Terça-feira, 17 de Setembro de 2019
FUTURO INCERTO

'Amazônia pode se transformar em uma imensa caatinga', alerta especialista

Em tempos onde ‘esquentam’ as relações entre o governo brasileiro e o Primeiro Mundo, especialistas alertam que, se seguir as tendências atuais, a temperatura pode ter aumento de 4°C na região amazônica entre 2060 e 2070



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09/09/2019 às 16:34

Não há como dissociar a floresta amazônica, conhecida como “pulmão do mundo”, das transformações pelas quais o planeta está passando gradativamente. O futuro se revela preocupante demais ao se tratar do ecossistema e para onde ele caminha. E, ao que parece, é em passos largos a um cenário dramático ao falarmos de uma Amazônia que ganhou os olhos do mundo definitivamente com as acentuadas queimadas que, literalmente, também acabaram “esquentando” os ânimos entre o presidente da República, Jair Bolsonaro, e os chefes de Estado da França e da Alemanha.

Mas, o problema é bem maior e pode ter proporções gravíssimas, apontam estudiosos especialistas da floresta amazônica. Um principal alerta vem do professor norte-americano Philip Martin Fearnside, 71, doutor pelo Departamento de Ecologia e Biologia Evolucionária da Universidade de Michigan (EUA), pesquisador titular do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) e membro da Academia Brasileira de Ciências e também coordenador do INCT (Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia) dos Serviços Ambientais da Amazônia.

Um dos “papas” da ciência e tecnologia amazônicas, ele vem alertando há cerca de um ano que, se continuar o patamar atual, o futuro da Amazônia é se transformar em uma imensa caatinga, bioma brasileiro que apresenta clima semiárido, vegetação com pouca folhas e período seco.

“Em 2018, um trabalho liderado pelo Gilvan Sampaio, do grupo de pesquisa de Carlos Nobre (que é conhecido por sempre ser muito cauteloso), avaliou os diferentes cenários climáticos gerados pelo Painel Intergovernamental para Mudanças Climáticas (IPCC, a partir do conjunto CMIP5 de modelos climáticos) em termos do aumento da temperatura média em 4°C na Amazônia. As duas tendências atuais indicam chegar a um aumento de 4°C na região entre 2060 e 2070. Na análise, a temperatura ia subir em 4°C e depois ficar permanentemente fixa neste nível de aquecimento, o que é uma presunção muito otimista, sendo que os modelos indicam a continuação do aumento da temperatura”, explica Fearnside, que vive em Manaus desde 1978.


Crise na Amazônia acontece em meio a 'ânimos esquentados' entre Bolsonaro e líderes europeus, como o presidente da França, Emmanuel Macron. Foto: Reprodução/AFP

“Neste cenário, a Amazônia brasileira se transforma não em cerrado, mas em caatinga! A transformação da vegetação não seria imediata ao chegar aos 4°C de aumento, mas ao longo dos anos a vegetação se ajustaria para este novo equilíbrio”, diz ele para A CRÍTICA. “Dezenas de milhares de espécies, quase tudo que for vivo não vai resistir a essas mudanças”, destaca o especialista.

Ele lembra que muito da água que chega por meio de chuvas no Centro-Sul do País vem daqui. “E se a Amazônia for convertida em pastagem ou então se virar caatinga com as mudanças climáticas, então não mais essa água será transportada para lá. Essa é uma razão muito básica para o não-desmatamento”, diz Fearnside, ao destacar o possível desabastecimento de cidades e o impacto na agricultura.

O que é a caatinga?

De acordo com a organização não governamental WWF, a caatinga ocupa, atualmente, quase 10% do território nacional, com 736.833 quilômetros quadrados e abrangendo os Estados do Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco, Sergipe, Alagoas, Bahia, Sul e Leste do Piauí e Norte de Minas Gerais.

“Cerca de 20 milhões de brasileiros vivem na região coberta pela Caatinga, em quase 800 mil km2 de área. Quando não chove, o homem do sertão e sua família precisam caminhar quilômetros em busca da água dos açudes. A irregularidade climática é um dos fatores que mais interferem na vida do sertanejo. Mesmo quando chove, o solo pedregoso não consegue armazenar a água que cai e a temperatura elevada (médias entre 25°C e 29°C) provoca intensa evaporação. Na longa estiagem os sertões são, muitas vezes, semidesertos que, apesar do tempo nublado, não costumam receber chuva”, informa a organização não-governamental.


Especialistas dizem a temperatura da Amazônia pode ter aumento de 4°C entre 2060 e 2070. Foto: Reprodução/Internet

Cooperação das nações é primordial

O território da Amazônia compreende 9 países, portanto o futuro depende da cooperação dessas nações em conjunto  contra as pressões externas. Avaliando como essas nações vem utilizando os recursos naturais amazônicos ao longo do último século, fica claro que deixam a desejar em muitos fatores. É o que dizem Bianca Weiss Albuquerque, doutoranda em Ecologia pelo Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) e Guilherme Lobo, biólogo mestre em Ecologia pelo órgão federal.

“Muito já foi perdido, sem ao menos ter sido catalogado, principalmente na região Leste e Sul da Amazônia, onde o movimento agropecuário oportunista devastou 20% do território nos últimos 50 anos. No presente, estamos tomando decisões equivocadas contra a própria soberania da Amazônia, são atos que enfraquecem o monitoramento e controle e promove o uso indiscriminado dos recursos naturais. Isso permeia num cenário futuro pouco promissor devido à falta de entendimento do potencial da Amazônia como fator de promoção do bem-estar social através dos serviços ecossistêmicos.Para contribuir com o cenário favorável da Amazônia precisamos nos unir levando a sério os povos tradicionais que já vivem e utilizam há séculos os recursos provenientes da floresta, além da própria ciência que já colaborou e continua colaborando com diversos descobrimentos que indicam alternativas de como balancear o uso de recursos e conservação ambiental”, explicam os especialistas.

A Amazônia pode e deve servir como exemplo mundial de conciliação da conservação ambiental e uso sustentável de recursos. Dessa forma, o cenário futuro que considera o conhecimento científico e tradicional que respeita o limite ambiental deve promover um polo econômico, ambiental e científico mundial, dizem Weiss e Lobo.

Numa projeção otimista para o ecossistema, os biólogos afirmam que se pode prever que o investimento na educação inclusiva, justa e igualitária possa criar uma consciência global da importância da Amazônia.

“O aumento de movimentos que promovem e incentivam oportunidades empreendedoras e sustentáveis como, por exemplo, a biotecnologia e o ecoturismo seriam muito bem-vindos. Ao mesmo tempo, as sessões governamentais necessitariam de um reforço no que diz respeito a gestão de áreas de conservação. Nesse cenário, a Amazônia serviria de exemplo, algumas atividades seriam rentáveis e geradoras de baixo impacto no meio ambiente”.

Já numa projeção pessimista, analisam Bianca Weiss e Guilherme Lobo, “vemos que o uso de recursos naturais da Amazônia pode ser ainda mais banalizado, onde a conservação ambiental é considerada a inimiga do desenvolvimento socioeconômico; em decorrência disso, poucas pessoas se beneficiariam dos ganhos econômicos que os recursos ambientais podem gerar. Contudo, o dano ambiental é global, estima-se que se ultrapassarmos 25% de desmatamento da Amazônia entraremos num ponto de inflexão, ou seja, um caminho sem volta em que o impacto na floresta amazônica é irreversível”.

Esperança no Acordo de Paris

O agrônomo, doutor em ecologia e professor titular da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), Henrique dos Santos Pereira, 54, aposta as esperanças de preservação da floresta amazônica no Acordo de Paris, tratado no âmbito da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima, que rege medidas de redução de emissão de gases estufa a partir de 2020, a fim de conter o aquecimento global abaixo de 2 ºC, preferencialmente em 1,5 ºC, e reforçar a capacidade dos países de responder ao desafio. O acordo foi negociado em Paris durante a COP21, e aprovado em 12 de dezembro de 2015.


Futuro do Brasil no acordo de Paris passa por decisão de Bolsonaro. Foto: Reprodução/AFP

“Por um lado, se o compromisso brasileiro junto ao acordo de Paris, firmado no âmbito da convenção do clima for cumprido, espera-se, então, dentre outras metas, que o desmatamento na Amazônia seja contido. Isso garantirá às futuras gerações que uma maior porção da regiao permanecerá com sua cobertura vegetal nativa e intacta. Do outro lado, se o acordo for mundialmente bem sucedido, o aquecimento global ficaria próximo a 1,5 graus Celsius e as mudanças do clima seriam mitigadas. Assim, não só a floresta amazônica, mas todos os biomas do mundo continuariam usufruindo do clima ameno e regular do planeta no qual e para o qual se desenvolveram e foram selecionados naturalmente”, analisa ele.

Sobre técnicas que permitem usar os recursos típicos da região sem ameaçar o verde, ele destaca que “sistemas agroflorestais diversificados e multi estratificados representam um sistema agrícola ideal para nossa região, pois apresentam características ecológicas mais próximas às das florestas nativas”.

Repórter de A Crítica

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