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Amazônia
Da ciência à arte

Biólogo e artista plástico transforma sua garagem numa verdadeira oficina da ciência

Há 40 anos, Haroldo Ayres dedica o seu tempo para fabricar seus papéis e ilustrar as espécimes da fauna e flora da região Amazônica 11/06/2016 às 16:21 - Atualizado em 12/06/2016 às 07:24
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O biólogo e artista plástico Haroldo Ayres está trabalhando na confecção de livros de ilustrações científicas da flora e da fauna em papel artesanal. (Antônio Lima)
Kelly Melo Manaus (AM)

O biólogo e artista plástico Haroldo Ayres, 63, decidiu fazer da sua casa o seu próprio laboratório. Apaixonado pela ciência e pelas artes plásticas, ele faz questão de exibir o seu trabalho na garagem que chama carinhosamente de “oficina”.

Mas diferente de muitos artistas, Ayres confecciona o seu próprio papel e neles faz as belas pinturas da natureza. Sua especialidade é retratar a fauna e flora, que exibe para qualquer pessoa que chega para visitá-lo.

“Na natureza nada se perde e o lixo pode virar luxo se as pessoas souberem o que podem fazer com o que têm dentro de suas casas”, afirmou ele, ao explicar que das plantas que estão no seu quintal, ou dos vegetais que estão em sua geladeira, ele consegue extrair a matéria-prima para confeccionar vários tipos de papeis que coleciona em seu ateliê.

De acordo com Ayres, tudo no laboratório dele é utilizado para confeccionar papéis artesanais. Não bastasse as plantas, agora ele utiliza até esterco de animais como cavalos, boi  e carneiros na produção do material. “Durante muitos anos eu trabalhei no Inpa e depois que me aposentei, decidi trazer todo o conhecimento científico que adquiri para dentro de casa. A diferença é que eu procuro utilizar materiais do uso doméstico para fazer o meu papel”, explicou ele.

Papel de esterco de animais

O artista plástico explica que  as fezes desses animais podem ser utilizadas na fabricação de papel devido a grande quantidade de fibras vegetais que eles se alimentam e depois expelem. “A natureza nos dá uma material praticamente pronto, uma vez que a chuva lava as fezes, o sol desidrata, e então restam apenas as fibras para serem trabalhadas. Isso quer dizer que não precisamos derrubar árvores para fabricar papel”, explica ele.

Embora a técnica pareça “estranha”, Haroldo Ayres defende a qualidade da material, apesar de o processo para obtê-lo não ser tão simples quanto parece. Na oficina, a matéria-prima (o esterco) passa por um outro processo de limpeza e desinfecção até chegar ao produto final. “Uso sempre produtos domésticos na mistura. O alho e o vinagre, por exemplo, são excelentes antibacterianos, e as sementes de mamão são usadas como antiparasitórios. Com todos esses materiais misturados e prensados, nós conseguimos obter um produto de qualidade e de boa textura”, assegura.

Para ficar pronto, o papel artesanal a base de fezes de animais leva até 72h para ficar pronto e leva até 30 minutos para se decompor se jogado na água. “Ele é 100% biodegradável, ou seja, não agride o meio ambiente porque não passa por nenhum processo industrial”, disse.

Além do esterco, Ayres utiliza também casca de banana ou batata, alface, couve e até algas marinhas com juta para fabricar os seus papeis artesanais. “Qualquer vegetal tem potencial para virar papel. A questão é que precisamos aprender como fazer isso sem degradar o meio ambiente”, complementou o artista plástico, que há mais de 40 anos realiza estudos dentro da temática e há 10 anos, se dedica exclusivamente ao trabalho.

Trabalho voluntário

Haroldo Ayres também desenvolve um trabalho um trabalho voluntários em escolas públicas e  em instituições sem fins lucrativos, onde realiza oficinas de reciclagem e reutilização de materiais principalmente para crianças e idosos. “Venho fazendo isso há mais de 40 anos e aliar a ciência à arte demonstra que é possível desenvolver projetos pensando no meio ambiente e no futuro das pessoas”, finalizou.

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