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Amazônia
do verde às cinzas

Com “dinheiro e paciência”, produção sustentável de carvão pode virar realidade

Quem conseguiu regularizar a produção de carvão vegetal conta que ‘peregrinação’ em órgãos públicos vale a pena. Quem não tem “tempo nem dinheiro” tem outra alternativa: a horticultura 05/09/2016 às 18:30 - Atualizado em 05/09/2016 às 18:30
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Fazenda Curumin faz uso de equipamentos de proteção individual / Foto: Chico Batata
Mônica Prestes Manaus (AM)

Na Fazenda Curumim, localizada no ramal ZF8, no Km 94 da rodovia AM-010, no Município de Rio Preto da Eva (a 57 quilômetros de Manaus), não foi preciso derrubar todas as árvores para que a produção sustentável de carvão vegetal se tornasse uma realidade. Uma das poucas propriedades produtoras de carvão licenciadas no Estado, ela se destaca entre as carvoarias daquela região: produção em escala perene, licenças em dia, funcionários usando Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) e uma incomum preocupação com o meio ambiente: o caminho até a fazenda é feito por um longo ramal de castanheiras, plantadas há mais de quatro décadas pelos antigos donos da propriedade.

E, ao contrário da maioria, na Fazenda Curumim a madeira que alimenta os fornos vem do manejo florestal, que é feito há décadas. Com a renda do carvão, José Jr. está investindo no plantio de açaí e outras espécies frutíferas: o viveiro está repleto de mudas. O cuidado com a questão ambiental, inclusive, é apontado pelo gerente da fazenda, o catarinense radicado no Amazonas José de Jesus Jr, 55, como um dos diferenciais da produção, que conquistou uma cartela específica e fiel de clientes: comércios e restaurantes que optaram por trabalhar apenas com carvão legalizado. “Além, é claro, de uma boa dose de paciência e dinheiro. A licença demorou mais de um ano e meio para sair e perdi as contas de quantas taxas tivemos que pagar e quantas vezes tivemos que ir a Manaus. Foi uma peregrinação, mas valeu a pena”, diz José de Jesus.

Outro diferencial ressaltado pelo gerente da fazenda diz respeito às questões trabalhistas: todos os funcionários são registrados e usam equipamentos de proteção individual (EPI). E, por morarem na fazenda, viram parte da “família”, diz José. É o caso de Cérvalo Maia, 40, que apesar da longa lista de carvoarias no “currículo”, contou que essa foi a primeira onde o uso de EPI foi exigido pelos patrões. “Nunca tinha usado”, afirmou.

Aos 40 anos e com uma série de carvoarias no 'currículo', essa é a primeira vez que Cérvalo usa EPI / Foto:Chico Batata

O gerente da fazenda, José Jesus, defende um certo rigor na emissão das licenças, mas critica o excesso de burocracia e as altas taxas cobradas para a regularização da atividade carvoeira, o que, segundo ele, afasta os pequenos da legalização. “Nós só conseguimos esperar pela licença porque temos outra fazenda em Autazes, que ‘bancou’ esta até que pudéssemos começar a produzir. Mas somos uma exceção: a maioria não pode esperar”, afirmou.

E se engana quem pensa que José sai ganhando com o problema dos “concorrentes”. Ele e os outros produtores que investem em uma produção legalizada sofrem com a concorrência desleal dos clandestinos, que por não pagarem taxas conseguem vender a produção a um preço até 40% menor. “Todo mundo sai perdendo, principalmente o meio ambiente”, alertou José.

Falta informação técnica

Desafios à parte, o secretário-executivo da Secretaria de Estado de Produção Rural do Amazonas (Sepror), Valdenor Cardoso, afirma que, para quem vive do carvão - cerca de 5% dos produtores rurais do Amazonas - é possível se adequar às leis ambientais e trabalhistas, mas isso demanda uma ação conjunta de órgãos de diferentes setores, do ambiental ao social.  “É questão de orientação. A produção de carvão é cultural, é uma demanda que sempre vai existir... quem não gosta de comer um bodó assado? Mas a regularização passa por um processo de conscientização, não só do produtor, mas de quem consome”.

Para ele, o que falta é informação técnica ao produtor rural e o melhor caminho para regularizar a produção clandestina é aproximar o produtor dos órgãos técnicos, como o Instituto de Desenvolvimento Agropecuário e Florestal Sustentável do Amazonas (Idam). Ele explica que a produção de carvão no Amazonas é um “escape” para muitas famílias, mesmo na clandestinidade. “Sempre foi vista como uma oportunidade: o produtor faz uma derrubada de meio hectare e aqueles que ainda não estão iniciados na atividade agrícola minimamente tecnificada partem para esse processo de produção, que é clandestino”, contou.

A saída, segundo o secretário, foi apontada pela Embrapa, em parceria com o Idam: a migração para horticultura e fruticultura. “A Embrapa e o Idam trabalharam a sensibilização dos produtores, elaborando projetos para que eles migrassem do carvão para a horticultura, que em 60 dias já dá lucro, dentro da lei e sem o sacrifício que exige o carvão. A proposta, que surgiu na zona rural de Manaus, já se estendeu a produtores de Rio Preto da Eva, um dos maiores produtores de carvão no Estado, que estão investindo também na fruticultura”, apontou. Lá e em Presidente Figueiredo, inclusive, os financiamentos permitiram a ex-carvoeiros largarem a atividade e investirem, também, na piscicultura, contou ele.

Para o secretário-executivo da Sepror, Valdenor Cardoso, falta aproximar o produtor do Idam / Foto:Antonio Lima

Além do apoio técnico do Idam, o Governo do Estado também está facilitando o financiamento da produção, por meio dos subprogramas do Plano Safra “Pró-Mecanização” e “Pró-Calcário”, que subsidiam em 85% a contratação de horas-máquina - em substituição ao trabalho braçal - e em 50% a compra de calcário (fundamental para corrigir a acidez do solo amazônico) em 31 cidades do interior do Amazonas, informou Cardoso. “Desde 2015, quando foi lançado o Plano Safra, mais de quatro mil hectares de propriedades rurais com produção agrícola ou pecuária de pequeno porte foram beneficiados pelos financiamentos, que variam de mil a R$ 5 mil. E o produtor paga apenas 15% do financiamento”, explicou.

Além disso, ressalta ele, a Agência de Fomento do Estado do Amazonas (Afeam) criou o Banco do Povo, que também tem programa especial de financiamento para o produtor rural, de até R$ 15 mil. Este ano, 70% do orçamento é voltado para a agricultura familiar: são em torno de R$ 30 milhões para projetos agrícolas e R$ 20 milhões para projetos de estruturação, onde entram a mecanização e o calcário.  “E para ter acesso a esses projetos basta procurar um escritório do Idam, que está presente em 66 municípios do Amazonas. Então, acho que é mais uma questão de falta de informação. Falta aproximação com o órgão. O carvão é dispensável na vida do produtor, mas temos que ser realistas: é possível largar a clandestinidade, desde que o produtor consiga chegar a um escritório do Idam. Esse é o nosso desafio”.

Sonho realizado

Sair da clandestinidade para viver de forma sustentável. Falando assim parece mesmo um sonho, mas pode ser realidade. Que o diga o casal  Maria Zenir da Silva Evangelista, 60, e Manoel Barbosa Evangelista, 67, que há 40 anos sonhava com o dia em que iria trocar a produção ilegal de carvão pela agricultura. Hoje eles se dedicam a plantar e preservar as nascentes e animais que existem na propriedade deles, localizada no km 90 da rodovia AM-010, no Município de Rio Preto da Eva (a 57 quilômetros de Manaus)

Mas foi preciso esperar por três décadas para que eles conseguissem sustentar os nove filhos apenas com o dinheiro proveniente das plantações de coco, abóbora, banana, laranja, cupuaçu, mamão, macaxeira, entre outros itens que quinzenalmente eles comercializam na feira do ASA, na Zona Sul de Manaus.  E, ao longo desses 30 anos, eles derrubaram muitas árvores para fazer carvão, lamentou Maria.  “Meu marido derrubou pra mais de mil árvores e, a cada árvore que ele derrubava, eu chorava. Dava um aperto no coração ver aquela gigante caindo, mas tínhamos que alimentar nove filhos, essa era a única opção que tínhamos na época”, lembra.

O casal Maria Zenir e Manoel Evangelista trocou a produção clandestina de carvão pela fruticultura / Foto:Chico Batata

A família veio do Pará, mas se instalou no interior do Amazonas, na esperança de viver da produção rural. Os planos não deram certo e, como muitos trabalhadores rurais assentados no interior do Estado nas décadas de 1970 e 1980, a família Evangelista acabou migrando para a capital. “Vivemos alguns anos lá, mas aquela vida não era pra gente, então voltamos pro interior. Foi quando começamos a trabalhar com o carvão, porque era o que tinha na época. Foram longos e tristes anos esses que a gente viveu de desmatar a floresta. Me sentia culpada, mas a gente não podia deixar os filhos passarem fome“, lembrou Maria.

Quando eles finalmente conseguiram deixar de produzir carvão, alguns filhos já estavam adultos. “Mas não importa. O que importa é que hoje a gente vive de plantar e de preservar. Plantamos muitas árvores nesses últimos dez anos pra compensar o que fizemos pra sobreviver e hoje, aqui na nossa propriedade, os animais estão protegidos, assim como as nascentes e as áreas verdes”, garante Maria, ao dizer que se preocupa com o “futuro dos netos”. “O futuro dos meus netos e também dos netos dos outros é isso aqui, é a nossa floresta, nossos igarapés e animais protegidos. Hoje a gente faz a nossa parte”.

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