Publicidade
Amazônia
Amazônia

Cerca de 2,3 mil jacarés-açú foram mortos para servirem de isca na pesca da piracatinga

Carne do “predador” é usada por pescadores da região do Médio Solimões como isca para atrair peixes piracatinga. Mesmo assim, espécie jacaré-açú não é alvo de campanhas ambientais 28/09/2014 às 11:52
Show 1
Carcaça de jacaré-açú morto a golpes de terçado por pescadores
MÔNICA PRESTES ---

Ele não está no foco das campanhas de defesa dos animais, nem no centro da polêmica em torno da moratória da pesca da piracatinga - um tipo de bagre comum na amazônia -, decretada pelo Ministério do Meio Ambiente (MMA) para acabar com a matança de botos. 

Muitas vezes, ele nem é lembrado quando se fala na caça ilegal de animais silvestres, talvez, por ser um predador com fama - e cara - de mau e uma relação historicamente emblemática com os caboclos.

Mas é o jacaré-açu (Melanosuchus niger) o principal alvo dos pescadores no Médio Solimões: em 2013, foram mais de 2,3 mil animais mortos para servirem de isca para a pesca da piracatinga.

E tudo isso apenas na Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) Mamirauá, uma das 43 Unidades de Conservação estaduais do Amazonas, localizada a 600 quilômetros de Manaus,  entre os municípios de Tefé, Fonte Boa e Maraã. O número alarmante é uma estimativa de pesquisadores do Instituto Mamirauá, que há dez anos estudam a pesca da piracatinga na reserva.

A pesca ganhou os noticiários após a Associação Amigos do Peixe-Boi (Ampa), em parceria com o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), lançar, em julho, a campanha Alerta Vermelho, contra a caça de botos na amazônia e em defesa da antecipação da moratória da piracatinga.  De acordo com a presidente da Ampa, Nívia do Carmo, 1,6 mil botos foram mortos e usados como isca para piracatinga, ano passado, em Mamirauá.


Os números são preocupantes, mas podem ser ainda mais. É o que aponta um estudo realizado pelo Instituto Mamirauá sobre a mortalidade de botos e jacarés associada à pesca da piracatinga na região do Médio Solimões.

De acordo com uma das autoras da pesquisa, Miriam Marmontel, ao contrário do que vem sendo divulgado, a isca mais usada na pesca da piracatinga são os jacarés, com preferência para o jacaré-açu, e não os botos. “Acompanhamos a pesca dentro da reserva há dez anos e, nesse tempo, podemos dizer que são mortos mais jacarés do que botos para a pesca da piracatinga”, afirmou Marmontel, que é líder do Grupo de Pesquisa em Mamíferos Aquáticos Amazônicos do instituto.

Recaída

O jacaré-açu, que esteve ameaçado de extinção após intensas caçadas nas décadas de 1960, 70 e 80, hoje figura lista de animais “dependentes de programas de conservação” da União Internacional de Conservação da Natureza (IUCN). Enquanto isso, o boto não é classificado por ter “dados insuficientes” sobre a população.

Essa recuperação na população desses réptéis só foi possível com a proibição do abate e consumo do jacaré, implantação de atividades sustentáveis e criação de áreas protegidas, como a RDS Mamirauá, lembrou o pesquisador do Programa de Pesquisa em Conservação e Manejo de Jacarés do Instituto Mamirauá, Robinson Botero-Arias, ao justificar a preocupação com a possibilidade de a espécie voltar a fazer parte da lista de animais vulneráveis da IUCN.

“A longo prazo, se a morte de jacarés se mantém à escala atual, o aumento dos efeitos sobre as populações naturais será maior. Falar sobre extinção é complexo, o melhor é mitigar os efeitos nocivos à espécie”, disse.

De acordo com ele, a morte de jacarés é uma realidade preocupante em Mamirauá que pode se repetir em outras regiões, em escalas até  maiores, no caso das áreas não protegidas, ainda não estudadas.


Mas a ausência de dados sobre a população não diminui a preocupação com a caça predatória dos botos, que levam mais tempo para se reproduzirem do que os jacarés, lembra o pesquisador. “Independe de que tipo de isca é mais usada, se boto ou jacaré, o preocupante na pesca da piracatinga é o uso predatório de animais silvestres para serem usados como isca. É um uso marginal dos recursos. Esta é, realmente, a crise ambiental que estamos enfrentando”, alertou Robinson.

Consumo é de 29 mil por ano

Todos os anos, mais de 29 mil exemplares de jacaré-açu e jacaretinga vão parar nas mesas dos lares amazonenses. Eles são mortos para abastecer o mercado negro, que comercializa, ilegalmente, mais de 100 toneladas de carne de jacaré por ano somente no Amazonas. Os dados são da Gerência de Fauna do Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (Ipaam). 

“Isso é só o consumo da nossa população, catalogado, registrado e verificado in loco, sem contar o que a gente não sabe. A caça predatória de jacarés vai muito além da pesca da piracatinga. Tem um mercado consumidor muito grande”, alertou a gerente de Fauna do Ipaam, Sônia Canto.

De acordo com ela, apesar das pesquisas sobre as populações de jacarés no Amazonas se concentrarem, principalmente, na região do Médio Solimões, é na calha do Purus que a caça predatória mais ameaça as espécies.

“A maioria desses jacarés sai da região do Purus, onde a carne do jacaré salgada é usada como moeda de troca para comprar óleo, combustível, e vendida a preços que variam de 50 centavos a R$ 1,50 por quilo. Bem menos do que os R$ 17 por quilo que o mercado local pagava em 2008, e menos ainda que o mercado legal paga hoje em outros Estados”, relatou.

Caçadores de iscas

Especialista em jacarés, o pesquisador Robinson Botero-Arias conta que, com o incremento na cadeia da pesca da piracatinga  nos últimos dez anos - em grande parte impulsionada pela demanda do mercado colombiano, onde o peixe amazônida é bastante apreciado -, os jacarés passaram a ser alvo de outro mercado, além do da carne: o de iscas.

É que, como a caça de jacarés para a pesca da piracatinga não é uma prática comum a todos os grupos de pescadores, o aumento da demanda pelo peixe abriu espaço para o surgimento de grupos especializados em comercializar iscas para piracatinga. “Eles cobram para caçar botos e jacarés e vendem as carcaças para os pescadores. Não é parte da cultura dos pescadores, mas uma prática oportunista, que precisa ser freada”, alertou.

Publicidade
Publicidade