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Amazônia
RDS Rio Negro

Ribeirinhos da Comunidade Santa Helena do Inglês investem no turismo

Protagonistas de uma história de transformação, comunidade apostou no turismo de base comunitária para geração de renda 16/10/2016 às 05:00 - Atualizado em 16/10/2016 às 12:28
Luana Carvalho Manaus (AM)

Eles abandonaram as motosserras e apostaram na preservação e no turismo de base comunitária. Da floresta secundária que envolve a Comunidade Santa Helena do Inglês, na Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) do Rio Negro, “nada mais se tira a não ser fotografias, nada se leva, senão recordações”. 

Quem diz são os próprios moradores, que há pelo menos cinco anos pararam de  explorar a floresta e tornaram-se verdadeiros guardiões da natureza. Eles também investiram pesado em uma pousada construída há quase três anos, gerida pela própria comunidade, localizada a 60 quilômetros de Manaus. 

“Foi uma boa troca. Antes desmatávamos a floresta e criávamos gado. Hoje plantamos árvores, pés de tucumãs, abacaxi, mandioca pra fazer nossa própria farinha. Somos uma comunidade sustentável”, conta Liliane Mendonça, que foi a primeira gerente da Pousada Vista Rio Negro.
  
Assim como a floresta, os comunitários também estão em processo de renovação. Mas não foi fácil abandonar a principal atividade econômica: extração de madeira.   “Antes a gente vivia de exploração de madeira, era a renda que tínhamos. Mas a extração foi proibida então ficou muito difícil para todas as comunidades. Muitas pessoas foram embora para a capital atrás de emprego. Foi aí que surgiu a ideia do turismo de base comunitária”, relata Rosimeire da Silva Mendonça, a nova gerente da pousada.

Como a maioria dos moradores, ‘Meire’ (como é conhecida) também nasceu e se criou no igarapé do Inglês, que corta a Comunidade Santa Helena.  “Tenho um objetivo de levar essa pousada para frente, porque até o momento ela não gera renda suficiente. Tínhamos várias opções para investir, mas os comunitários optaram por uma pousada, pois nesse meio tempo, desde que proibiram o desmatamento, as outras comunidades da reserva vem trabalhando com o turismo”. 

‘Paraíso escondido’   

Apesar de pouco divulgado, o atrativo tem um enorme potencial turístico, bem como toda a região do baixo Rio Negro. No café da manhã, sucos de frutas naturais, a tradicional tapioquinha, cará e a macaxeira plantada na própria comunidade são como um ‘abre alas’ para quem visita o lugar. No almoço, os mais variados peixes amazônicos, pescados horas antes, são irresistíveis.

A experiência é uma verdadeira  imersão na vida ribeirinha. As atividades são as mesmas praticadas pela comunidade, como pesca de caniço, rede ou zagaia, jogo de futebol no entardecer, passeio na casa de farinha, banho de rio, uma noite com contador de histórias e o deslubrante pôr do sol visto da praia do Iluminado, que tem aproximadamente dois quilomêtros de areias branquinhas. 

A sensação é de paz e conexão com a natureza. O rio negro reflete uma cor laranjada e o céu fica rosa, como se fosse uma pintura. O responsável por levar os turistas aos os passeios é Rosineuto da Silva, que cresceu na comunidade e também é protagonista desta história.

“Quando a gente trabalhava com madeira era difícil, a gente entrava dentro da mata e tinham muitos perigos, como ser picado por cobra ou ser atacado por onça. Agora estamos nos renovando por meio do turismo. Tem que dá certo, é um modo de a gente ganhar um dinheiro mantendo a floresta em pé”, diz, otimista. 

‘Rastros  do passado’

Um dos atrativos é o passeio na trilha, a mesma que madereiros usaram para cortar madeira desde 1969. Os vestígios do desmatamento aparecem em meio às espécies de árvores como a cumaru, macucu, arabá, abiurana, angelim, entre outras. 

Ainda é possível ver as madeira que foram cortadas e deixadas para trás, intactas, resistindo há pelo menos 15 anos em meio às novas árvores que estão crescendo. “A gente olha pra isso aqui hoje em dia e se surpreende com a capacidade que a natureza tem de se renovar. É emocionante”, desabafa Rosineuto. 

Durante a noite, um céu estrelado hipnotiza os visitantes. Ao relento é possível observar vários corpos celestes, as chamadas ‘estrelas cadentes’. A cada pedido, surge a vontade de recomeçar um novo dia.

'Guardião da comunidade'

A hospitalidade, simplicidade e sabedoria dos caboclos ribeirinhos causam encantamento aos turistas. O fundador da comunidade, Demétrio Vidal de Mendonça, é um destes personagens. Aos 65 anos, é o contador de histórias do local. À noite ele reúne os hóspedes e conta os causos sobre a curupira, mapinguari e onças que ele já enfrentou na floresta. 

“Quando cheguei aqui era tudo mato. Cheguei solteiro, trabalhei um ano e depois me casei. Construí uma família, fiz uma casa e comecei a plantar roça, mas minha atividade principal era a extração de madeira. Tenho muitas histórias para contar”, relembra. 

Em 1969, quando ele começou a explorar a floresta, não existia motosserra e a extração era feita com machado e serrote.  “Era muito difícil,  a gente tinha que lavrar a madeira com machado e depois ia serrar”. Há pouco mais de dois anos ele parou, de vez, com a atividade. “Foi o tempo que a proibição ficou muito grande e agora não tem mais muito mercado. Agora a gente  vivi só da atividade de plantio de roça , pesca e  turismo”.

Foi cortando madeira e fazendo farinha - atividade que ele exerce até hoje - que seo Demétrio criou dez filhos, junto com sua companheira Raimunda Brito de Mendonça, 58, a farinheira oficial da comunidade. 

Com o turismo sendo desenvolvido nas comunidades da RDS Rio Negro, eles conseguem movimentar a economia vendendo o que plantam.  “A principal diferença entre a época do desmatamento e agora é que hoje a gente já tem pra quem vender uma farinha, tem como vender um peixe, tem mercado aqui, principalmente para a goma de tapioca e macaxeira. Naquela época era só madeira que dava dinheiro. A gente  vai vivendo assim, não carece mais cortar a madeira que a gente cortava primeiro, era um trabalho muito pesado”. 

Ele conta também já sente os efeitos das mudanças climáticas, mesmo sem saber escrever ou nunca ter lido sobre as alterações do clima.  “Hoje o calor tá muito grande. Onde não tem árvore, quando a gente está no meio do roçado é uma quentura horrível. Mas quando chega no meio das árvores já sente uma diferença, outro clima. Mata a gente não derruba mais”. 

Independência do empreendedor da floresta

Criada em 2008, a Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) do Rio Negro possui  19 comunidades,  das quais nove desenvolvem atividades relacionadas ao turismo e artesanato.  Entre elas, a Comunidade Santa Helena do Inglês, que em 2014 começou a investir no turismo com recursos do componente Renda do Programa Bolsa Floresta (PBF), gerenciado pela Fundação Amazonas Sustentável (FAS).

O supervisor de empreendimento e  negócios sustentáveis  FAS, Wildney Mourão, conta que o papel da instituição é de apoiar com consultorias voltadas ao desenvolvimento de negócios. “O objetivo é empoderar o empreendedor da floresta.  Uma coisa bacana é que quando você deixa de cortar árvore e passa a ter uma consciência voltada ao turismo, consegue enxergar nele potencial e atratividade, enxergar que a floresta é muito mais valoroza em pé do que de fato derrubada. É um serviço turístico, honesto e extremamente bonito, usando o ativo principal da Amazônia que é  a vida do ribeirinho”, frisa.

Para ele, a humanização do serviço turístico de base comunitária é um diferencial. No entanto, ainda faltam políticas públicas de incentivo. “Tem um conjunto de coisas que poderiam estar alinhadas, precisamos ainda de um olhar governamental, com uma política voltada e estimular serviços que valorizem produtos da Amazônia. Mas falta também as pessoas que moram aqui valorizar isso e tornarem público. É um tipo de turismo pouco conhecido”.

A mestre em turismo, Olinda Marinho,  que visitou o empreendimento no último fim de semana, conta sobre a vivência. “É uma experiência única. Aqui no Amazonas é a primeira vez que participo de uma experiência onde convivi com a comunidade”.

Como chegar:

​A comunidade está localizada no município de Iranduba e ainda não possui serviço próprio de traslado, mas é possível chegar na pousada através de lanchas ou recreios que saem do porto da Manaus Moderna ou do São Raimundo.  A comunicação com os comunitários para fazer reserva é difícil, mas vale a pena insistir pelos números (92) 991321080 ou (92) 981539567. No local não há internet, mas na comunidade vizinha,  Tumbira, os comunitários têm acesso à página da pousada no Facebook, com o nome ‘Pousada Vista Rio Negro', e podem responder as solicitações. A diária para o casal custa R$ 230 com refeições inclusas.

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