Publicidade
Amazônia
Amazônia

Apenas 10% dos 500 mil litros de óleo descartados ao mês no Brasil são reciclados

De acordo com dados da Associação Brasileira das Indústrias de Óleo (Abiove), o Brasil produz mais de três bilhões de litros de óleos vegetais por ano, cada família consome, em média, 4 litros por mês e descarta 1 litro 05/06/2015 às 10:12
Show 1
Ao contrário da maioria, Maria José dos Santos Rodrigues, que mora com o marido e os filhos em um barco, às margens do rio Negro, toma o cuidado de coletar o óleo de cozinha utilizado no preparo de alimentos e descartá-lo corretamente
Luana Carvalho Manaus (AM)

Embora produtos químicos e dejetos humanos despejados nos igarapés e rios de Manaus por meio da rede de esgoto sejam grandes responsáveis pela contaminação das águas, os resíduos sólidos, garrafas PETs e óleo de cozinha residual também fazem parte da lista dos maiores vilões do meio ambiente.

De acordo com dados da Associação Brasileira das Indústrias de Óleo (Abiove), o Brasil produz mais de três bilhões de litros de óleos vegetais por ano, cada família consome, em média, 4 litros por mês e descarta 1 litro. Isso significa que mais de 500 mil litros de óleos são descartados pelas famílias manauaras todos os meses, revelou uma estimativa com base em dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Em Manaus, existem apenas 62 estações de tratamento de esgoto em bairros e conjuntos residenciais. O que não é tratado ou reciclado vai parar nos igarapés, que por sua vez deságuam no rio Negro. “Basta um pingo de óleo para causar um dano irrecuperável. Esse óleo, em grande quantidade, cria uma película sobre a água que, além de contaminar córregos e rios, agride a vegetação e causa a mortandade de peixes”, explicou a presidente da Associação Brasileira para a Sensibilização, Coleta e Reciclagem de Óleo Comestível (Eco Óleo), Célia Marcondes.

Um litro de óleo pode contaminar até 25 mil litros de água potável, segundo a Abiove. A solução para evitar tantos danos ao meio ambiente é apenas uma: investir na reciclagem de óleo usado. “Separar esse óleo é uma simples atitude. Na reciclagem, este poluidor pode virar uma série de produtos, como biodiesel, velas, ração para animais, sabão, entre outras coisas”, informou Célia Marcondes.

Coleta precáriaMas, para que isto aconteça, é preciso criar mecanismos para agregar interesses entre doadores e coletores de óleo de cozinha. A empresa responsável pelo abastecimento de água e rede de esgoto da cidade, Manaus Ambiental, ainda não possui programas que incentivem a coleta de óleo de cozinha, embora seja comprovado que o descarte de óleo nas pias também causa prejuízo às tubulações por conta dos entupimentos.

A cidade conta com pontos de coleta do óleo de cozinha instalados nos cinco Postos de Entrega Voluntária (PEVs). Mas em apenas dois deles, o da praça do Dom Pedro, na Zona Centro-Sul, e na Lagoa do Japiim, na Zona Sul, as doações são mais frequentes.

“Falta divulgação da reciclagem, que é muito tímida em Manaus. Tem gente que até quer fazer a separação, mas não sabe para onde destinar. Não existe incentivo do poder publico e também falta conscientização da população”, comentou Maria do Carmo Soares, do projeto Somando Lixo e Cidadania.

Moradora há 13 anos de um flutuante localizado às margens do rio Negro, na Manaus Moderna, a dona de casa Maria José dos Santos Rodrigues sabe bem do que Maria do Carmo está falando. Ela, que mora com o marido e quatro filhos em um barco, vive, literalmente, “ilhada” por todo tipo de poluição. Apesar da convivência com a sujeira e da ausência de coleta de lixo, Maria José procura fazer a parte dela, coletando resíduos e até o óleo vegetal usado pela família. Ela garante que tudo vai para uma lixeira comunitária, perto dali. “Pena que a maioria não pensa assim. Pra onde você olhar é lixo boiando. Tem muita gente que, por morar na beira do rio, joga de um tudo na água, desde óleo de cozinha até geladeira velha. Não entendem que a natureza vai devolver tudo pra eles da próxima vez que o rio encher. É esperar para ver”.

Exceções não fazem a regra, mas a diferença

Morar em locais inóspitos não é uma escolha de quem reside “no alagado”, chamado popularmente de “bodozal”, em alusão à espécie de peixe cascudo que reside nas áreas alagadas. Para o pensionista Genésio Filho, 48, que mora na orla do Educandos, Zona Sul, trata-se de uma necessidade.

“Eu pago IPTU todos os anos, mesmo morando em uma área que não nos oferece nenhum tipo de serviço básico e ainda por cima é cheia de lixo. Mas a culpa pela poluição não é da prefeitura, e sim dos moradores que contaminam o próprio local onde vivem”, ressalta.

Todos os domingos, ele sai de casa para retirar milhares de sacos plásticos que são jogados no igarapé. “Eu só conheço mais dois moradores daqui que prezam pelo meio ambiente e colaboram com a limpeza”, relata.

Como o caminhão coletor de lixo não consegue ter acesso à orla, especialmente durante os meses de cheia, quando parte das ruas vai para o fundo do rio, os funcionários da limpeza pública também não descem, ainda que os moradores paguem seus impostos.

Genésio, por exemplo, paga R$ 35 de IPTU, mas não é beneficiado com a coleta do lixo. Por isso, ele separa os resíduos em sacolas diariamente, e, quando os filhos vão à escola, pede para que eles levem os resíduos para a rua mais próxima onde há o serviço de coleta. Mas ele, infelizmente, ainda é exceção. “Não nos custa nada levar o lixo e jogar no lugar certo, já que não passam para recolher”.

O que você faz com seus PETs?

Do montante de lixo produzido em Manaus, o que se aproveita para a reciclagem ainda é pouco: cerca de 0.2%. Cada habitante de Manaus consome, mensalmente, cerca de 3 garrafas PEts de 2 litros, conforme cálculos baseados na Pesquisa de Orçamentos Familiares do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Somando todos os moradores da cidade, são consumidos aproximadamente 12 milhões de litros por mês. Se convertidos em garrafas PETs de 2 litros, somariam 6 milhões mensalmente. Só no ano passado, quase 109 milhões de litros de garrafas PETs foram envasados no Polo Industrial de Manaus.

A Prefeitura de Manaus gasta quase R$ 1 milhão por mês para limpar os igarapés, que todos os meses são ‘inundados’ com 2,1 mil toneladas de todo tipo de lixo (Foto: Lucas Amorelli)

Mesmo com a Política Nacional de Resíduos Sólidos, que determina incentivo à indústria da reciclagem, nenhum dos órgãos procurados, como a Secretaria Municipal de Limpeza Pública (Semulsp), Superintendência da Zona Franca de Manaus (Suframa) e Federação das Indústrias do Estado do Amazonas (Fieram) souberam mensurar a quantidade total de PETs que são reciclados mensalmente em Manaus.

Mas, de acordo com o coordenador da Arpa, Raul Lima, aproximadamente 20 toneladas por mês são levadas para as indústrias de reciclagem. Ao todo, são 500 catadores na cidade que trabalham com a coleta de resíduos. O que não vai para a indústria, vira artesanato. Mas a maior parte ainda acaba no aterro, ou pior: nos igarapés.

A legislação é falha, afirma Sérgio Bringel

"O processo de despoluição de nossos igarapés envolve vontade de fazer do poder público. Não é um processo simples de se fazer. Até mesmo por conta do uso indevido do solo, que causa a expansão urbana sem nenhum plano, e muitas vezes o governo dá anuência porque não faz nada para evitar isto. São pouquíssimos os bairros que contam com o serviço de saneamento básico. Todos foram feitos de qualquer jeito. Faltam políticas públicas voltadas ao monitoramento destas águas, evitando a contaminação", afirma Sérgio Bringel, do setor de recursos hídricos do Inpa.

"Mas eu, que faço parte do Conselho de Recursos Hídricos do Estado, nunca mais ouvi falar nesta pasta, muito menos políticas ou estudos sobre nossos cursos hídricos. A nossa própria legislação é falha. Nesses rios há contaminação por produtos químicos, dejetos humanos e lixo. Isto pode causar grandes problemas e doenças hídricas como febre tifóide e micose. O óleo também causa um estrago muito grande ao meio ambiente, pois a água e óleo não se misturam. Também é uma questão de saúde pública. Mas nossos políticos não têm consciência ambiental. Debater o tema de contaminação dos recursos hídricos é importante para preservamos o futuro. Temos vários problemas e repito: precisamos de legislações específica. Políticas públicas precisam ser criadas e discutidas por todos nós”, completou.

Blog: Alcyneia Cunha

Fundadora da Arpa

"Trabalho com reciclagem há 20 anos. Virei catadora por necessidade. Recolhia resíduos na praça da Igreja dos Remédios, no Centro, e lá mesmo dormia quando não tinha dinheiro para voltar para casa. Sempre foi uma vida difícil, mas me apaixonei pelo que faço. Apareceram outras oportunidades de emprego, mas com o tempo eu percebi que eu exercia esta atividade não apenas para tirar o sustento da minha família, mas por amor ao meio ambiente. Fundar esta associação foi um sonho que se realizou", afirma.

"Mas fico triste quando vejo toneladas de materiais reaproveitáveis sendo jogados nos nossos igarapés. Se as pessoas soubessem que isto, para nós que trabalhamos com reciclagem, vale ouro, elas não agridiriam tanto o meio ambiente assim. Além da conscientização de cada um, que é primordial para a preservação do meio em que vivemos, falta vontade do poder público de apoiar os catadores e incentivar o nosso trabalho. Falta educação ambiental. Isto precisa começar nas escolas e dentro de casa. Para que, no futuro, nossos netos possam conhecer a natureza, ter o ar puro para respirar e água para beber", finalizou.

Busca rápida

Mais de 13 mil litros só nas bancas de pastel

Um dos maiores grupos de reciclagem de Manaus, a Associação de Reciclagem e Preservação Ambiental (Arpa), recebe semanalmente 3 mil litros de óleo de cozinha no PEV do Dom Pedro, o que ainda é pouco. Um levantamento feito no Centro apontou que 13 mil litros de óleo usado em frituras somente nas barracas de pasteis são jogados fora.

Saiba mais: Reuso

Das 500 toneladas de óleo que as famílias manauaras descartam mensalmente, apenas 10% são recicladas. O gerente de coleta da empresa Masseg Serviços, pioneira no ramo e responsável pelo projeto Papa Óleo, Silas Matos, informou que, por mês, 90 toneladas são coletadas de restaurantes e associações de catadores em Manaus e transformados em biodiesel. EmpregoOs outros 100 litros são usados por cooperativas e associações que produzem sabão e pastas de limpeza.

Publicidade
Publicidade