livrar o Tufão da Colina do rebaixamento à Série B do Barezão



cl.JPG Salvação à vista? Clara luta para livra o Mundico da iminente queda (Foto: Evandro Seixas)
22/04/2017 às 09:23

Navegando em águas turbulentas há mais de dez anos, o São Raimundo está cada vez mais próximo de um iminente naufrágio. Com apenas um ponto no Barezão, o Tufão da Colina mira o horizonte em busca de salvação.

No dia do Descobrimento do Brasil (22), o CRAQUE conversa com o técnico Eduardo Clara, que luta de todas as formas para levar o ‘Mundico’ a um porto seguro. Capitaneando a embarcação colinense na última hora, Eduardo Clara, que é descendente de portugueses, revela que livrar o São Raimundo do rebaixamento é a tarefa mais difícil que já enfrentou.



“É o desafio mais difícil da minha carreira. Nunca passei uma situação como essa. Ano passado completei dez anos como treinador profissional de futebol e, graças a Deus, foram dez anos contínuos e agora estou indo pro meu 11º ano e eu nunca havia pegado um desafio tão grande”, disse.

Com duelo marcado com o Penarol, neste sábado (22), às 15h, na Colina, Clara quer mudar a situação do Tufão para, enfim, navegar em águas tranquilas.

“Acho que precisa mudar. Nós já viemos jogando com alguns jogadores e os gols estão sendo sofridos... as derrotas estão vindo e os gols não estão saindo. Então tem que mudar! Pra isso que serve o treinador na equipe”, pontuou o treinador.

Torcida é o melhor marujo

Eduardo Clara, que atuou como jogador por mais de uma década em Portugal, foi enfático ao afirmar que se a embarcação são raimundense ainda flutua é por conta de sua torcida.

“O torcedor do São Raimundo conhece o dia a dia do clube. Ele vem aqui dentro da nossa casa e sabe tudo o que está acontecendo aqui. Sabe os problemas que temos... se o clube está hoje entrando em campo, sem sombra de dúvida, é graças ao torcedor do São Raimundo”, enalteceu o técnico do Tufão.

Por fim, Eduardo Clara, assim como o descobridor Pedro Álvarez Cabral, mantém a fé em levar o São Raimundo à sua “Terra de Vera Cruz” e livrar o time da queda.
“Acredito que  nós, trabalhando um pouco certo, podemos estar nivelando com as demais equipes e podemos surpreender. A diferença de pontuação é grande? Sim, mas são seis jogos ainda e a gente pode surpreender e é nisso que eu acredito até o fim”, finalizou Clara.

Acompanhe mais trechos da entrevista com Eduardo Clara:

Seus antepassados são mesmo portugueses?

R: Meus avós são portugueses. Morreram aqui no Brasil. Minha avó não conheci, mas meu avô eu lembro bem.

Você atuou por dez anos em Portugal, como foi essa passagem pela terra dos nossos descobridores?

R: De aprendizado. Fui muito jovem pra lá e sofri bastante, tive muito problemas de lesão, de tudo. Um jovem que chega em outro país as dificuldades são grandes, mas tive um aprendizado muito grande. Acredito que voltei pra cá com uma bagagem de experiência, não só na área de futebol, como um aprendizado de vida, muito grande, que eu trago até hoje.

Aparentemente muito dessa bagagem no futebol português você trouxe para o cargo de treinador, certo?

R: Busco alguns contatos que tenho até hoje sempre na questão de organização. Penso que tudo o que nós fazemos deve se ter uma organização. A gente procura passar isso no trabalho da gente, no dia a dia e muitas vezes das dificuldades não permitem com que a gente faça da maneira que a gente gostaria. Mas sem dúvida alguma nós insistimos em sempre seguir nesse caminho, no da organização. Organização em todos os sentidos, na observação dos papéis, botar no papel tudo o que é feito. Discutir tudo o que é feito, cumprir horários, os planos de trabalho e saber exatamente os minutos trabalhados por cada atleta e botar no papel e tentar encontrar a melhor forma dentro de uma organização. Óbvio que também existe o fator momento. O futebol é um esporte muito dinâmico e um dia a gente tem, em alguns momentos, de ter jogo de cintura pra estar definindo alguma situação assim rápida.

Há pouco mais de dez anos o São Raimundo disputava a Série do Brasileiro e hoje luta para não cair para a Segundona do Amazonense. O que deu errado e como o clube pode chegar num porto seguro?

R: Acredito que foi uma continuidade muito grande de erros. Quando estive aqui pela primeira vez, em 2013, lá atrás, eu vinha insistindo no mesmo discurso que faço hoje, que é o tal do planejamento, a tal da organização. Se planejar antes pra que não sofra, pra que a gente não saia de uma partida como saímos na última: todos chateados. Para que isso não aconteça temos de fazer o tal do planejamento e esse é o porto seguro, essa é a única forma que eu entendo que um futebol possa ser feito. É você prever o que pode ser positivo e o que pode ser negativo, você trabalhar com uma antecedência muito grande. A gente vive disputando um Estadual que você trabalha quatro, cinco, no máximo seis meses no ano e os outros seis meses do ano também devem ser trabalhados. Primeiramente com a reforça da moradia, trabalhar em busca de transporte, de campos de treinos, de academia, de material esportivo que é pra quando você chegue restante três ou quatros da competição essa estrutura já esteja pronta e esse é o porto seguro que o São Raimundo tem que fazer. Não existe milagre pro porto seguro.

Qual seria o planejamento adequando para que o Tufão possa no ano que vem não ficar à deriva como está nessa temporada?

R: Quando faltar três meses pro início da competição trabalhar com profissionais aqui da região, que existem muitos. Não acho que tem de trazer um profissional de fora, mesmo eu sendo de fora digo isso. Acho que tem de trazer pessoas aqui de Manaus que conhecem os jogadores locais. Montar uma categoria de base com jogadores de 17, 18, 19 anos. Tenho como exemplo meu último clube, o Juventus (Grêmio Esportivo Juventus-SC, ou Juventus de Jaraguá do Sul), onde eu estava e que vendeu um jogador de 17 anos pro Palmeiras, o Jean (Meia-atacante), e isso porque faz um trabalho. Acredito que nesses seis primeiros meses têm de ser feito uma estruturação, que nada mais é do que uma boa reforma na casa, alimentação, transporte, academia, material esportivo. Num segundo passo, iniciar um trabalho com jovens de 16,17,18 e 19 anos ou no máximo 20 anos de idade para que se forme uma base. A partir desse ponto já faltando dois meses para começar essa competição buscar no futebol local, em outros clubes ou no próprio São Raimundo, profissionais que se destacaram, que chegaram, que alcançaram (vencedores) e esse é o porto seguro do São Raimundo. Fazer o contrato desses jogadores, contratar sete, oito ou nove jogadores e juntar com esse grupo selecionado e tenho certeza que esse é o porto seguro do São Raimundo precisa. O último passo, restando um mês pra competição, caso haja necessidade, de um, dois, três, quatro jogadores vindos de fora. Aí sim, fazer essa contratação e é isso que eu acredito que deva ser feito como o porto seguro.

Essa é sua terceira passagem pelo São Raimundo, imaginava que encontraria o clube tão desesperado como está hoje?

R: É o desafio mais difícil da minha carreira. Nunca passei uma situação como essa. No ano passado eu completei dez anos como treinador profissional de futebol e graças a Deus, foram dez anos contínuos e agora estou indo pro meu 11º ano e eu nunca havia pegado um desafio tão grande na carreira como esse. O meu ‘sim’ é por não ter como falar um ‘não’ para um clube que todos sabem da identificação que tenho com o São Raimundo. Todos sabem e não tem como esconder isso. É uma identificação muito grande com a torcida com o clube em si, com a entidade, até mesmo com alguns dirigentes e sem dúvida alguma isso existe e essa identidade não tem como mentir. É transparente. Em 2013 e 2015, quando o São Raimundo tinha uma situação um pouco melhor, o clube me abriu as portas. E nesse momento difícil, como eu poderia dizer não ao São Raimundo, não é? Abri mão de outras situações que tive para falar esse sim, mas sem dúvida alguma é o desafio mais difícil da minha carreira e eu tenho fé que ainda possa ser reversível e acredito que a gente ainda possa de alguma forma se superar e sair dessa situação.

O que você acha que não foi feito nos anos anteriores para tentar evitar o que está ocorrendo atualmente?

R: Pra mim, foram erros desde 2013. Só que lá em 2013, a coisa ainda deu certo porque mesma coisa não sendo planejada com quatro, cinco meses de antecedência, nós tivemos um mês e meio para planjenar. Eu vim pra cá, nós tivemos aqui, eu e o Ronaldo Sperry (preparador físico), em 2013, tivemos um mês de treinamento com o elenco todo na mão. Nós fizemos um primeiro turno invicto, classificamos em primeiro lugar. Isso mostra que o trabalho deu certo, mas mesmo lá existiram erros porque não existiu esse planejamento em alto nível. No entanto, existia uma forma melhor de trabalho do que está sendo hoje. Hoje a dificuldade é muito maior. Foi feito um planejamento aqui, com uma ideia de botar jogadores inexperientes - não estou aqui julgando ninguém -, mas obviamente não deu certo. O resultado mostrou que não deu certo. No meio do caminho tentamos ver alguns jogadores da noite pro dia. Jogadores que desceram do avião e foram jogar, e obviamente a chance de isso dar errado é muito grande, no meu modo de ver. O que se faz agora? Tentar superar! Melhorar de alguma forma pra sair dessa situação. Agora o tal do planejamento que eu citei lá atrás, que é você fazer um planejamento profissional com prazo, botar no papel a longo prazo com cinco, seis meses, isso ainda não foi feito na equipe do São Raimundo. E esse discurso eu falo desde 2013 no dia que cheguei aqui.

Como o São Raimundo deve encarar o Penarol neste sábado para tentar alavancar uma possível reação na fuga do rebaixamento?

R: Acho que precisa mudar. Nós já viemos jogando com alguns jogadores e os gols estão sendo sofridos... as derrotas estão vindo e os gols não estão saindo. Então tem que mudar! Pra isso que serve o treinador na equipe. A gente não tem estar aqui tratando o grupo de forma diferenciada, procuro tratar todos de igual pra igual e se um determinado jogador, infelizmente, por algum motivo não está dando certo, a gente tem de dar oportunidade pra outro acreditando que a coisa pode melhorar. Acho que é assim que se faz e é uma maneira de a gente procurar trabalhar com justiça dentro do elenco, dando oportunidade a todos.

Restam seis jogos até o fim da primeira fase do Estadual, tem como pontuar jogos chaves para tentar escapar da degola?

R: O que nós deveríamos fazer, e aqui fizemos, é uma projeção de resultados e isso é óbvio. Mas isso fica no papel não é? E nossa situação hoje ela é muito mais agravante. Nossa equipe fez apenas dois gols no campeonato. Nossa equipe tem uma dificuldade muito grande em fazer gols e está sofrendo muitos gols. Então o primeiro passo é tentar encontrar uma forma que a equipe consiga ser competitiva nos 90 minutos, e aí sim, no término da partida conseguir de alguma maneira somar os pontos e o ideal que seja a vitória. Depois tentar fazer algum tipo de planejamento, porque hoje fazer planejamento de resultados, acho que não é viável. Nossa dificuldade está muito maior do que isso.

Caso o São Raimundo caia para a Série B, existe a possibilidade de você voltar no ano do centenário do clube para uma reviravolta?

R: A gente vive num esporte, que é o futebol, que é muito dinâmico e uma coisa que deixo claro é esse elo que a gente tem com o São Raimundo. Ele é muito grande e sempre vai existir. Mas isso cabe, caso aconteça esse descenso, que tem que existir uma grande reforma. Uma reforma estrutural muito grande.  Todo esse planejamento, que falei anteriormente, tem que existir e talvez isso seja uma alavanca que possa mudar essa ideia, e o clube possa dar esse passo importante que seria fazer um planejamento diferenciado, de alto nível, para mais na frente colher frutos. Obviamente que a gente gostaria sempre de estar podendo colaborar com o clube, que é um clube que a gente tem muita ligação.

A torcida do São Raimundo é apaixonada pelo clube, acha que o torcedor sãoraimundende é o melhor "marujo" nessa embarcação chamada Tufão da Colina?

R: Sempre foi! Não tenho a menor dúvida. O torcedor do São Raimundo conhece o dia a dia do clube. O torcedor do São Raimundo vem aqui dentro da nossa casa e sabe tudo o que está acontecendo aqui. Ele sabe os problemas que temos. O torcedor é o grande bem que o São Raimundo tem. Muitas vezes, dentro do futebol aqui no Amazonas, conversando com alguns colegas, eles falam que o patrimônio é o estádio da Colina, que vai retornar ao clube em alguns anos. Dizem que esse é o maior patrimônio do clube e eu digo que não! O maior patrimônio desse clube é a torcida. São quatro torcidas organizadas que se reuniram e formaram uma entidade, como se fosse uma comunidade unindo as quatro torcidas e isso é fantástico. Esse sim é o maior patrimônio do São Raimundo e nunca vai morrer, mesmo com todas as dificuldades. O São Raimundo pode cair e acontecer o que for, mas eles vão sempre existir. Se o clube está hoje entrando em campo, sem sombra de dúvida, é graças ao torcedor do São Raimundo.

Nessa turbulenta luta para escapar do naufrágio, você consegue mirar no horizonte e ver a salvação do São Raimundo?

R: Eu consigo! Acredito que - não vamos diferenciar -, mas temos o Rio Negro, como uma grande equipe, indiscutível. O Fast, com uma grande equipe. O Nacional também com uma bela equipe e com uma estrutura fantástica. O Princesa, com aquele time sempre aguerrido. Mas acredito que as demais equipes - que estão na nossa frente também -, mas nós trabalhando um pouco certo, a gente pode estar nivelando com eles e podemos estar surpreendendo. A diferença de pontuação é grande? Sim, mas são seis jogos ainda e a gente pode surpreender e é nisso que eu acredito até o fim.

 

 
 


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