Terça-feira, 29 de Setembro de 2020
CIÊNCIA EM PAUTA

Chance do surgimento de um vírus amazônico é real, diz especialista

Diversidade ecológica é fator que eleva a chances de uma nova doença, mas expansão humana é risco maior



show_1__1__85729B7F-E809-4295-A0B3-F187EFB73FFC.jpg Expansão: em Manaus a cidade avança rapidamente sobre a floresta. Foto: Arquivo/AC
19/04/2020 às 06:00

A possibilidade do surgimento de novos vírus ou bactérias em um ambiente como a Amazônia, com suas particularidades de diversidade ecológica, unidade, quantidade variada e incerta de animais catalogados, é uma realidade, sim. É o que explicaram pesquisadores entrevistados pelo Portal ACritica.com sobre o tema.

“O surgimento de novos patógenos causadores de doenças humanas (incluindo vírus, bacterias, protozoárias e fungos) de origem animal é uma realidade e pode ocorrer a qualquer  momento, principalmente na região amazônica considerando nossa imensa biodiversidade”, observa Gemilson Soares Pontes,  pesquisador titular de Ciências da Saúde do Laboratório de Virologia do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa).



Animais silvestres são os maiores “reservatórios” e têm sido a principal fonte de novos vírus que causam doenças. 

“De fato entramos em contato com uma grande variedade de vírus de origem animal ao longo da nossa vida. Mas, o que chamamos de barreira entre espécies é o principal fator que nos impede de ser infectados e ficar doentes. Em outras palavras, estes agentes etiológicos apresentam predileção para alguns hospedeiros animais. Contudo, fatores como  agricultura, caça, desmatamento, comércio de animais entre outros que causam grande impacto na ecologia dos animais  são as principais causas que fazem com que o vírus entre em contato com o ser humano, evoluam e quebrem essa barreira, passando a infectar e ocasionar doença em  humanos”, explica.

“Muitas vezes o vírus passa por diversos hospedeiros animais, sofrendo mutações até ser capaz se tornar patogênico em humanos. Um exemplo clássico disso são os arbovírus, (como por exemplo o vírus da febre amarela, dengue e zika) que passaram a infectar não só animais, mas também humanos por meio de um vetor artrópode (mosquitos)”, lembra o especialista.

Ao longo dos séculos, os seres humanos têm entrado em contato com diversos vírus e parte do material genético desses vírus continuam conosco até hoje, inclusive nos protegendo de doenças ou atuando na indução de patologias não infecciosas como o câncer.


Pesquisador Gemilson Soares Pontes, do Laboratório de Virologia do Inpa.

“Em resumo, sim, há a possibilidade de surgir novos vírus causadores de doenças humanas, não apenas na região amazônica, mas em qualquer lugar do mundo, devido a atividades humanas que interferem diretamente na ecologia animal e outros fatores como alterações climáticas por exemplo”, diz Pontes.

O pesquisador faz um importante alerta ambiental. “Contudo, não há como prever exatamente quando e onde isso vai ocorrer, apesar de sabermos que situações como essa do novo coronavírus serão comuns nos próximos anos se não repensarmos urgentemente nossas relações com o meio ambiente”, alerta.

Segundo Pontes, há diversos estudos sobre microorganismos, muitos deles baseados em metagenômica (estudo do material genético a partir de amostras animais) no intuito de caracterizar a coleção de todos os vírus no organismo. “Contudo, tais estudos não são feitos para prever o surgimento de novos vírus, e sim caracterizar e identificar os já circulantes. Apesar de sabermos que a emergência de novos vírus é algo eminente”, salienta.

Conforme o cientista, há evidências de que SARS-CoV-2 possa ter vindo de animais silvestres.  Com base nas análises dos pesquisadores, há duas principais hipóteses sobre a origem do coronavírus foram formuladas.

“A primeira hipótese é que o vírus evoluiu a partir da seleção natural em hospedeiro não-humano para humanos. Este tipo de situação aconteceu com os outros surtos de coronavírus, onde o ser humano contraiu o vírus a partir de civetas (SARS) e camelos (MERS).  No caso do novo coronavírus (SARS-CoV-2) os pesquisadores propuseram que os morcegos são os reservatórios mais prováveis, pois este vírus é muito semelhante ao coronavírus encontrado em morcegos. Contudo, não existe evidências clara da transmissão direta do morcego para o ser humano, sendo mais provável que tenha existido um hospedeiro intermediário entre as espécies” explica.

O especialista destaca que a segunda hipótese é que uma versão não patogênica do vírus infectou o ser humano diretamente a partir do hospedeiro animal (sem hospedeiro intermediário). “Com o tempo, o virus evoluiu dentro população humana e passou a ser patogênico à medida que se disseminou. Alguns coronavírus encontrados em pangolins da Ásia e Africa são muito similares ao SARS-CovV-2, o que sugere que o pangolim pode ter sido o reservatório animal de origem. Em resumo, o vírus teve origem animal, sendo mais provável a sua origem de morcegos ou pangolins”, ressalta ele.

‘Nossa convivência é constante’

Os microoganismos habitam a Terra desde início da vida, aliás eles foram as primeiras formas de vida.

“Desde a atmosfera primitiva, muito antes de sequer haver indícios da existência humana na face da terra já havia bactérias. Na realidade nossa convivência com os agentes infecciosos e seus reservatórios é constante e a qualquer momento e qualquer lugar pode aparecer uma doença nova, que pode ser inócua e inofensiva, ou letal”, disserta o infectologista Antônio Magela, diretor de Assistência Médica da Fundação de Medicina Tropical  (FMT).

“A ciência tem conhecimento de que existe nas florestas tropicais em torno de 600 argovírus e desse bem descritos quase 200 e desses quase 40 deles já se têm total conhecimento de quais as doenças que eles podem causar, que são as argoviroses que ouvimos nos meios de comunicação e científico”, diz ele, ao citar vírus como a da dengue, febre amarela e o causador da febre mayaro.

 A floresta tropical, ressalta Magela, é um reservatório de diversidade muito grande de todo tipo de ser vivo.  E é um ambiente, explica ele, que se mantém fechado numa circulação limitada com muitos agentes que são infecciosos mas que não são capazes de causar doenças em alguns animais, que são considerados então seus reservatórios.

“E quando o homem ou até mesmo outro animal entra nesse ciclo, aí sim pode haver uma transformação do agente e nesse organismo a capacidade de causar doença. Quando o homem entrou nesse ciclo, seja na floresta por qualquer tipo de atividade por exploração da floresta, o turismo, ou por expansão da fronteira urbana nos ambientes de floresta, a natureza acaba tendo uma emissão de uma  resposta que pode ser desfavorável ao homem”.

Podem surgir em qualquer lugar

Segundo o pesquisador das áreas Virologia e Biologia Molecular Felipe Naveca, o surgimento de um novo vírus independe de uma região específica do planeta.  “Um vírus ou bactérias podem surgir em qualquer ambiente, seja na Amazônia ou na China, por exemplo. Em qualquer lugar onde haja o contato do homem com a natureza sempre podem surgir novos vírus”, observa o cientista.

“A dengue surgiu assim, bem como chikungunya, zika e agora os coronavírus, não só esse novo, surgiram assim”, disse Naveca, que trabalha no Instituto Leônidas & Maria Deane (ILMD/Fiocruz Amazônia).

Ele destaca a importância do conhecimento científico para o bem comum. “Quando mais conhecemos a nossa biodiversidade, mais conheceremos aqueles que podem ser os vírus que podem atingir o ser humano”, explica o especialista.

Felipe Naveca falou sobre os estudos que estão sendo realizados no sentido de identificar novos vírus. “Temos trabalhando nisso. Nosso laboratório de ecologia de doenças transmissíveis da Amazônia tem como uma das linhas justamente tentar identificar novos vírus ou bactérias que podem causar infecções no ser humano. Temos trabalhado com isso, mas não é questão de se ter temor: é um evento natural que vai acontecer na Amazônia, na África ou em qualquer lugar. Onde o homem tiver contato com outros animais, eventualmente podem surgir um vírus ou bactéria que possa infectar o ser humano”, analisa.

As evidências científicas indicam que o SARS-CoV-2, assim como outros coronavírus, saltaram de um animal silvestre para um ser humano. “Nesse caso, as evidências apontam para dois possíveis animais: principalmente o morcego, mas também o pangolim, que é outro animal que alberga coronavírus semelhante. Não temos certeza absoluta qual dos dois, mas as evidências apontam mais fortemente que o vírus tenha surgido a partir do morcego”, detalha.

Repórter de A Crítica

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