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2º Encontro de Piaçabeiros resgata tradição no município de Barcelos, no Amazonas

Retirados de uma situação análoga ao trabalho escravo após fiscalização do MPT, os piaçabeiros estão reaprendendo a viver da natureza duarante encontro 08/11/2014 às 15:33
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Presidente da comunidade de Romão, Marilene dos Reis revelou que, depois de resgatados da ‘escravidão’, piaçabeiros estão descobrindo novas alternativas
Jornal A Crítica Barcelos (AM)

“Eu não sabia, mas a gente não depende só da piaçaba pra viver. Todo mundo aqui trabalhava no piaçabal. Só que tem outras coisas na comunidade, como roça, criação de galinha e porco”. Essas foram as palavras da presidente da comunidade de Romão, Marilene dos Reis, 33, no quarto dia do 2° Encontro de Piaçabeiros no Município de Barcelos (a 399 quilômetros de Manaus), que acontece até o próximo dia 13 de novembro, ao longo dos rios Aracá, Padauirí e Preto.

A extração da fibra da piaçaba é uma das principais atividades econômicas do município. Recentemente, piaçabeiros foram retirados do trabalho, por se encontrarem em situação análoga à escravidão, identificada em operação do Ministério Público Federal, entre os meses de abril e maio deste ano, em Barcelos. Isso fez com que todo o processo produtivo ficasse suspenso.

Os irmãos de Marilene trabalham cortando piaçaba desde que o pai morreu para poder sustentar a família. Agora, com a suspensão da atividade, eles buscam outras formas para obter uma renda.“Eles estão trabalhando na roça e tem mais retorno do que a piaçaba. Às vezes, passavam mais de um ano no piaçabal e sempre voltavam mais endividados. Hoje eles fazem a farinha, vão vender e é dinheiro na hora”, disse Marilene.

Como outros moradores da comunidade, Marilene e os irmãos não puderam estudar. Desde cedo, aprenderam a viver daquilo que piaçaba lhes proporcionava. Após a operação do MPF e a conscientização das condições indignas de trabalho a qual estavam submetidos, eles buscam alternativas para sobreviver pelo menos até a regularização da atividade há anos ensinada pelo pai. “Eu não gostei da minha infância. Não era isso que eu queria. Meu sonho é terminar meus estudos. Quero melhor e depois ajudar minha comunidade”, revelou Marilene.

Fortalecimento

O objetivo do encontro é incentivar a organização social dos trabalhadores, discutir políticas públicas e relações trabalhistas. Isso faz parte de um conjunto de ações articuladas do Governo do Amazonas, por meio da Secretaria de Estado de Meio Ambiente (SDS), e parceirospara o fortalecimento da cadeia produtiva da piaçaba no Rio Negro.

Para o Procurador do Ministério Público do Trabalho (MPT), Jeibson Justiniano, a identificação de quem são os trabalhadores da piaçaba é fundamental. “É importante identificar quem é trabalhador da atividade, para que o MPF possa, em parceria com as instâncias do governo, buscar uma forma de manter essas pessoas com algum sustento e algum padrão de dignidade, a fim de que haja um período de adaptação e de organização, por meio do cooperativismo e do associativismo, para que possam se organizar e assim fazer frente àquele que possa se utilizar de sua atividade produtiva”.

Emissão de documentos

A emissão de documentos, como RG, CPF e carteira de artesão faz parte do processo de regularização das relações de trabalho. Desde julho, já foram emitidos mais de 1.100 documentos. Foram entregues 500 cestas básicas, das 1500 que serão doadas ao longo de três meses aos piaçabeiros, que antes recebiam essa alimentação através de aviamento ou escambo com valores muito acima do mercado, principal moeda de troca do atravessador para a aquisição de toneladas de piaçaba. O auxílio foi uma demanda dos próprios trabalhadores que não encontraram emprego fora dos piaçabais.

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