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Estudo revela que desmatamento interfere na movimentação das nuvens de chuva

A pesquisa foi feita por quatro americanos com base em análises de duas décadas de dados e modelamento atmosférico em Rondônia, coletados pelo Programa de Grande Escala da Biosfera-Atmosfera na Amazônia 26/03/2017 às 17:46 - Atualizado em 27/03/2017 às 11:49
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Desmatamentos e queimadas ‘empurram’ a chuva para outras áreas (Foto: Arquivo/AC)
Silane Souza Manaus (AM)

O desmatamento pode provocar uma redução de 25% no regime de precipitação de chuva de um lugar e aumentar na mesma proporção esse regime em outra área da mesma região. Isto quer dizer que o desflorestamento causa um deslocamento da disposição do vapor d’água na atmosfera. O fato foi observado em Rondônia, que tem 52% de sua área desmatada. Ainda não se sabe se o efeito também ocorre nos demais Estados da Amazônia. É preciso fazer novos estudos para chegar a essa conclusão, apontam pesquisadores.

Mas o primeiro passo para essa exploração foi dado e, pela primeira vez, um estudo demonstrou que a rugosidade (irregularidade) da floresta é determinante na formação de chuva na Amazônia. A pesquisa foi feita por quatro pesquisadores americanos com base em análises de duas décadas de dados e modelamento atmosférico em Rondônia, coletados pelo Programa de Grande Escala da Biosfera-Atmosfera na Amazônia (LBA). O resultado foi publicado no último mês, na revista “Nature Climate Change”.

Para o gerente do Comitê Científico do LBA, Paulo Artaxo, o estudo é muito importante porque abre novas linhas de trabalho para os pesquisadores. “Ainda não é possível saber se o que aconteceu em Rondônia pode ocorrer no Pará, por exemplo, pois cada região tem sua peculiaridade. Outra questão é que esse efeito foi observado na estação seca, não sabemos se também ocorre com a mesma intensidade na estação chuvosa. Temos que desenhar experimentos olhando para essas respostas”, explicou Artaxo.

O pesquisador afirmou que eles sabiam que a alteração da rugosidade da floresta poderia ter um efeito sobre a precipitação. “Mas esse tipo de estudo nunca tinha sido feito. É ótimo que eles descobriram esse fenômeno e agora outros pesquisadores brasileiros ou de fora vão olhar para isso e fazer outros estudos, por exemplo, no Mato Grosso, que tem enormes áreas desmatadas. A pergunta que eles devem responder é se também houve esse deslocamento da chuva por lá”, completou o físico.

Novos estudos
Paulo Artaxo, que também é pesquisador da Universidade de São Paulo (USP), revelou que, a partir desta descoberta, o LBA vai fomentar pesquisas para estudar se esse tipo de fenômeno ocorre em outras regiões e estações do ano e os impactos desse processo. “Não há menor dúvida quanto a isso. Nós sempre estamos abertos para trabalhos inovadores e que possam auxiliar no entendimento das questões críticas que mantêm o ecossistema amazônico, como a chuva”, apontou.

Diversos fins
Artaxo, que junto com o também pesquisador Jeffrey Q. Chambers, da Universidade da Califórnia (EUA) assinou artigo comentando o estudo publicado na “Nature Climate Change”, afirmou que o resultado da pesquisa pode ser utilizado para diversos fins, principalmente para melhorar a previsão da chuva na região amazônica.

“Os modelos climáticos que tentam fazer a previsão da chuva na Amazônia, em geral, erram muito porque esse processo é diferente e muito mais complexo do que em outras regiões. Agora, sabendo que a alteração de rugosidade de superfície tem um efeito muito importante sobre a precipitação e fluxo de vapor d’água, isso deve ser assimilado pelos modelos climáticos e pode vir a melhorar a previsão de chuva desta região”, diz. 

Outra aplicação importante do resultado do estudo, conforme Artaxo, é na produção agropecuária. Segundo ele, nas regiões de plantações como no Norte do Mato Grosso, por exemplo, é possível acompanhar a safra agrícola tendo a previsão precisa de tempo e quantidade de chuva que vai cair no local. Além disso, o pesquisador lembrou que desmatar a floresta tem impacto significativo na produção agrícola, na emissão de vapor d’água e na perda de biodiversidade.

“Esse estudo mostra mais uma razão pelo qual devemos controlar o desmatamento, pois a coisa menos produtiva que você pode fazer por uma floresta é simplesmente derrubá-la e tocar fogo. Tem maneiras muito mais inteligentes de usarmos essa floresta, sua biodiversidade e seus serviços ambientais. Nós precisamos ser mais espertos e aproveitar o potencial que a floresta tem”, enfatizou.

Particularidades
O pesquisador Paulo Artaxo disse que é importante observar que o processo de ocupação da Amazônia é muito diferenciado e por isso não se pode extrapolar o que ocorre numa região para outra. Primeiro é preciso investigar se há mecanismos similares que controlam a chuva numa área funcionando da mesma forma em outra.

Redução seguida de incremento
O Brasil reduziu o desmatamento na Amazônia em 2010: de 28 mil km² em 2004 para 4,5 mil  km² em 2010. Mas, a partir daí, voltou a apresentar aumento do desmatamento, chegando à ordem de 7,5 mil  km² em 2016. Mesma tendência segue o Amazonas.

Blog: Niro Higuchi, coordenador brasileiro do projeto Atto

"É difícil falar porque os estudos estão no início mas as pessoas, às vezes, confundem e acham que o desmatamento afeta a quantidade de chuva num determinado local. Mas, quando a gente analisa globalmente o desmatamento vai pouco afetar. Porém, um fato é que a chuva pode mudar de lugar por causa do desmatamento. Onde chovia muito pode diminuir essas precipitações. A dificuldade ainda é tentar mostrar que a árvore é importante porque ela absorve a água e depois transpira e é uma transpiração lenta, enquanto que se não houver árvore a água cai no chão e evapora com muito mais rapidez. Por isso é importante manter a floresta em pé. O que não se pode simplesmente falar é que: tirou árvore, acaba a água. A água vai continuar circulando por aí, mas pode ser que não circule onde a gente quer ou precisa”.

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