Terça-feira, 13 de Abril de 2021
Pioneira

Syria Flores: conheça a história da primeira árbitra do futebol amazonense

Apesar de, neste ano, se completar 10 anos da morte de Syria, seu legado permanece como patrona da escola de arbitragem da Federação de futebol local.



especial_esportes_00_6B271009-781A-48BC-9CAD-1AA5FA7AB4D0.jpg Foto: Arquivo Pessoal
03/04/2021 às 13:50

O quadro de arbitragem amazonense conta com dez mulheres: uma árbitra - com a chancela da Confederação Brasileira de Futebol - e nove assistentes - três delas com a mesma chancela da CBF - e, a cada ano que passa, a presença feminina à beira do campo aumenta. Mas para que isso acontecesse, a estrada foi pavimentada anos atrás pela pioneira Syria Flores, que foi assistente e árbitra da Federação Amazonense de Futebol (FAF) e da CBF. Syria atuou até o fim de 2010, quando se afastou para tratar de um câncer no estômago que a levou em 17 de março de 2011, aos 37 anos. Apesar de, neste ano, se completar 10 anos da morte de Syria, o legado dela permanece até hoje como patrona da escola de arbitragem da Federação local.

Syria iniciou a carreira na arbitragem em 1999, quando ingressou no curso para árbitros da Federação Amazonense de Futebol. Em 2002, ela passou a integrar o quadro da CBF e, a partir de então, passou a atuar em partidas da Copa do Brasil e jogos do Campeonato Brasileiro, Séries C e B – à época ainda não existia a Série D. Foi também durante este período que ela se preparou para tornar-se árbitra principal, chegando a ter seu nome pré-selecionado para passar pela seletiva para o quadro da Fifa, porém, não chegou a passar pelos testes, já que adoeceu antes.



"A CBF acompanha os árbitros através dos seus analistas. Eu mesmo sou analista de arbitragem da CBF e acompanhamos o trabalho e o desempenho de cada árbitro do Brasil e selecionamos para que seja feito os testes físicos. Ela (Syria) era uma das pessoas indicadas para a CBF indicar à Fifa, para entrar para o quadro da Fifa, onde ela passa por todos esses testes físicos, uma prova, assim como tem no teste da CBF, que todos fazem anualmente para validar o ano e, quem passar, trabalha nas categorias em que são integrantes”, explicou o vice-presidente da Comissão de Arbitragem da FAF, Raimundo Nonato da Silva.

“Infelizmente, o documento com o convite para a realização dos testes oficiais chegou alguns meses depois do desencarne dela”, lamentou a irmã de Syria, Siderlândia Flores.

Foto: Arquivo Pessoal

Erros que levaram à arbitragem

O primeiro contato de Syria com o futebol foi como jogadora. Apaixonada por esportes, ela praticou várias modalidades, mas ainda jovem se decidiu pelo futebol. Manacapuruense, a jovem atuou no Radar Esporte Clube, de Manacapuru, e chegou a jogar pela seleção da cidade. De início, ela jogava no ataque, mas pela carência de jogadoras em algumas posições, ela acabou virando goleira, onde se destacou.

“Seus últimos jogos como jogadora foram em 97 e 98. Mas ela se incomodava muito com os erros claros realizados em nossos jogos, aí tomou a decisão de ingressar no quadro de arbitragem, onde conseguiu entrar com louvor, já que era uma mulher rápida, esperta e inteligente”, conta Siderlândia.

Foto: Arquivo Pessoal

Uma vez no curso, não demorou muito para que Syria pegasse gosto pela nova função e o fato de ser uma das poucas mulheres, em um meio dominado por homens, dava ainda mais força para que ela continuasse.

“Falar de Syria Flores é muito fácil. Ela foi uma mulher extraordinária, uma das pioneiras da arbitragem do Amazonas e que elevou o nome da arbitragem do Amazonas ao cenário nacional, trabalhando com muita dedicação e superação. Foi determinada e comprometida com o que fazia e tinha um amor exemplar pela profissão de árbitra de futebol. Como sempre, desde o início, foi muito difícil o preconceito, que ainda existe com a arbitragem feminina, mesmo que nós tenhamos evoluído muito”, explicou Raimundo Nonato.

Pulso Firme

Apesar do reconhecimento e elogios, Syria Flores passou por momentos difíceis na carreira, onde precisou de muita determinação para seguir.

Dentro de campo, por exemplo, a bandeirinha teve seu nome citado em uma representação do Nacional em agosto de 2007, juntamente com Milton Cézar Silva por erros que, segundo a diretoria, prejudicaram o clube azulino na derrota por 3 a 1 contra o Fast, pela Série C. No mesmo ano, mas na final do torneio início do Campeonato Amazonense, ela mandou voltar uma cobrança defendida pelo então goleiro do São Raimundo, Weber, contra o Princesa do Solimões. Revoltados com a decisão, os jogadores do time da Colina tiraram o time de campo. A época, para o jornal A Crítica, ela disse que não se intimidava com xingamentos de jogadores ou torcedores.

Patches e cartões que Syria usava. Foto: Arquivo Pessoal

“Já ouvi muita coisa durante a vida. Hoje faço parte da Comissão Nacional de Arbitragem (CNA) e sei que posso crescer mais. Estou com a consciência tranquila”, declarou à época.

Apesar da agressividade que enfrentou dentro e fora dos campos não abalar Syria, os episódios recorrentes afastaram um pouco a família dela dos estádios, na época em que ela apitava os jogos.

“Meus pais tinham muito orgulho dela, porém, foram poucas vezes assistir seus jogos. Até que nossa mãe esteve em um jogo que, a cada 10 palavras ditas pela torcida à ela, 11 eram palavrões, e isso foi durante o jogo todo. Depois desse evento eles nunca mais foram aos jogos dela”, relembra a irmã.

Homenagem

Após a morte da árbitra amazonense, em 17 de março de 2011, a Federação Amazonense de Futebol decidiu homenagear a escola de arbitragem com o nome de Syria Flores.

“Nada mais justo do que escolher esse nome na escola, em homenagem a essa pessoa maravilhosa, que foi a Syria Flores”, comentou Raimundo Nonato sobre a homenagem, que hoje enche a família de orgulho por representar um legado da ex-árbitra.

Foto: Arquivo Pessoal

“É complicado falar, temos orgulho, não posso negar. Porém, nós vimos ela passar por cada situação para poder fazer o que mais amava. No início, meus pais não aceitaram muito bem essa homenagem, tanto que somente o filho mais velho dela foi para inauguração. Já hoje, eles vêem como um reconhecimento. Tardio, mas um reconhecimento”, relatou Siderlândia.

Legado na família

O ingresso de Syria na carreira de árbitra influenciou a entrada das outras duas irmãs no curso de arbitragem da Federação Amazonense de Futebol: Siderlândia e Fabiana. O sonho das três irmãs era formar um trio de arbitragem em família, mas o sonho não chegou a se concretizar.

“Me formei um ano antes dela morrer, antes de minha graduação na faculdade. Mas não tinha como eu seguir na arbitragem (após a morte de Syria). Não conseguia, nem eu e nem a Fabiana (nossa irmã do coração e adotada por nossos pais). Nenhuma de nós duas conseguimos continuar na arbitragem, porque o sonho era ter as três irmãs juntas: a Syria apitando e eu e a Fabiana auxiliando, mas esse sonho morreu junto com ela”, lamenta Siderlândia.

Syria deixou dois filhos: Matheus e Sophya. O mais velho chegou a jogar futebol, mas parou quando a mãe adoeceu e não voltou mais. Já Sophya cursa veterinária, mas sonha em, um dia, cursar educação física em homenagem à mãe, que era formada na área e foi professora.

“Me sinto um filho muito orgulhoso da mãe que ela se tornou. Sempre que tenho a oportunidade de comentar sobre ela, encho a boca para falar, pois existem muitas pessoas que reconhecem a mulher, a mãe, a irmã, a filha e a profissional que ela sempre foi”, declarou o filho mais velho de Syria, Matheus.


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