Publicidade
Amazônia
Amazônia

Colônia em cativeiro pode ser a salvação do sauim-de-coleira

Animais que não têm condições de voltar à vida silvestre são enviados para cativeiros em outras regiões do Brasil e do exterior 31/03/2013 às 13:40
Show 1
Laércio Chiezorin, coordenador do Refúgio de Vida Silvestre Sauim Castanheira, observa sauim regatado de uma residência
Elaíze Farias Manaus

Desde a década de 80, sauins-de-coleira resgatados e sem condições de voltar à vida silvestre são enviados para colônias de cativeiro. O primeiro foi enviado em 1980 pelo Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa). Era uma fêmea de seis meses, que estava “muito magra, com vocalização alterada, dificuldade de locomoção e apreensão como resultante de aleitamento artificial inadequado”, diz relatório do Centro de Primatologia do Rio de Janeiro (CPRJ), que mantém parceria com o Ibama e com a Prefeitura de Manaus. O animal teve “notável recuperação”. O relatório foi enviado ao A CRÍTICA pelo diretor da instituição, Alcides Pissinatti.

Pissinatti disse que na década de 90, 31 sauins-de-coleira foram enviados para colônias do exterior. No Brasil, foram 50. Alguns morreram ou não conseguiram se reproduzir. Também sofreram com doenças. De dez anos para cá há poucos dados sobre esta situação.

Uma das grandes dificuldades de manter do macaquinho no cativeiro é a fragilidade da espécie para ser criada fora da natureza e a inexistência de um modelo único para ser adotado em todas as colônias. Não é à toa que há pouco mais de dois anos a Durrell Wildlife Conservation Trust, instituição localizada em Londres, comemorou a reprodução em cativeiro de três filhotes (um morreu) da espécie.

Síndrome de emagrecimento

Alcides Pissinatti, que também faz parte do PAN do Sauim-de-Coleira, disse que a reprodução em cativeiro foi um sucesso durante anos no Brasil, apesar das dificuldades das instituições do País para exercer um manejo eficaz. No exterior, as facilidades foram mais favoráveis.

Porém, segundo Pissinatti, nos últimos anos têm aparecido animais com Síndrome do Emagrecimento Progressivo nas instituições estrangeiras. No Brasil, em instituições localizadas em cidades como São Carlos e Sorocaba, ambas em São Paulo, e em Brasília, esta patologia também foi registrada.

“Atualmente, a população cativa no Brasil é pequena, diferentemente do exterior. Em ambos os casos é necessária uma renovação dos fundadores por meio da inclusão de novas matrizes de boa saúde e geneticamente diversas”, disse.

Pissinatti lamenta a situação crítica vivida pelo sauim-de-coleira e o fato de, somente agora, ter se iniciado um plano para tentar salvá-lo. Para ele, áreas protegidas e colônias de cativeiro são as principais ações para promover a proteção desta espécie.

Protocolo


O analista ambiental Diogo Faria, que também integra o grupo de ação de cativeiro do PAN do Sauim-de-Coleira, diz que o protocolo é necessário para que se defina um modelo que inclui informações como nutrição, manejo reprodutivo, ambiente adequado, controle de doenças, entre outros. Isto é preciso para que a manutenção em cativeiro seja bem sucedida.

“Normalmente, são poucos os locais que conseguem manter esses animais em cativeiro. As instituições recebem mas não conseguem fazer a reprodução. Ao invés de o grupo crescer, diminui. Para o sucesso ocorrer, todas as características tem que estar bem realizadas. Ambiente  adequado, tranquilo, sem estresse, sem doença”, explica.

Para Faria, se as tendências de ameaças contra o bichinho continuar, daqui a algumas décadas ele pode desaparecer da natureza e somente os animais mantidos em cativeiro poderão ser reintroduzidos à vida silvestre. E esta fase inclui trabalhos que criem modelos de reabilitação eficientes.

“Fugitivo”

Durante apuração para esta matéria, a reportagem se deparou um sauim-de-coleira (macho adulto) em quarentena no Refúgio de Vida Silvestre Sauim Castanheira, da Prefeitura de Manaus, localizado dentro de uma unidade de conservação que leva o mesmo nome, criada em 1994, na Zona Leste da cidade.

O animal havia sido resgatado da condição de “doméstico”. Ele fugiu e um vizinho da casa onde o bicho era mantido comunicou para a direção do refúgio. Semanas depois, ele seria enviado para o Centro de Primatologia do Rio de Janeiro, por meio de uma articulação entre o Refúgio e o Ibama.

Criado nos anos 80 (desde 2001 passou a ser administrado pela Prefeitura de Manaus) o Refúgio de Vida Silvestre Sauim Castanheira recebe e faz triagem e resgate de animais em situações diversas. Os animais não ficam no local. Eles são reintroduzidos à natureza ou enviados a colônias.

Embora não mantenha mais os animais, o Sauim Castanheira continua realizando programas de reabilitação dos bichos. O sauim-de-coleira é um dos que mais vão parar no Refúgio.

Resgates

Só em 2012, 12 sauins-de-coleira foram resgatados nas situações mais diversas: atropelados, eletrocutados, atacados por cachorro, cativeiros, etc. Segundo o coordenador do Refúgio, Laérzio Chiezorin, “alguns sobreviveram, outros não”. Dois dos animais foram destinados para o zoológico do Cigs.

“A gente faz o recebimento, avaliações clínicas e comportamentais dos animais e, se necessário, tratamento e destinação. Verifica se é possível o animal voltar à vida livre ou se vai cativeiro”, diz Chiezorin, que também integra o PAN.

Desde 2008, o Refúgio Sauim Castanheira recebeu 71 sauins-de-coleira. Conforme Laérzio Chiezorin, “vários” foram enviados para o Centro de Primatologia do RJ. Outros foram reintroduzidos e voltaram à vida livre. Outros tantos morreram.

“Os animais chegam com toda sorte de problemas, com lesões graves. Alguns sobrevivem, outros não”, diz. Laérzio diz que já recebeu até animais com ferimentos causados por tiros, armas de pressão, chumbinho, pedradas e mesmo pauladas. Muitos estão mutilados, às vezes cegos.

Segundo um estudo produzido por Vanessa Cristina Alves da Mata, da Ufam, entre 2003 e 2008, 161 sauins-de-coleira foram recebidos pelo Centro de Refúgio de Vida Silvestre.

A maioria chegou em 2008 (57).  Os dados estão em um estudo feito por Vanessa Cristina Alves Mata, da Ufam. A reportagem não conseguiu obter informações sobre o destino destes animais.

 

Depoimento

Diogo Faria

Analista ambiental do Ibama

“Infelizmente, as nossas colônias não tiveram tanto sucesso reprodutivo. A maioria dos locais no Brasil acabou não tendo sucesso na manutenção desses animais. Já no exterior, houve sucesso em coleções do Canadá, EUA e na Europa. Temos poucos dados, mas o  que sabemos é que de 2005 para cá temos uma média de quatro sauins destinados por ano. Ou seja, foram 25 encaminhamentos. Normalmente eles vão para o CPRJ ou para zoológicos da região sudeste. Porém nossa estratégia agora será priorizar dois ou três locais no Brasil que se comprometam a oferecer toda a estrutura necessária para a manutenção da espécie”.

Publicidade
Publicidade