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Time de garotos do Novo Israel supera barreiras estruturais e financeiras

Os Príncipes da Fé, do Novo Israel, carregam a realeza apenas no nome e nas atitudes. O time começou a se preparar para o Peladinho no Parque dos Bilhares, na Chapada, Zona Centro-Sul da cidade 04/10/2013 às 10:06
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O local escolhido foi um terreno abandonado no bairro, conhecido como “Barral”
jornal a crítica ---

Garotos do Novo Israel arregaçaram as mangas para montar centro de treinamento e transformar um lixão em campo Disputando o Peladinho pela primeira vez, os Príncipes da Fé, do Novo Israel, carregam a realeza apenas no nome e nas atitudes. Utilizando-se da simplicidade de meros “plebeus”, o time vem conseguindo superar barreiras estruturais e financeiras, o que demonstra a nobre capacidade que o esporte tem de mudar realidades.

Sem campos ou complexos esportivos para treinar no Novo Israel, o time começou a se preparar para o Peladinho no Parque dos Bilhares, na Chapada, Zona Centro-Sul da cidade. Porém, como boa parte dos atletas não tinha condições de pagar as duas passagens de ônibus necessárias para ir e retornar dos Bilhares, a equipe precisou pensar em uma alternativa.

E na base da força de vontade, o time construiu seu próprio “Centro de Treinamento” há três semanas. O local escolhido foi um terreno abandonado no bairro, conhecido como “Barral”. Na área - que era utilizada como lixão por moradores e empresas e ponto de consumo de drogas por usuários - surgiram dois campos improvisados de terra batida, mas que estão sendo muito úteis para os Príncipes da Fé.

A construção consumiu um dia inteiro de atletas e amigos da equipe. Com bambus encontrados na área de mata próximos ao “Barral”, foram erguidas traves, amarradas por pedaços de arame e que ainda caem quando acontecem chuvas fortes, como a da última segunda-feira.

Pneus que foram descartados no lixo se transformaram em “aparelhos” para os treinos. Bocas de lobo, terçados e pás emprestadas por moradores, se tornaram “máquinas de construção” nas mãos da garotada.

A empolgação com o novo espaço é tanta, que nem as pedras e o barro ressecado do chão são vistos como obstáculos para os jogadores. Alguns vão além e encaram o “piso” descalços. “Já conhecemos todos os atalhos do campo, principalmente os ‘catombos’ (risos)”, disse o treinador da equipe, Itamar Oliveira.

A ausência de um complexo esportivo no Novo Israel é problema recorrente no bairro. Há alguns anos atrás, havia um campo muito utilizado pelos moradores, ao lado de onde hoje é o “Barral”. O antigo espaço, porém, deu lugar a fábrica da empresa Pionner, há cerca de cinco anos. “Acabaram com o campo do bairro e não construíram nada no lugar. Uma grande área foi desmatada para a instalação da fábrica e este terreno aqui estava abandonado e sendo muito utilizado por marginais, já que aqui é uma área vermelha”, relembrou Itamar.

Os campos montados pelos Príncipes da Fé há três semanas, já ajudam no lazer dos moradores do Novo Israel. Mas o sonho de ter um centro esportivo estruturado no bairro permanece vivo. “As autoridades podiam fazer alguma coisa pela gente. Não precisava nem ser muito. Se mandassem uma máquina para terraplanar este terreno e jogassem um pouco de areia, ficaria perfeito. Tenho certeza que não custa tanto assim”, reivindicou o treinador.

Os Príncipes da Fé acumulam duas derrotas nos dois jogos disputados pelo Peladinho 2013. Entretando, na questão de cidadania, estão vencendo de goleada.

Meninos sonham com vida de astros

O Príncipes da Fé surgiu a partir de uma atividade desenvolvida pela Comunidade Apostólica Viva do Novo Israel. O objetivo inicial do projeto era utilizar o esporte como alternativa para que a garotada apaixonada por futebol no bairro trilhasse um caminho longe de drogas e outros males sociais. A boa ideia de disputar o Peladinho veio neste ano.

Alguns dos atletas do clube tem histórias curiosas. O volante Leonardo Batista, 13, carrega o apelido de “Funai”, por ser da etnia saterê-Mawé. Fã do futebol de Cristiano Ronaldo, ele é um guerreiro em campo. Já o veloz ponta-esquerda Geovanne Lima, 13, não se destaca apenas com gols e assistências dentro de campo.

Geovanne também compete no atletismo e já tem boas marcas no outro esporte. Com a marca de 9s20 ele é o atual campeão escolar do Amazonas nos 75 metros rasos, categoria mirim. Nos Jogos Escolares Brasileiros, realizados recentemente em Natal, Geovanne ficou com a 13ª colocação, entre os 27 participantes. “Fico dividido, mas se tiver que escolher por um, vou seguir no atletismo, que pode me dar um futuro melhor aqui no Estado. Me espelho muito no Sandro Viana, que foi uma cara que saiu daqui e disputou duas olimpíadas. No futebol, gosto de ver o Cristiano Ronaldo jogar”, garantiu o jogador-velocista.

O habilidoso meia Jackson Teixeira, 12, já chegou a disputar torneios no Rio de Janeiro e segue em busca do sonho de ser um jogador de futebol. E como não poderia deixar de ser, os apelidos também tomam conta dos Príncipes da Fé. Tem o Bolacha, o Beterraba, o Cirilo. O goleiro reserva Patrick Silva (foto) ganhou a alcunha de Arnold, pela semelhança com o personagem da série americana dos anos 80 exibida até hoje no Brasil.

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