Terça-feira, 10 de Dezembro de 2019
LEVANTAMENTO

Conflitos por terra mataram mais de 300 pessoas na Amazônia, diz ONG

Relatório da Human Rights Watch, divulgado nesta terça-feira (17), coloca o Brasil no topo da lista de países mais perigosos para ativistas que lutam pelo direito à terra



hghfghf_29FA1860-8703-4864-975C-BAC4443DA8E8.jpg Foto: Ibama / SECOM
17/09/2019 às 15:53

Um relatório da organização não-governamental Human Rights Watch (HRW) divulgado nesta terça-feira constatou que mais de 300 pessoas foram mortas na última década em conflitos pelo uso de terras e recursos na Amazônia, muitas delas por redes criminosas organizadas que lucram com o desmatamento ilegal.

Desses casos, apenas 14 foram julgados em tribunal, informou a ONG no relatório com base em 170 entrevistas.



"Isso realmente mostra o nível de impunidade", afirmou Cesar Munoz, investigador da Human Rights Watch à Agência Reuters, à margem de um evento em São Paulo, para discutir o relatório. "Existe realmente uma falha de investigação e responsabilidade".

O gabinete do presidente Jair Bolsonaro não respondeu a um pedido de comentário. O ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, respondeu ao relatório, declarando que o governo combateu a criminalidade, inclusive na esfera ambiental. Ele apontou para a mobilização de tropas para combater incêndios ilegais e outros crimes ambientais nas últimas semanas.

Cerca de 60% da Floresta Amazônica, considerada uma barreira crucial contra as mudanças climáticas, fica no Brasil. A destruição da floresta aumentou este ano, e o maior número de incêndios desde 2010 atraiu a condenação mundial das políticas do presidente Jair Bolsonaro, que defende a abertura da Amazônia ao desenvolvimento.

Violência no Pará

A HRW viajou para vários estados brasileiros entre 2017 e o primeiro semestre deste ano para pesquisar o relatório, que mostrou que quase metade dos assassinatos relacionados ao desmatamento ocorreu no estado do Pará.

A cidade de Novo Progresso, no Pará, recentemente ganhou as manchetes por um "dia de fogo", no qual os promotores suspeitam que um grupo coordenado tenha iniciado uma série de incêndios para queimar florestas e pastagens em 10 de agosto.

"Na maioria dos assassinatos que examinamos, as vítimas receberam ameaças ou foram atacadas antes. Se as autoridades levassem suas queixas a sério, essas pessoas poderiam estar vivas hoje", comentou Daniel Wilkinson, diretor administrativo para as Américas da HRW, a repórteres.

Bolsonaro enfraqueceu o Ibama, órgão de fiscalização ambiental do Brasil, cortou seu orçamento em 25% e restringiu a capacidade dos agentes de campo de incendiar o equipamento daqueles encontrados cometendo crimes ambientais.

Marina Silva, ex-ministra do Meio Ambiente e candidata à Presidência da República nas últimas duas eleições, disse que o relatório é uma evidência do retrocesso do Brasil no meio ambiente.

"O pouco que conseguimos no passado agora está sendo desmontado", lamentou.


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