Segunda-feira, 16 de Dezembro de 2019
SÍMBOLO AMAZÔNICO

Dia Nacional da Onça-Pintada é chance para estudiosos desmistificarem 'mitos'

Evento terá roda de palestras, exposições e apresentações sobre preservação da espécie. Oca do Conhecimento Ambiental e o Instituto Gaviam da Amazônia também farão parte do evento



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27/11/2019 às 07:36

Um dos animais mais populares do Brasil, e maior felino das Américas, estando presente em clássicos da literatura brasileira, letras de músicas e em manifestações folclóricas, tem um dia todo dedicado a ele. Na próxima sexta-feira, dia 29, o Centro de Instrução de Guerra na Selva (Cigs) vai celebrar o Dia Nacional da Onça-Pintada, em parceria com a Universidade Federal do Amazonas (Ufam), Oca do Conhecimento Ambiental (OCA) e Instituto Gaviam da Amazônia.

“Esse é um dia para comemorar uma espécie que é criticamente ameaçada de extinção, quando concentramos esforços de comunicação para desmistificar vários mitos sobre a onça que pessoas do senso comum colocam”, explica o professor Rogério Fonseca, 45, especialista em Manejo de Fauna e Manejo de Áreas Protegidas pela Ufam.



A data foi estabelecida pela portaria nº 8 de 16 de outubro de 2018, do Ministério do Meio Ambiente, pela qual a onça-pintada (de nome científico Panthera onca) foi reconhecida como símbolo brasileiro da conservação da biodiversidade. A data visa chamar o público a todos os anos fazer uma reflexão e discussão sobre a conservação da onça-pintada no País, para que escolas, zoológicos, unidades de conservação e projetos de conservação discutam o assunto e encontrem formas de conectar as pessoas com estes felinos.

Na sexta-feira, das 9h às 16h, acontecerão rodas de palestras, exposições, apresentação de trabalhos científicos na Oca do Conhecimento e, visita ao zoológico do Cigs. A programação completa está nas redes sociais do Cigs, Projeto Oiia a Onça e Instituto Gaviam. A entrada para o evento é gratuita e não é necessário fazer inscrição.


O professor Rogério Fonseca, 45, especialista em Manejo de Fauna e Manejo de Áreas Protegidas pela Ufam / Foto: Reprodução

O objetivo do evento é comunicar sobre conservação de onças-pintadas, métodos de prevenção, estudos, pesquisas, mitos e verdades, tudo isso para envolver, informar e conectar as pessoas para que elas possam enxergar este felino com outros olhos, de admiração, de amor, respeito e cuidado.

A preocupação é iminente tendo em vista que o animal aparece na lista de animais vulneráveis, destaca Suzy Arruda, fundadora e presidente do Instituto Gaviam da Amazônia, ONG que atua há seis anos na preservação e conservação da fauna e flora amazônicas, ao falar sobre a importância da onça pintada para o ecossistema, ecologia e meio ambiente.

“Hoje, a onça-pintada está no topo da cadeia alimentar e entendo que onde ela está tem um equilíbrio no nosso ecossistema, um lugar saudável”, afirma Suzy. “A data foi criada por ela [a onça] estar na lista de criticamente ameaçada de extinção, o que já liga um sinal de alerta amarelo em todos nós quanto à questão da própria extinção do animal”, comenta a especialista, que integra uma rede de apoio ambiental à onça-pintada que tem, além do Instituto Gaviam da Amazônia, também o Exército Brasileiro, por meio do Cigs, e membros da Ufam.

Segundo ela, um dos grandes problemas para os estudos das onças-pintadas é que não há dados estatísticos precisos sobre o animal na Amazônia. “Há uma estimativa da existência de 300 onças tanto na Caatinga quanto na Mata Atlântica. Já no Amazonas não temos essa estimativa, e daí que o Dia Nacional da Onça-Pintada reforça nosso trabalho para buscarmos cada vez mais dados em relação ao tema”, comenta Suzy Barros.

Tráfico de animais

Suzy será uma das palestrantes do Dia Nacional da Onça-Pintada no Cigs, e vai falar a conscientização ambiental que é necessária a partir da educação ambiental. Ela vai explanar sobre o aumento do tráfico de animais silvestres, crime pelo qual a onça é uma das maiores vítimas. A espécie é símbolo de poder e há cobiça em torno da sua pele, que é muito comercializada a preços que vão de R$ 5 mil a R$ 15 mil, sem falar nos dentes e outras partes do animal.

“Nossas leis são muito brandas, ao passa de que quem mata uma onça pode ser detido e pagar uma multa de que varia de R$ 2 mil a R$ 5 mil ou detenção de seis meses a dois anos. Quem trafica e vende uma pele por R$ 15 mil, e acaba pego, paga R$ 5 mil de multa e ainda sobra R$ 10 mil”, exemplifica ela, sobre a matança ao animal que vive, em média, 15 anos.

Toca da Onça

Esse ano a data ganha uma importância maior pelo lançamento do Projeto “Toca da Onça”, um lugar dedicado à onça pintada dentro do Zoológico do Cigs, visando aumentar número de pesquisas e publicações direcionadas ao preenchimento de lacunas de conhecimento científico sobre as onças da Amazônia.

 “A onça-pintada é o símbolo da biodiversidade brasileira e as pessoas não tem consciência disso, Esse espaço de observação ambiental é para isso e buscarmos dados sobre as onças“, explica a estudiosa. Uma próxima ideia, diz ela, é buscar recursos com a iniciativa privada e colaboradores para fortalecer ainda mais a iniciativa.

Onça não ataca o homem e é importante, dizem estudiosos

Um dos mitos relacionados ao animal é que ela ataca humanos, o que foi rechaçado pelos pesquisadores ouvidos por A CRÍTICA.

“A onça não procura as pessoas, mas sabe que somos uma ameaça a ela. Elas vão na contramão de um ataque a humanos e, quando isso acontece, são ocorrências pontuais relacionadas a se sentirem ameaçadas por estarem com filhotes pequenos. É restrito a essa situação, mas o normal é que não ocorra  ataque”, explica Suzy Barros.

O professor doutor Rogério Fonseca palestrará no evento no Cigs sobre “O Eterno Mito das Onças que Atacam”. Ele vai ilustrar sua afirmação com base no estudo feito pela engenheira florestal Fabrícia Régis Ferreira, que ao longo de três anos levantou histórico de ataque a seres humanos nos últimos 70 anos e comparou dados de ataque a humanos causados por leões, tigres, leopardos, tubarões e insetos da malária para mostrar que a onça não tem tantas quantidades de ataques registrados.

“Vamos mostrar números para as pessoas e fazer uma correlação com desmatamento das áreas amazônicas”, disse o professor sobre o estudo, que será mostrado na sexta e que será publicado em uma revista científica.

“A onça, lá na genética, não reconhece o ser humano como base alimentar, diferentemente de um leão, tigre, chita, leopardo que co-evoluíram com o ser humano”, explica.

“Por isso que eu falo de ‘eterno mito’, pois mesmo em situação onde a onça está com filhote, ou que animais estejam doentes ou acuados, se você mantém uma distância de segurança em torno de 20 metros ela não atacará, e vai embora, vai sumir da sua frente. Você pode se afastar lentamente sem tirar o olho do animal, se ela vier na sua direção vá vagarosamente olhando pra ela e fazendo progressão ao sentido oposto. Já tive várias situações face a fase com onça e nunca fui atacado. Agora, em  três pulos, ela te alcança se você correr”, orienta o professor, que já se deparou com onças ao caminhar no mato.

“Mas, há pessoas que são influenciadas por filmes, novelas, séries de documentaristas que mostram essas agressões a animais. É desnecessário, pois se você tira o animal da natureza, assim, sim, eu crio um problema”, orienta o especialista. Fonseca destaca que a onça-pintada faz importantes funções ambientais, uma delas no agronegócio, matando roedores em plantações".

Repórter de A Crítica

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