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‘Tem que saber jogar sob pressão’, diz campeão olímpico do vôlei, Tande, em entrevista

Adepto da prática de 'trocar o certo pelo incerto' para correr atrás dos sonhos, Tande foi um dos mais talentosos jogadores do dream team brasileiro do vôlei 08/11/2014 às 11:59
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Ex-jogador falando sobre a sua rotina agora como repórter e comentarista de televisão
Felipe de Paula ---

Alexandre Ramos da Silva. O nome, posto assim, não deve causar muita reação em quem ouve. Já o apelido, Tande, uma referência em todo o mundo do voleibol e do esporte brasileiro, rapidamente remete à imagem de um gigante, cujo tamanho, porém, é apenas o primeiro aspecto de sua grandeza.

Aluno reprovado duas vezes na escola, “condenado” pelo pai a ser lixeiro caso não estudasse, adepto da prática de “trocar o certo pelo incerto” para correr atrás dos sonhos, ele foi um dos mais talentosos jogadores do dream team brasileiro que encantou o mundo e conquistou as Olimpíadas de Barcelona em 1992.

Hoje, comentarista do Esporte Espetacular, da Rede Globo, ele também é um palestrante requisitado por empresas que querem desenvolver virtudes como liderança, motivação e eficiência em seus colaboradores.

Em passagem por Manaus na última sexta-feira para falar aos corretores de imóveis da Construtora Colmeia, em cerimônia realizada no Centro de Convenções Diamond, no Tarumã, o campeão olímpico concedeu entrevista exclusiva ao CRAQUE e até lembrou que já morou na cidade, entre os anos de 1980 e 1981.

“Meu pai era militar e eu morava no (bairro) São Jorge. Adorei minha infância aqui. Andava descalço, soltava pipa, andava de carrinho de rolimã... eu tenho um carinho muito grande pela cidade”, confidenciou o agora comentarista, que costuma comparar a vida de atleta com “as maratonas” jornalísticas na TV Globo. “Eu jogo final de Olimpíada quase todo dia na televisão”, disse ele.

Entre o assédio da plateia, ávida por fotos e autógrafos do ídolo, e acompanhado da paciente namorada, a empresária Tatiana Pansini, Tande falou sobre a carreira no vôlei, a ausência de títulos brasileiros importantes nos últimos quatro anos e projetou a participação brasileira nos Jogos Olímpicos de 2016, no Rio de Janeiro.

O que sua experiência como atleta tem a ensinar ao mundo corporativo?

A ter liderança no que você faz, a você saber que você pode falhar sim, e aprender com os erros para tentar melhorar numa próxima. Eu falo sempre isso: eu passei por várias situações (difíceis): fui cortado de seleção infanto-juvenil, reprovei na escola... se eu tivesse desistido lá atrás, não estaria aqui te dando entrevista hoje. Em minha palestra, eu abordo questões motivacionais, espírito de equipe, falo sobre como correr atrás dos sonhos às vezes implica em trocar o certo pelo incerto, sobre aprender a lidar com as derrotas e sobre a importância do aprimoramento. O esporte é uma escola pra vida e é isso que eu passo.

Agora vamos falar de voleibol. Desde 2010, que a Seleção Brasileira de vôlei masculina não conquista nenhum título expressivo no cenário mundial, tendo batido na trave nas últimas competições. Alguns críticos já começam a falar em crise, o que você diz?

São muitos anos vencendo... As pessoas querem o ouro, por estarem tão acostumadas a isso. Mas se você for pegar o histórico do Bernardinho, do José Roberto Guimarães, acho difícil ter algum treinador do mundo que tem um currículo tão vencedor no esporte. Acho que o principal disso tudo é a gente perguntar: o que é crise? A crise é o segundo lugar? Terceiro lugar? Bernardinho não sai do pódio. Isso é uma injustiça! Se eu não me engano, é a sexta geração que está vindo na mão dele. Acho que agora é um momento de mudança no cenário, ali ainda está meio (do trabalho). Nas Olimpíadas, o Brasil pode sair em segundo, em terceiro, ser eliminado, pode, mas também tem grandes chances. Mas eu acho que um trabalho bem feito sempre está ali nas cabeças. O vôlei feminino, vôlei masculino, sempre está ali por isso.

Mas se fosse para analisar de um ponto de vista crítico, o que falta ainda nesta Seleção que explicaria os últimos resultados?

Acho que hoje ainda estão faltando algumas peças. O Murilo está vindo de contusão. O Dante saiu. São jogadores que tinham um respeito no cenário mundial. É uma nova equipe chegando, uma nova seleção e que, realmente, ainda vai amadurecer. O Lucarelli fez um belo mundial, (ele é) novo também, mas tem que rodar, tem que rodar pra começar a mostrar pro mundo que nós somos os melhores e que podemos vencer. No momento que você começa a acreditar no seu potencial, é muito legal, você ganha moral e diz ‘caramba, tá fácil de jogar’!

E as próprias derrotas podem servir de motivação, não?

Sim, isso (últimos resultados) mexe cada vez mais com o Bernardinho. Ele deve ter saído desse mundial e deve ter visto umas 300 vezes a final contra a Polônia, a (eliminação) na Liga Mundial contra os Estados Unidos, que eles mesmos venceram logo depois por 3 a 0, no Mundial... então isso aí faz parte. Times mais maduros jogando com times menos, aprendendo a jogar. Estamos agora no momento de entressafra, novos jogadores aparecendo, ainda resolvendo as posições. Por mais que sejam 12 jogadores jogando ali, o time ainda não tem uma formação fixa. O Wallace joga, se não estiver bem, entra o Lucarelli, se esse não joga, vem o Murilo. Acho que ainda falta um ponteiro passador pesado pra ajudar o time, por exemplo. Acho que a função que está mais tranquila são os meios, que na minha geração não eram excepcionais, tanto é que o (Marcelo) Negrão e o Carlão ficavam revezando no meio, um bloqueava, outro atacava. Nós não tínhamos meio, nós ganhamos aquela Olimpíada (Barcelona, 1992), com Paulão, Carlão e Marcelo Negrão revezando no meio.

E qual o gosto de subir no alto do pódio numa Olimpíada?

É uma coisa mágica! É mágico porque... eu até falo isso sempre: eu reprovei dois anos na escola, então me apaixonei pelo voleibol e me dediquei muito, apesar de eu não gostar muito de treinar no começo. O técnico, Bebeto de Freitas, que foi quem na época começou com a gente, falava muito isso: “Tande não quer nada”. Mas eu tinha um prazer de jogar muito grande: eu tinha uma facilidade, eu era muito habilidoso, e por outro lado, treinar pra mim era péssimo. Só que o treinamento me dava condições de jogar em alto nível por muito tempo dentro de uma competição longa. E eu me lembro que eu fui no juvenil e fui bem, bem, fui chegando na semifinal, final, fui caindo, e aí eu tomei até uma bronca: “Você tem que melhorar teu físico, ficar mais forte, mais resistente”. Aí que é engraçado: quanto mais velho eu fui ficando, fui para o vôlei de praia, mais eu gostei de malhar, de correr. Então, pra você chegar ali, passa um filme na sua cabeça: passa o pai, falando “você vai ser lixeiro” (risos). Ao mesmo tempo, o Brasil não estava num momento legal, o Brasil era tricampeão só do mundo, só foi ganhar o tetra em 94. As pessoas não estavam crédulas no Brasil, não acreditavam que o Brasil poderia crescer de novo, e nós aparecemos, nem nós esperávamos aquele título. Éramos muito jovens!

Voltando ao último mundial, o que você achou da polêmica envolvendo o regulamento da competição, que mudou no meio do campeonato, situação muito criticada pelo técnico Bernardinho. Você acha que há um incômodo na comunidade internacional do vôlei com a hegemonia brasileira?

De repente... mas não sei se é incômodo. Acho que se mudou, mudou pra todo mundo. Eu acho que a gente tem que tentar cada vez mais ir aprendendo com as novas regras e os novos objetivos.

E qual sua expectativa real para o vôlei brasileiro nos Jogos Olímpicos de 2016, dentro de casa?

Primeiro, tem que montar um time. O time tem que estar jogando demais, tem que estar maduro, pra poder chegar numa certa hora e conseguir ter tranquilidade pra jogar no Brasil porque vai ter uma pressão igual ao que o futebol teve. Então tem que saber jogar sob pressão, saber que vai ser um absurdo e o voleibol dentro das Olimpíadas é um dos carros-chefe, então todo mundo vai estar com o olhinho na quadra.

É muito difícil jogar em casa?

É pressão total, né? Eu nunca joguei Olimpíadas (em casa), claro, mas já joguei Liga Mundial. Realmente é uma pressão absurda!

Última pergunta. Você já morou em Manaus, certo? Lembra desse período?

Adoro Manaus, minha infância foi aqui... acabei até de encontrar uma amiga da minha irmã que jogou com ela. Então é um carinho muito grande que eu tenho por Manaus, aquela época da Zona Franca. Todo tempo descalço soltava pipa, rolimã no São Jorge, então, tenho um carinho muito grande.

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