Terça-feira, 04 de Agosto de 2020
BIODIVERSIDADE

Novo bagre amazônico é descoberto em bancos de areia de Rio Preto da Eva

Bióloga da UFRJ que veio ao Amazonas estudar sobre o candiru descobriu, no município, uma espécie diferente de peixe chamado Ammoglanis obliquus



Nova_esp_cie_Bagre_2_-_Cr_dito_da_foto_Elisabeth_Henschel_21E4A580-C1D5-4805-9950-9E435188BDB6.jpg Elisabeth Henschel - NatGeo
05/07/2020 às 18:33

Não é por acaso que a região amazônica é conhecida por possuir a maior biodiversidade de peixes do mundo. Foi em bancos de areias de uma estrada vicinal no município de Rio Preto da Eva, distante 79 quilômetros de Manaus, que três biólogos do Instituto de Biologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) fizeram uma apuração a fim de encontrar algo de diferente no local.

A expedição, que a princípio tinha o objetivo estudar o peixe de água doce, candiru, levou a descoberta de uma nova espécie de peixe bagre para a região, o Ammoglanis obliquus. A equipe de pesquisadores já havia passado pelo curso d’água anteriormente, mas a ideia de voltar aos bancos de areia foi da bióloga Elisabeth Henschel, responsável pela descoberta do novo bagre. “Tem dez anos que faço pesquisa de campo na Amazônia. Então, eu já fui em diversos lugares, diversas vezes e esse bagre faz parte de um grupo que teoricamente já tinha distribuição na região amazônica, mas não se tinha muitas informações acerca disso”, comentou. “E nessa última vez que fui, eu vi que o local estava bem mexido, com algumas obras sendo feitas, e nós estávamos passando por um igarapé e demos uma chance para ver o que é que se tinha ali, acabou que veio essa população de bagres novos e agora a gente tem um registro em um ponto super especial”, afirmou Henschel.



O Ammoglanis obliquus trata-se de um bagre pequeno que cresce até um máximo de 1,5 cm, e é semitransparente, com um padrão colorido e manchas espalhadas por todo seu corpo. O que diferencia o novo bagre de outras espécies é em quantidade e forma de ossos, dentição e número de raios das nadadeiras. Porém, a espécie se assemelha a outros peixes do gênero no comportamento parasita e por se alimentar do sangue e da mucosidade de animais maiores ou em decomposição.

Para o estudo morfológico do animal, a bióloga coletou 32 espécimes de Ammoglanis obliquus na expedição que ocorreu em agosto do ano passado. Ao chegar no laboratório, ela estudou a morfologia do animal e comparou com aqueles já conhecidos pela ciência. “Dentre as espécies já descritas para esse gênero, não se tinha uma específica para aquela região. Então, isso já te deixa com uma pulga atrás da orelha”, disse. “Quando eu cheguei no laboratório, a primeira coisa que fiz foi pegar esse material e analisar a morfologia dele. A descrição é baseada no padrão de colorido dos bichos em vida e também em características da osteologia dos ossos, o formato e disposição dos ossos, a quantidade de vértebras, dentes e coisas do gênero, comparei com os bichos que já são conhecidos pela ciência e após isso, conclui que se tratava de uma espécie nova”.

Após a detectar que era uma nova espécie, no final de fevereiro, a bióloga publicou, junto a um grupo de pesquisadores do Laboratório de Sistemática e Evolução de Peixes Teleósteos da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a descrição do Ammoglanis obliquus no periódico Zoosystematics and Evolution.

EVOLUÇÃO DEIXARÁ LEGADO

De acordo com a bióloga, a descoberta ajuda a entender a evolução morfológica de outras espécies de bagres. Ela destaca a importância do estudo para trabalhos futuros que outros cientistas possam utilizar. “Esse é um trabalho de taxonomia e basicamente, ela é uma ciência de base. A gente descobre e descreve a diversidade do mundo. E como ciência de base, a gente fornece os dados para que outras pesquisas possam ser feitas, então a descrição dessa espécie de bagre muito pequeno, característica de uma região que está passando por uma forte ameaça de construção de estradas, ela é importante em medidas de conservação, por exemplo”. Esse trabalho de base, ele vai ser aplicado por uma série de trabalhos, tanto de evolução, trabalhos de comportamento, de ecologia, medidas de conservação que reflete em medidas políticas, então há todo um desdobramento que a gente pode utilizar”.

Além disso, Henshel afirma que a descoberta expande o conhecimento sobre a biodiversidade da Amazônia. “A Amazônia é um lugar fascinante e ela não é nada uniforme, nós temos diversas formações vegetais. Apesar de ser um bioma muito estudado e visado, a gente tem muita coisa para descobri em termos de biodiversidade não só de peixe, mas todas as formas de vida que se possa imaginar”, declarou. A bióloga, natural do Rio de Janeiro, é exploradora da National Geographic Society, o qual apóia a cientista em estudos desde 2018. Atualmente, Elisabeth Henschel, 26, estuda o candiru - o temido grupo de peixes conhecido por supostamente ser atraído pela urina humana e adentrar o corpo de banhistas pela uretra, ânus ou canal vaginal - o que é o tema principal da tese de doutorado que desenvolve no Instituto de Biologia da UFRJ.

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Repórter de Cidades
Jornalista formada pela Uninorte. Apaixonada pela linguagem radiofônica, na qual teve suas primeiras experiências, foi no impresso que encarou o desafio da prática jornalística e o amor pela escrita.

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