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Áreas protegidas em Manaus devem ser usadas como estratégia de proteção do sauim

Apesar da importância, estas áreas não podem ser reduzidas e precisam ter sistemas de conexão para travessias do bicho 31/03/2013 às 13:35
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Na Avenida do Turismo, máquinas trabalham na construção de condomínios. Ação resulta em destruição da mata e, consequentemente, na perda de espaço para primatas
Elaíze Farias Manaus

As chances de o sauim-de-coleira escapar da extinção estão especialmente nas unidades de conservação e nas áreas protegidas por alguma instituição. Mas é preciso mantê-las, não reduzi-las e incentivar planos de manejo, o que não acontece na prática, conforme relatos dos pesquisadores e gestores. Em Manaus há 18 unidades, sendo que nove são privadas, as chamadas Reservas Particular do Patrimônio Natural (RPPN).

O professor da Ufam Rogério Fonseca, especialista em manejo de áreas protegidas, diz que as reservas particulares têm o importante papel de conservar as áreas florestais, a fauna, sobretudo o sauim-de-coleira, mas é preciso que os órgãos públicos dêem a contrapartida.

Reservas privadas

Ao incorporar a categoria de RPPN ao seu terreno, o proprietário recebe isenções tributárias (IPTU e Imposto Territorial Rural), mas deixa de usar uma parte da área. O local fica protegido e conservado. Essas áreas, contudo, sofrem com vários tipos de pressão, como invasores e caçadores. “Todos os esforços de conservar áreas protegidas em Manaus têm que ser em função do sauim-de-coleira”, diz Rogério Fonseca.

O grande problema das RPPNs é a ausência de um plano de gestão (nem todas possuem) e a falta de recursos para manutenção e de ações de planejamento adequado. “Existem fundos provenientes de multas, compensações e indenizações que qualquer organização sem fim lucrativo que tenha estatuto e plano de conservação da natureza pode acessar. Mas os gestores públicos acabam pegando esse recurso dando um direcionamento político”, afirma o professor.

Ameaças

Uma dessas RPPN (a maior das nove existentes em Manaus) é a Norikatsu Miyamoto, localizada na AM-010. A responsável por esta RPPN, Thayze Freitas, diz que existem em torno de três grupos com oito a 12 sauins-de-coleira na unidade. O local é rico em árvores frutíferas, um atrativo à espécie. Por isso tem se identificado um aumento populacional deste primata no local.

A RPPN Norikatu Miyamoto, apesar de ser periodicamente monitorada, sofre com invasores para a retirada ilegal de madeira. No local é constante também a presença de caçadores, como a reportagem atestou no dia em que foi à área ao avistar inúmeras armadilhas.

 “A Zona Oeste (onde está localizado o bairro Tarumã) também tem a grande importância de manutenção do sauim-de-coleira. Aquelas grandes áreas deveriam ter proteção diferenciada e um processo mais criterioso. E proteção diferenciada significa que os pedidos de licenciamentos deveriam passar por análises de câmaras técnicas do Conselho Municipal de Meio Ambiente. Isso não aconteceu na gestão passada. Todas as obras eram aprovadas, diferentes do que acontecia em épocas anteriores. A gente espera que nessa nova gestão da prefeitura essas análises sejam mais criteriosas”, diz Fonseca.

Áreas de distribuição

Na zona urbana de Manaus, considerando as áreas protegidas por alguma instituição, a população mais numerosa, com cerca de 620 sauins-de-coleira, está na Reserva Florestal Adolpho Ducke (Zona Norte), mantida pelo Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa). Depois vem o fragmento (776 hectares) onde está inserido o campus da Ufam e o Conjunto Acariquara (parte da APA Municipal da Ufam), com cerca de 145 sauins, segundo o professor e pesquisador da Ufam Marcelo Gordo.

A área verde com maior pressão é a da PontaNegra/Tarumã. Conforme Gordo, a previsão é que em breve vai sobrar apenas de 5% a 10% da cobertura vegetal, pois a área está sendo ocupada por condomínios.

“As áreas da Infraero (Aeroporto Eduardo Gomes), apesar de não haver estimativas do tamanho das populações, são áreas importantes pelo tamanho e quantidade de floresta ainda existente, mas bem menores que a área da Ufam”, diz Gordo.

Passarelas

No Parque Estadual do Sumaúma, que teve sua área reduzida para a construção da avenida das Torres, há uma população estimada em 15 sauins-de-coleira. A redução da área foi “compensada” com o acréscimo de outra. A Secretaria Estadual de Meio Ambiente (SDS) analisa a proposta apresentada por pesquisadores, entre eles Marcelo Gordo, de se construir passarelas para a passagem dos sauins.

No Parque do Mindu existem pouco mais de oito exemplares. Nestes locais, os sauins-de-coleira correm risco de sumir.

Zona rural

Segundo Gordo, a zona rural é a área com porções de floresta capazes de realmente garantir a sobrevivência da espécie. É onde estão localizados o Parque Estadual do Rio Negro Setor Sul e Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) Tupé. Em Rio Preto da Eva há a maior área de floresta que abriga o sauim-de-coleira, que é a área de treinamento do Centro de Instruções de Guerra na Selva (Cigs), com cerca de 115 mil hectares.

Apesar de ainda não haver estimativas precisas sobre a quantidade de sauins que estão vivendo nesses locais, pelo simples fato de serem muito grandes já podem ser consideradas imprescindíveis para a sobrevivência desse ilustre e único cidadão amazonense, segundo Gordo.

Floresta do Cigs

Com uma área de treinamento de 1.150 quilômetros quadrados, a área florestal do Cigs pode abrigar uma das maiores populações de sauim-de-coleira de Manaus. Mas ainda é preciso que pesquisas sejam realizadas no local.

A Chefia da Divisão de Veterinária do Cigs informou que a área representa, junto com a Reserva Ducke, a Ufam e a Reserva Florestal Walter Egler, “importantes áreas para a preservação desta espécie, além dos diversos fragmentos urbanos que ainda possuem populações deste primata”. O Cigs disse que o PAN do Sauim-de-Coleira tem como um dos objetivos a manutenção destas áreas preservadas.

“O Cigs, por meio de seu zoológico, também auxilia o plano de ação, na área de educação ambiental, junto aos seus visitantes. O zoo também fará parte do programa oficial de manejo do Saguinus bicolor em cativeiro, ainda em processo de elaboração”, disse nota enviada pelo Cigs.


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