Domingo, 15 de Setembro de 2019
RDS Piagaçu-Purus

Criação de RDS Piagaçu-Purus permitiu transformações na vida de ribeirinhos

Moradores de comunidades da área protegida, que antes viviam isolados, ahpra têm acesso a benefícios como energia elétrica e internet



04/12/2016 às 04:00

O comerciante Francisco Freitas dos Santos, conhecido como Nery, 36,  aprendeu a ler e escrever sozinho, ainda criança, na taberna do pai, que hoje pertence e é administrada por ele. Sem energia elétrica e muito menos computadores para controlar o s fiados, ele reproduzia num caderninho o nome do produto. “Se era um refrigerante, eu olhava a marca e ia desenhando no caderno. Assim aprendi a escrever”, relembra. 

Hoje ele é dono do maior comércio da comunid ade Cuiuanã, na Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) Piagaçu-Purus. No ‘Mercadinho Ana Lice’ ele vende de tudo: desde alimentos perecíveis e não perecíveis a hélices de embarcações. “Sempre vendi fiado e continuo vendendo, pois há confiança da parte dos meus clientes e da minha parte para com eles. Os pescadores saem para o manejo e deixam suas mulheres com conta no mercadinho. Quando voltam, passam aqui comigo e pagam tudo”, relata. 

O comércio sempre gerou lucro ao empreendedor, mas há pelo menos um ano as coisas melhoraram para a família de Nery e a renda dobrou. “Sou um entusiasta e estou sempre procurando melhorar meu comércio. Aqui tenho telefone público, vendo cartões para orelhão e meu comércio funciona praticamente desde as primeiras horas do dia até às 22h”, contou. 

Desenvolvimento
Com a chegada do Programa “Luz Para Todos” e internet via satélite ele pôde contratar os serviços do Bradesco Expresso, um serviço de correspondente bancário que permite aos pequenos comerciantes efetuarem transações, abrirem contas correntes e realizarem saques e depósitos. Agora, Nery também se considera um bancário. 

“Foi muito bom para mim porque antes as famílias iam receber seus salários e a renda do Bolsa Floresta no município de Beruri e acabavam gastando e deixando o dinheiro lá. Hoje, com essa facilidade, eles fazem todas as transações aqui e o dinheiro acaba girando na própria comunidade”. 

Sem custo adicional, o comerciante oferece transações financeiras, como recargas e pagamentos de contas, e ainda aumentou o fluxo de clientes em seu estabelecimento. “No dia de pagamento do Bolsa Floresta muitos clientes já aproveitam para fazer compras no meu comércio. Isso é bom para eles também, que não precisam mais gastar se deslocando até a cidade para receber e fazer compras”.

Com acesso à internet, ele passou a pedir as mercadorias e fazer negócios por meio da rede mundial de computadores. “Não me imagino mais sem tecnologia”. 

Energia elétrica
Aos poucos, o desenvolvimento chega na comunidade. Beneficiada com o Programa Luz Para Todos, a energia elétrica foi um grande passo na vida das famílias e especialmente para Nery, que reduziu os custos com compra de diesel que alimentavam os geradores. “Antes eu gastava pelo menos R$ 1 mil com geradores para ligar as freezers. Hoje minha conta de energia não dá nem R$ 200”. 

Infelizmente, nem todas as comunidades foram beneficiadas com energia elétrica. Das 57 comunidades, o Programa Luz atende apenas sete comunidades em dois municípios. Em números, de quase 6 mil habitantes, uma média de 2 mil têm acesso à luz elétrica, em 418 domicílios. Mas, para Nery, a criação da reserva, em 2003, foi responsável pelo desenvolvimento econômico que vem acontecendo nas comunidades. “Se não fosse a reserva estaríamos vivendo como antigamente. Sem peixes, sem dinheiro e sem esses incentivos”.

Extrativismo é aliado no sustento
Além do manejo de peixes, em especial do pirarucu, que é uma das principais atividades econômicas da reserva, o extrativismo de castanha e de açaí também é um forte aliado no sustento das famílias ribeirinhas. Para o pescador e agricultor Rui da Silva Barbosa, 43, morador da comunidade Nossa Senhora do Livramento, a colheita das duas especiarias hoje são suas maiores fontes de renda. 

“É minha principal atividade, até mais que o manejo do pirarucu. Sempre trabalhei com açaí e agora, com mais organização, tendo para quem vender meu produto, o trabalho melhorou muito. Antes eu precisava jogar fora litros e mais litros de açaí que estragavam porque  não tinha como armazenar e nem para quem vender. Hoje já há todo um método de trabalho”, explica.

Castanha do Brasil
Os agricultores das comunidades da RDS também tiram da castanha do Brasil grande parte da renda familiar. Por ser considerada uma commodity, com preço definido no mercado internacional, o Amazonas passou a ser um dos grandes exportadores nacional e internacional.

Com a reativação da Usina de Beneficiamento de Castanha no município de Beruri, distante 173 quilômetros de Manaus, que foi criada em 2007 mas passou um tempo parada,  os produtores têm para quem vender o fruto a cada colheita, uma vez que maior produção da castanha do Estado parte da RDS. 

“De dezembro a maio tem o período da safra e a de produção é de janeiro a junho. Na última safra compramos 14 toneladas só da reserva. Além de ajudar as famílias, a usina beneficia 60 famílias direta e indiretamente”, conta Keivan Hamoud, gerente administrativo da usina. 

A castanha passa por todo um processo antes de ser exportado, desde a secagem solar, com maquinário, quebra e seleção das melhores castanhas. “Por enquanto, neste período de crise, nos tornamos prestador de serviço. Beneficiamos a castanha para clientes definidos. Mas a intenção é buscar financiamento para passarmos a comercializar a castanha”, completa.

 ‘Chegando onde o governo não vai’

 As parcerias com órgãos e instituições são de extrema importância para o funcionamento das atividades dentro das reservas do Estado. O Programa Bolsa Floresta (PBF), por exemplo, uma política pública estadual por intermédio da Lei 3.135, sobre Mudanças Climáticas, Conservação Ambiental e Desenvolvimento Sustentável do Amazonas, e da Lei Complementar 53, sobre o Sistema Estadual de Unidades de Conservação (Seuc), atua por meio de quatro componentes: Renda, Social, Familiar e Associação. 

Jousanete Lima Dias, coordenadora da regional Negro-Amazonas da Fundação Amazonas Sustentável (FAS), que gerencia o PBF, explica que o programa atende a 15 unidades de conservação atualmente, um total de quase 9 mil famílias em mais de 10 milhões de hectares. 

“São investimento que variam bastante, tivemos investimentos relacionados ao bolsa floresta social, que ajudaram comunidades de terem acesso ao transporte rápido de saúde emergencial, construção de escolas, poços artesianos e radiocomunicação. Pessoas que não se falavam há anos conseguiram restabelecer os contatos com parentes”, conta. 


 
Atualmente quem mantém os principais componentes para os projetos é Fundo Amazônia. “Eles  nos repassam um aporte e é como a gente  consegue manter essas ações. A ideia é ir com esses projetos onde o poder público não chega. A parceria com empresas privadas são importantes para isso. Sem eles, não estaríamos avançando na melhora da qualidade de vida do ribeirinho”.


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