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Cientistas defendem que impactos das hidrelétricas Jirau e Santo Antônio não foram medidos

Segundo os estudiosos e representantes de órgão públicos, as obras estão massacrando populações tradicionais que vivem ao longo do Rio Madeira 19/06/2015 às 22:12
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Pesquisadores afirmam que a cheia que cobriu quase todo o município de Manicoré, no ano passado, foi uma consequencia das hidrlétricas de RO
Luana Carvalho Manaus (AM)

As consequências ambientais da construção das hidrelétricas de Santo Antônio e Jirau, no rio Madeira, em Rondônia, não foram previstas nos estudo de impactos ambientais e estão “massacrando as populações tradicionais que vivem ao longo do rio”, afirmam ambientalistas. O extermínio de peixes é um dos principais impactos que afetam diretamente as  comunidades ribeirinhas.  

O cientista  do Instituto de Pesquisas da Amazônia (Inpa), Philip Fearnside, lembrou que o Estado do Amazonas não foi incluído na elaboração do Estudo e do Relatório de Impacto Ambiental (EIA- (RIMA), mas as comunidades  sofrem as consequências do complexo hidrelétrico. A discussão aconteceu na manhã desta sexta-feira (19), em  audiência  na Assembleia Legislativa.  

“Os impactos mal foram considerados e o Amazonas não teve riscos avaliados. Várias comunidades estão sofrendo principalmente com a falta de alimento. Nos estudos feitos pelas próprias concessionárias, informaram que não haveria  bloqueio das migrações de peixes, que iriam colocar uma passagem e que isto resolveria o problema, mas não é isto que está acontecendo”, ressaltou.

No Amazonas, o rio Madeira corta os municípios de Humaitá, Manicoré, Novo Aripuanã, Borba, Nova Olinda do Norte e Autazes.  Para o cientista, a grande cheia que inundou Manicoré, no ano passado, é uma das consequência das barragens. “Manicoré  sofreu um grande impacto. Além dos prejuízos sociais, grandes castanhais e seringais  foram impactados com a inundação”, completou Philip, que também afirmou que os danos não podem ser reparados, mas que é preciso estudar alternativas para reduzir os impactos às comunidades.

Segundo o Departamento Nacional de Infraestrutura e Transporte (Dnit), o tempo de dragagem do rio, necessária para manter a navegabilidade, diminuiu de cinco para um ano após as obras das hidrelétricas. O deputado Dermilson Chagas (PDT) que preside a Comissão de Agricultura, Pecuária, Pesca, Abastecimento e Desenvolvimento Rural (CAPPADR), acredita que o governo federal “ignorou os reais impactos e agora tenta corrigir as falhas com a proposta de privatização do rio Madeira”.

“O governo federal quer privatizar a hidrovia para que, aqueles que deveriam ser indenizados pelo mal provocado pelas obras, paguem por esse problema. Com a reunião desses dados  saímos do campo da hipótese de que algo pode ter prejudicado o meio ambiente, a economia e as pessoas que moram no local”.

Denúncias

A suspeita de contaminação de peixes e  ribeirinhos por mercúrio, provocada pelas dragagens dos rios, também foi denunciadapelos ambientalistas. Pelo menos 2,4 mil pescadores profissionais, só de Porto Velho,  foram prejudicados. Mas segundo o presidente do Grupo de Trabalho Amazônico (GTA), Rubem Gomes, esse número ultrapassa a faixa de 10 mil pessoas se juntar as comunidades do Amazonas. 

“Vale ressaltar que toda a população da beira do rio vive da pesca. São eminentemente pescadores, e sobrevivem desta atividade. O excedente eles vendiam. Mas simplesmente retiraram todo o peixe da mesa dessas pessoas. Há um extermínio  da atividade pesqueira pós-barragem, isto é fato”.  Ele explica que os peixeis que migravam da calha do rio Madeira não conseguem ultrapassar as barragens. “Esses peixes que eram consumidos são migratórios, então eles faziam esse movimento”.

Complexo

O projeto do Complexo Hidrelétrico do Rio Madeira é composto por duas usinas de grande porte: UHE Jirau (3.450 MW) e Usina Hidrelétrica Santo Antônio (3.150 MW), que estão sendo construídas em Porto Velho, no Estado de Rondônia.

Blog: Naziano Filizola

Departamento de geografia da Ufam

"O rio está hospitalizado.  Se a  gente não observar bem e entender, o rio vai morrer e nós vamos ficar só observando.  Isto é um pouco da nossa preocupação em relação ao rio Madeira. Não podemos começar a falar sobre um rio sem ter uma ideia da história e dessa conexão que é o ciclo d’água. Temos uma grande bacia hidrográfica que  é o Madeira, com capacidade para abastecer mil cidades de São Paulo e duas vezes maior que a bacia do Rio Negro. Toda vez que se constrói um reservatório, se faz um estudo hidrológico para ver como tem que gerenciar a entrada e saída de água.  Mas de fato isto não aconteceu. É preciso  gerenciar para não prejudicar uma cidade que está a 7 quilômetros abaixo da barragem (Porto Velho) e para não impactar ribeirinhos e indígenas que precisam deste rio para sobreviver. Mas infelizmente vemos que os estudos que foram feitos não condiz com a realidade. Nós não sabemos dizer para onde está indo o Rio Madeira agora".

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